Introdução
Numa sociedade cada vez mais globalizada e intercultural, a questão do bilinguismo assume uma importância crescente para as famílias, as escolas, a política e a sociedade em geral. Na qualidade de alguém que adquiriu várias línguas, contactou com diversas culturas e lecciona há décadas no ensino da língua materna, procuro neste trabalho articular a experiência pessoal com o conhecimento científico, oferecendo uma orientação prática a pais, educadores e decisores políticos na área da educação (1).
O que é o bilinguismo?
Não existe, na investigação científica, uma definição universalmente aceite de bilinguismo, dado que diferentes abordagens assentam em critérios distintos. De forma geral, o bilinguismo pode ser entendido como a capacidade de se expressar e comunicar fluentemente, oralmente e por escrito, em duas línguas, nas diversas situações da vida. Importa salientar que a maioria dos bilingues possui uma língua dominante e outra menos dominante; a simetria plena entre ambas é relativamente rara.
Distingue-se entre bilinguismo simultâneo (aquisição de ambas as línguas antes dos três anos de idade), bilinguismo sucessivo (aquisição da segunda língua após os três anos), bem como entre bilinguismo aditivo e subtrativo. A investigação demonstra que um início precoce da educação bilingue é particularmente vantajoso: quanto mais cedo se introduz uma segunda língua, mais naturalmente esta é vivida como meio de comunicação e não apenas como objeto de aprendizagem.
A importância das experiências autênticas no processo de aprendizagem linguística
A investigação recente nas áreas da linguística e da pedagogia sublinha de forma inequívoca que a língua não é aprendida de forma isolada, mas sim em contexto vivo. Experiências autênticas, isto é, contactos reais e significativos com a língua no quotidiano, são determinantes para que as crianças não apenas dominem formalmente uma língua, mas a interiorizem verdadeiramente.
As crianças aprendem com todos os sentidos. A aquisição linguística é mais eficaz quando ocorre em situações emocionalmente significativas: ao brincar com outras crianças, ao cozinhar em conjunto, ao ouvir histórias antes de dormir, durante férias no país da língua menos dominante ou através do contacto com avós e outros familiares. Nesses momentos, a língua adquire sentido, deixa de ser um objetivo abstrato e passa a ser um instrumento de vida.
Os estudos mais recentes sobre aquisição da linguagem confirmam que experiências linguísticas contextualizadas e significativas favorecem o processamento neuronal e a memorização. As crianças que vivenciam a língua em interações sociais reais desenvolvem não só um vocabulário mais rico, como também uma sensibilidade linguística mais profunda, que abordagens meramente instrucionais não conseguem substituir. O cérebro retém a língua de forma mais duradoura quando esta está associada à emoção, à ação e à vivência social.
Daqui decorrem implicações concretas para a educação linguística no seio da família: estadias de férias no país da língua minoritária, contacto regular com falantes nativos, canções, histórias, jogos e dramatizações na língua-alvo não são meros complementos, mas pilares essenciais de uma educação bilingue bem-sucedida. A língua deve ser vivida, não apenas ensinada. Como a experiência demonstra, durante férias em Portugal, a língua menos dominante das crianças tende a tornar-se, temporariamente, a língua principal, a mudança ocorre de forma natural.
Igualmente relevante é o papel dos modelos: professores, colegas, músicos ou outras figuras de referência que utilizam a língua de forma viva oferecem à criança motivos para a considerar valiosa e desejável.
Estado emocional e carga mental
Um aspeto frequentemente subestimado da educação bilingue é a sua dimensão emocional. A língua não é apenas um fenómeno cognitivo, mas profundamente emocional. A língua materna é a língua do afeto, é nela que se sente, se sonha e se pensa. Em momentos de maior excitação ou emoção intensa, as pessoas tendem a regressar quase automaticamente à língua dominante. Este facto deve ser respeitado no contexto da educação bilingue e não interpretado como um fracasso.
Os resultados da psicologia do desenvolvimento e da pedagogia alertam para o seguinte: a estabilidade emocional da criança nunca deve ser comprometida pelo processo de aprendizagem linguística. Pressão excessiva, correções constantes, imposição de uma língua em momentos sensíveis ou expectativas perfeccionistas relativamente à língua menos dominante podem gerar ansiedade, receio de falar ou até recusa da língua. A educação bilingue deve decorrer num ambiente afetivo, seguro e isento de medo, em que o erro seja encarado como parte natural da aprendizagem.
Torna-se particularmente problemático quando a educação bilingue se transforma num foco de conflito familiar. Se uma língua estiver associada a experiências negativas, seja devido a tensões familiares, rejeição social ou expectativas desajustadas, tal pode refletir-se diretamente no desenvolvimento linguístico da criança. A recusa de uma língua constitui frequentemente um sinal de natureza emocional, e não linguística.
Estudos recentes indicam ainda que uma sobrecarga cognitiva, por exemplo, a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita em duas ou três línguas numa idade muito precoce, pode ser contraproducente. Recomenda-se, por isso, iniciar a alfabetização na língua do meio envolvente e introduzir a segunda língua com um intervalo aproximado de um a um ano e meio. Deste modo, o cérebro da criança dispõe do tempo necessário para consolidar sistemas ortográficos estáveis sem sobrecarga.
O papel da família e do meio social
A família constitui o contexto mais relevante da educação bilingue. O princípio metodológico mais eficaz é o denominado “uma pessoa, uma língua”: cada progenitor comunica consistentemente com a criança na sua língua materna. Este método favorece a sensibilidade fonética, facilita a organização das línguas e ancora cada língua numa relação pessoal.
É fundamental que ambas as línguas e culturas sejam valorizadas no seio familiar. Nenhuma língua deve ser associada à obrigação e a outra ao prazer. Ambas devem ser vividas como equivalentes, ligadas a experiências positivas, proximidade afetiva e vivências partilhadas.
O meio social, jardim de infância, escola, grupo de pares, desempenha igualmente um papel importante. Entre os seis e os doze anos, a língua menos dominante encontra-se particularmente vulnerável, devido à forte influência dos pares e da língua escolar. Estadias regulares no país da língua menos dominante, ensino da língua materna e instituições bilingues podem constituir importantes fatores de equilíbrio.
Resultados científicos e conclusão
Contrariamente a perspetivas negativas do passado, a investigação atual demonstra de forma clara que o bilinguismo não prejudica o desenvolvimento cognitivo nem linguístico. Pelo contrário, as crianças bilingues desenvolvem mais precocemente a consciência metalinguística, aprendem outras línguas com maior facilidade, evidenciam maior flexibilidade cognitiva e revelam maior abertura e tolerância cultural do que os seus pares monolingues.
Os efeitos positivos do bilinguismo são particularmente evidentes quando ambas as línguas se encontram bem desenvolvidas, quando a aprendizagem ocorre num ambiente emocionalmente seguro e quando experiências autênticas com ambas as línguas ocupam um lugar central. A língua deve ser vivida como fonte de prazer e enriquecimento, e não como um encargo.
Em síntese, as crianças bilingues crescem com uma consciência ampliada. Desde cedo compreendem que as palavras e a realidade não são coincidentes, que existem diferentes formas de ver o mundo e que é possível pertencer a mais do que um universo cultural. Trata-se de um património valioso que deve ser preservado conjuntamente pelas famílias e pela sociedade.
António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo
(1) Neste artigo resumo a minha palestra de 2006 mais actualizada. Quem desejar referências mais específicas relativas ao ensino bilingue pode consultar a palestra em língua alemã https://antonio-justo.blogspot.com/2008/06/bilingualitt.html: também em português no link:https://antonio-justo.eu/?p=3890 Também em português e com um comentário importante em: https://antonio-justo.blogspot.com/2008/06/bilingualidade-um-capital-cultural.html
Este tema é me muito caro, como sabes. Começou cedo a fazer parte da minha vida pq a minha mãe colocou a mim e à minha irmã em aulas de alemão particulares com uma alemã quando eu tinha 14 anos! Mas na infantil desse mesmo colégio das Irmãs Dorotéias no Porto, nós já tínhamos aulas de francês!
Li extratos deste teu artigo que focam as diversas circunstâncias. Espero ler com sossego este artigo
para o usufruir pormenorizadamente!
Obrigado, Manuela, pelo Feedback. No artigo procurei juntar experiência, saber e sentido de viver e educar. Este artigo é apenas o resumo da palestra que em 2006 fiz em Düsseldorf para sindicatos, professores e assistentes sociais, no âmbito do ensino da língua materna. Fiz muita investigação e fiquei sempre muito triste quando me ofereci junto do professorado e responsáveis pelo ensino e nunca tiveram o mínimo interesse por ir além da pedagogia e da didática no ensino de crianças por situação bilingues. Na altura ofereci-me também para fazer conferências aos pais e encarregados de educação, mas apenas me vi reduzido a fazê-lo nas associações de pais nas cidades onde dava aulas! Muito obrigado pelo interesse que manifestaste.
Magnífico, belo, sensível, profundo, verdadeiro, realista, reflexivo, e acatador, gostei bastante amigo, parabéns, bjos
Tania de Melo , obrigado pelo feedback tao compreensivo. Sabe, a riqueza de um texto depende da profundidade de quem o lê, pois tudo é ressonância; sim também a vida se reduz a ressonância! Parabéns pela capacidade e empatia que tem!
Maravilhosa a sua publicação ! Desculpe, sair um pouco da sua publicação , mas falando no desenvolvimento ,onde diz : As crianças aprendem com todos os sentidos — de facto , é verdade como tem razão ! Estavamos todos na sala ,uma criança com quatro anos de idade se quis ezebir e mostrar, como raínha a crer mostrar-se quanto ela valia no amor á sua mãe em obediência , os seus olhos, olhavam, para todos os lados , quase , eu não cria acreditar —, uma criança , sempre o meu pensamento é de amor .—- notei atitude dela com todos os seus pensamentos de inocente ,um olhar, da criança que se elavava com gestos não só com o corpo , mas com, todo o seu ser inocente, de criança tanta coisa ali demonstrou , fiquei de boca aberta , com o seu olhar com toda a sua imaginação, e expontaniedade, que muito admirei, uma criança fazendo vénias á sua mãe uma maravilha de Deus em sua Criação , só pode ser .