QUANDO SE JUNTA A ESQUERDA E A DIREITA EM LUTA CONTRA A POBREZA?

No coração da sociedade lateja a úlcera de uma pobreza que contesta a democracia portuguesa

A pobreza em Portugal não é uma estatística passageira. É uma chaga persistente, uma fronteira invisível que divide o país ao meio e corrói, dia após dia, o coração da nossa democracia. Em 2025, cerca de 1,995 milhões de portugueses encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social, o que corresponde a 18,6% da população, menos 1,1 pontos percentuais do que no ano anterior. A taxa de privação material e social desceu para 10,2%, embora quase três em cada dez pessoas continuem sem capacidade para suportar uma despesa inesperada, enfrentando a angústia diária de não conseguir viver com dignidade.

Os rostos desta emergência expressam-se sobretudo nas crianças que crescem em agregados familiares onde por vezes menos de 422 euros têm de chegar para um mês inteiro; são os idosos, com 23,8% dos maiores de 65 anos em risco; são as mulheres, que representam 56% das pessoas em situação de pobreza. São, ainda, os trabalhadores pobres, um dado que desmonta um dos pilares da nossa convicção social: quase metade (49,3%) dos adultos pobres estão empregados, mas o trabalho, afinal, já não garante, por si só, a libertação da miséria. O limiar de Pobreza (2025) é quem vive com menos de 632€/mês (ou cerca de 700€ segundo outras fontes baseadas em 2025).

A Prosperidade Ilusória e a Conta no Fim do Mês

Portugal ocupa o 26.º lugar em prosperidade na Europa. Para se viver com tranquilidade, estima-se que seja necessário um salário entre 2.500 e 3.000 euros líquidos. A realidade, porém, pinta um quadro diferente: as despesas médias familiares rondam os 2.900 euros, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer. É uma matemática do aperto, onde qualquer imprevisto se transforma em crise. (Naturalmente nas médias têm muito peso tanto os ordenados como os gastos das populações com estatuto económico mais relevante).

A taxa de pobreza entre os desempregados é de 42,6%, um número que fala por si. Mas o que verdadeiramente deve alarmar-nos é a normalização da precariedade entre quem trabalha e a solidão económica na velhice, após uma vida de descontos.

A Paralisia Perante um Problema Solucionável

Enquanto isto, a política parece navegar à superfície, incapaz de travar o aprofundamento do abismo que separa ricos e pobres, não só em Portugal, mas globalmente. A distribuição de riqueza mundial é uma fotografia da injustiça: 1,6% da população detém quase 48% da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham 0,6%. Esta desigualdade, que condena milhares de milhões à insegurança alimentar, não é um fenómeno distante. É o sistema económico no qual estamos todos inseridos e do qual Portugal não está imune.

Há, pois, uma contradição democrática gritante. Proclama-se que a terra e os seus frutos são para todos, mas constrói-se uma sociedade onde a escadaria social tem degraus partidos. Chega-se a ter a impressão que em política cada um trata apenas da “sua vidinha”, preso a ciclos eleitorais curtos e a debates estéreis? Não se pede uma equalização forçada e irrealista de todas as condições. Pede-se honra, coerência e coragem de Portugal longe das contendas entre as potências deixar de contribuir para guerras geopolíticas resultantes da ganância das potências. Pede-se uma política que coloque no centro a dignidade humana inegociável e crie, como prioridade absoluta, uma plataforma mínima de vida digna para todos: em habitação, em alimentação, em saúde, em educação.

O Apelo da “Guerra Santa”: Unir o que a Pobreza Divide

Por isso, a pergunta que se impõe não é partidária, é civilizacional: Quando é que a esquerda e a direita se juntam numa verdadeira “guerra santa” contra a pobreza? Uma guerra que não seja de palavras, mas de ações concretas; que mobilize recursos com a mesma determinação com que se mobilizam para outras crises; que una o país em torno do único objetivo que verdadeiramente o pode nobilitar: erradicar a humilhação da necessidade.

Esta não é uma guerra de ideologias, é uma guerra de humanidade. Enquanto houver uma criança a crescer privada do essencial, um reformado a escolher entre comida e medicamentos, ou um trabalhador a ver o seu ordenado evaporar-se antes do fim do mês, o projeto democrático estará inacabado. A pobreza é o inimigo comum. Estará a nossa política à altura de declarar-lhe guerra, finalmente?

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1)    https://ffms.pt/pt-pt/estudos/pobreza-e-desigualdade-estao-diminuir

https://pessoas2030.gov.pt/2026/01/16/risco-de-pobreza-em-portugal-atinge-em-2024-o-valor-mais-baixo-dos-ultimos-20-anos/

https://on.eapn.pt/produtos/relatorios/

O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

Limiar de Pobreza: Em 2024, este limiar fixou-se em 723 euros mensais por adulto. : Cerca de 9% da população empregada continua em situação de pobreza, .Açores, Alentejo e Oeste/Vale do Tejo registam taxas de pobreza superiores a 17%

Taxa de Risco de Pobreza: Atingiu 15,4% da população em 2024 (dados revelados no final de 2025), indicando uma redução.

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

10 comentários em “QUANDO SE JUNTA A ESQUERDA E A DIREITA EM LUTA CONTRA A POBREZA?”

  1. Precisamente… Falta-lhes inteligência para todos trabalharem para o bem comum…
    Andam sempre às turras a descobrirem os podres uns dos outros…

  2. Desde há meia dúzia de anos a esta parte, e choca o que vou dizer, tudo ficou ao contrário, perverso, percebi que num virar de página, se fez tábua rasa dos valores e pilares, até então tão proclamados e protegidos. Esta percepção tem-se mostrado real e sobre ela me interrogo e encontro minhas respostas. De facto, ter no poder homens que pelos seus egos, taras e vaidades, que não têm no seu horizonte Deus, tudo na prática individual desse homem e na construção colectiva de um mundo melhor, vira uma verdadeira utopia. Esse mesmo homem que quer impor uma nova “engenharia social” que reflecte essa mesma ambiçao, de se sentir acima da perfeita ordem natural, é um homem perigoso e de mente satânica. E tudo o que dele possa vir é mal e morte e essa morte vai chegando da cúpula, à base dos que estão no poder. Com uns a entrada é fácil e com outros será só e apenas mais difícil, mas o sentido é esse, uma cultura de morte. Eu gostava de sentir outro homem e outro mundo, mas é isso que tenho intuido e tristemente confirmado! Partindo deste pressuposto, fico a sentir igualmente, que será um esforço inglório pensarmos em soluções altruistas, quando da cúpula tudo o que temos é narcisico, egocêntrico e vaidade intelectual.
    O que me salva e muito bom me resta, é acreditar que tudo é cíclico e que o Bem é mais forte e a ele havemos de chegar…
    Eu alimento-me desse Bem e prossigo nessa prática, nessa confianca, nessa esperança…

  3. Manuela Silva, a sua reflexão ecoa uma dor que é, também, a de tantos que observam o tempo presente com olhos inquietos. O que descreve não é apenas uma crítica política e às esperanças que o 25 de abril não deu resposta, é sobretudo um grito que nasce da alma, ferida pela sensação de que algo essencial se quebrou. Essa perceção de que o poder, em vez de servir, se serve e de que a engenharia social tenta substituir a sabedoria da vida e de que o ego e a vaidade ocupam o lugar da grandeza de espírito, tudo isso fala de uma ferida aberta no coração do humano.
    E, no entanto, o que me parece mais belo e mais profundo no seu desabafo é a última parte em que manifesta aquilo que a salva. De facto, a lucidez que denuncia o mal não a impede de ver o Bem, de o cultivar, de o alimentar dentro de si. Essa confiança de que tudo é cíclico, de que a noite não dura para sempre, e de que a esperança é uma semente que germina mesmo em terra árida, isso é, talvez, o acto mais revolucionário que podemos praticar. Sem esperança não há sol que ilumine nem que aqueça.
    O mundo precisa de homens e mulheres que, como a senhora, não se deixam vencer pelo desencanto embora se sofra muito. Precisa de pessoas que continuam a semear o bem, mesmo quando à sua volta parece reinar o vazio. A história ensina-nos que as grandes mudanças nascem, quase sempre, não das cúpulas, mas das bases, daquelas almas que, silenciosamente, recusam render-se à lógica da morte. Também a revolução surgiu do descontentamento mas as pessoas nela envolvidas encontravam-se com uma mundivisão do mundo do divide para imperar e não do governa para integrar.
    Alimente-se desse bem cultivando a confiança. De facto, é nessa fidelidade ao que é bom, verdadeiro e belo que se constrói, dia a dia, o mundo que ainda há de vir. E nunca é inglório o esforço de quem escolhe a luz, mesmo quando as trevas parecem ganhar.

  4. Quando esquerda e direita perceberem que a dignidade humana é o verdadeiro centro da democracia, então começaremos finalmente a curar a úlcera que corrói a nossa sociedade.
    A luta contra a pobreza não é uma bandeira partidária.
    É uma obrigação moral.

  5. A fazer há muito: luta constante por melhores condições de vida, sobretudo no essencial, saúde, educação e habitação. Quando digo luta, pretendo dizer ação cívica a todos os níveis: sindicais, civis, manifestações, exigir aos partidos políticos melhores orçamentos para os desfavorecidos e em concreto para os pobres.

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