NA FRESTA ENTRE O CORAÇÃO E O ESPELHO

Na vida, há quem, em nome do amor, se perca,
E há quem ame apenas por um eco na cave da alma.
Um falso amor, que é só espelho e máscara,
E um amor-negação, que a própria essência cala.

O mandamento é claro: “Ama o próximo como a ti mesmo”.
Mas como amar o outro, se em nós a fonte secou?
A caridade que a si mesma se devora
É um martírio vão, um sol que não aquece.

O bom cristão, a pessoa de bem, lapida a própria pedra,
Sem carregar a culpa alheia, pesada herança.
Ser gentil com o mundo, sim, mas também consigo:
O próprio rosto é a primeira imagem de Deus a salvar.

Proteger-se não é egoísmo, é acto de criação.
O autocuidado é o altar onde o espírito arde.
Alimentar a alma, para além do ego faminto:
Ter limites é traçar a fronteira do sagrado.

A bondade genuína sabe a hora do “não”,
Do afastamento tático de toda a sombra daninha.
O amor é fundamental, mas o amor-próprio é a base:
Só não se perde no outro quem em si mesmo se encontra.

O amor sábio é fortaleza, é limite que protege,
Reconhece que o cuidar de si é o primeiro mandamento
Para, com mãos cheias e não vazias, cuidar do mundo.

Pois a sintonia sem discernimento é um rio sem leito,
Inunda tudo e nada rega, é tão estéril
Como a dureza sem empatia, gelo e pedra.
A sabedoria, essa rara arte, habita no equilíbrio:
No centro exacto entre a entrega e a preservação.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

6 comentários em “NA FRESTA ENTRE O CORAÇÃO E O ESPELHO”

  1. ” A sabedoria, essa rara arte, habita no equilíbrio…” desculpe estar sempre a incomodar, mas o que eu muitas vezes sinto é a dificuldade em encontrar o equilíbrio,… nem sempre é fácil encontrá-lo! Mais uma vez, obrigada pelo texto

  2. Mila Cerca, o seu comentário é uma partilha que enriquece profundamente a reflexão.
    Tem toda a razão. A frase “a sabedoria habita no equilíbrio” soa, por vezes, como uma meta inalcançável, quase uma provocação gentil nos dias em que o chão parece inclinar-se para todos os lados. Gosto de pensar que o equilíbrio não é um ponto final onde chegamos e ficamos, estático e perfeito. Ele é muito mais como o acto de andar de bicicleta: uma série de pequenos ajustes contínuos, onde, por vezes, nos inclinamos mais para um lado, travamos a tempo, e seguimos. O importante não é nunca oscilar, mas sim a coragem de se reequilibrar a cada instante. Grande parte das vezes o problema vem das circunstâncias.
    A dificuldade em encontrar o equilíbrio não é uma falha, mas sim o sinal de que é uma pessoa consciente, atenta e refletida, encontrando-se no caminho certo. É nessa busca que a tal sabedoria vai, de facto, criando raízes.
    Agradeço eu a sua partilha, tão honesta e humana. É um lembrete precioso de que não estamos sozinhos nesta caminhada.

  3. Manuela Silva , de facto, a citação que faz, resume tudo e ensina que o verdadeiro amor e a ligação saudável só são possíveis entre duas pessoas que já são completas por si mesmas embora no reconhecimento de um caminho comum e com um objectivo para lá de necessidades de cada um.
    Se não nos encontramos a nós mesmos, buscamos no outro o pedaço que nos falta. Isso cria uma relação de dependência, ciúmes, controle e medo da perda.
    Se nos encontramos a nós mesmos, relacionamo-nos por adição, não por necessidade. Escolhe-se compartilhar a própria vida completa com outra pessoa completa, criando uma relação baseada na liberdade, no respeito mútuo e no crescimento conjunto. O famoso “Conhece-te a ti mesmo” do Oráculo de Delfos, define o pressuposto para que o amor não seja uma prisão, mas uma escolha livre e diária entre dois seres que se mantêm inteiros.

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