A SENHORA DA ASSUNÇÃO É SÍMBOLO RELIGIOSO E EXISTENCIAL DA DIGNIDADE DA MULHER

A solenidade de Nossa Senhora da Assunção é uma das expressões mais belas da esperança cristã. Na sua aparente simplicidade, a fé na elevação de Maria à glória celeste contém uma profunda teologia do ser humano, do corpo, da mulher e do destino último da criação. Celebrar Maria assunta ao Céu não significa afastá-la da condição humana, colocando-a numa esfera inacessível; significa, pelo contrário, contemplar nela aquilo a que a humanidade inteira é chamada: a comunhão plena com Deus.

A tradição cristã confessa que Maria, terminada a sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma à glória celeste. A Assunção, mais do que uma afirmação sobre Maria, é uma proclamação acerca do destino do ser humano. Nela, a esperança da ressurreição aparece antecipada. Aquilo que a fé espera para todos no fim dos tempos encontra-se já realizado, por graça, naquela que acolheu inteiramente o Verbo de Deus.

Maria é, assim, ícone da humanidade redimida e antecipação daquilo que a Igreja é chamada a tornar-se.

Há aqui uma dimensão particularmente significativa para a compreensão cristã da mulher. A fé cristã nasceu e desenvolveu-se historicamente em sociedades predominantemente patriarcais e a própria estrutura institucional da Igreja adquiriu, ao longo dos séculos, uma configuração marcadamente masculina. Contudo, no centro da sua experiência espiritual permanece uma mulher.

Não se trata de opor o feminino ao masculino nem de transformar Maria num argumento ideológico contra a estrutura eclesial. Trata-se de reconhecer uma complementaridade que a própria tradição cristã testemunha de modo que a dimensão mariana recorda continuamente à (Igreja Petrina) dimensão institucional da Igreja que a autoridade cristã só encontra a sua verdade quando permanece ligada à escuta, ao acolhimento, ao serviço, à fecundidade e à entrega.

A devoção mariana representa, nesse sentido, uma poderosa presença do feminino no coração da experiência católica. Pedro simboliza particularmente o ministério e a responsabilidade institucional e Maria representa a Igreja que escuta, acolhe, concebe, dá à luz, acompanha e permanece fiel. Ambos pertencem ao mistério eclesial. Uma Igreja reduzida apenas à organização, ao poder e à administração empobreceria a sua própria natureza; uma Igreja verdadeiramente mariana sabe que antes de fazer deve receber, antes de ensinar deve escutar e antes de governar deve servir.

Maria, a nova Eva

A tradição patrística viu muito cedo em Maria a nova Eva. O paralelismo não pretende responsabilizar a mulher pela queda humana, interpretação que tantas injustiças alimentou ao longo da história, mas mostrar teologicamente que aquilo que foi ferido pela liberdade humana pode ser restaurado por uma liberdade que se abre à graça.

Como Cristo é apresentado como novo Adão, Maria aparece como nova Eva. O seu fiat, «faça-se em mim segundo a tua palavra», não é submissão servil, mas exercício soberano de uma liberdade que confia. Deus não invade Maria: chama-a e Maria responde.

Neste ponto encontra-se uma das mensagens mais profundas da figura mariana para a dignidade feminina. A grandeza de Maria não consiste numa passividade anuladora da personalidade; pelo contrário, encontramos no Evangelho uma mulher capaz de perguntar, discernir, decidir, partir, acompanhar, sofrer e permanecer.

No Magnificat, então, a jovem silenciosa de Nazaré revela uma extraordinária consciência profética. O Deus que ela proclama derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias. Maria não é apenas a mulher da ternura, é também a mulher da palavra profética, da resistência espiritual e da esperança histórica.

O corpo feminino chamado à glória

A Assunção contém ainda uma extraordinária teologia do corpo. Durante séculos, e em culturas muito diferentes, o corpo feminino foi simultaneamente desejado, temido, controlado, explorado e humilhado. Também ambientes religiosos nem sempre conseguiram libertar-se inteiramente dessa ambiguidade. A Assunção, porém, afirma algo radical: o corpo não é um obstáculo à salvação; o corpo pertence à pessoa e está chamado à transfiguração.

A matéria não é desprezada por Deus. O cristianismo é a religião da Encarnação: «o Verbo fez-se carne» e essa carne foi recebida por uma mulher.

O corpo de Maria, que gerou, alimentou e acompanhou Jesus, torna-se na Assunção sinal escatológico da dignidade de toda a corporeidade humana. Não é apenas a «alma» de Maria que é glorificada mas sim Maria inteira. A Assunção constitui também uma contestação teológica de todas as formas de desprezo pelo corpo e, de modo particularmente eloquente, de toda a violência, mercantilização e instrumentalização do corpo feminino.

O corpo da mulher não é objeto nem propriedade de ninguém. Não é mercadoria, é expressão de uma pessoa cuja dignidade procede de Deus. A mulher glorificada na Assunção proclama silenciosamente essa dignidade.

Da Imaculada Conceição à Assunção

A Assunção deve ser contemplada no conjunto do mistério de Maria. A Imaculada Conceição fala da primazia da graça; a Anunciação, da liberdade que responde a essa graça; a maternidade divina, da disponibilidade para oferecer carne ao Verbo; o Calvário, da fidelidade que permanece mesmo quando tudo parece perdido; a Assunção, finalmente, manifesta o destino dessa existência inteiramente aberta a Deus.

Existe, portanto, uma linha interior que atravessa toda a vida de Maria no seu “sim” (Fiat). Não se trata de um único instante em Nazaré. O fiat prolonga-se durante toda a existência: no nascimento e no exílio, na vida escondida, nas incompreensões, em Caná, no caminho de Jesus, aos pés da cruz, na comunidade reunida e, finalmente, na plenitude de Deus.

A santidade cristã não consiste em abandonar a humanidade para alcançar Deus, mas em permitir que Deus transforme profundamente a humanidade. Maria não é glorificada apesar de ter sido mulher, corpo, mãe e criatura. É glorificada na totalidade concreta da sua existência.

A Assunção e a dignidade da mulher

É precisamente aqui que a solenidade adquire uma força cultural e humanística particular. Num mundo que continua a discutir e tantas vezes a violar, a dignidade e o lugar da mulher, a imagem de uma mulher elevada à glória constitui um poderoso contra-símbolo. No imaginário cristão, a criatura humana mais exaltada depois de Cristo não é um imperador, um guerreiro, um filósofo, um sacerdote ou um homem poderoso, mas sim uma mulher de Nazaré.

Isto deveria dar que pensar também à própria Igreja. A veneração de Maria não pode servir de compensação simbólica para a desvalorização concreta das mulheres. Seria contraditório coroar Maria nos altares e diminuir as mulheres na vida quotidiana; cantar a dignidade da Mãe de Deus e não reconhecer suficientemente a voz, a inteligência, os carismas, a experiência e a responsabilidade das mulheres na comunidade cristã e na sociedade. A verdadeira devoção mariana conduz necessariamente ao respeito pela mulher concreta.

Quem honra Maria deve aprender a reconhecer a dignidade da mãe e da filha, da esposa e da mulher solteira, da jovem e da idosa, da intelectual e da trabalhadora, da mulher pobre, migrante, esquecida, explorada ou violentada. Não porque cada mulher seja uma reprodução de Maria, mas porque cada pessoa possui uma dignidade que nenhuma estrutura social, económica, política ou religiosa tem o direito de diminuir.

Maria não substitui Cristo: conduz a Cristo

Importa, contudo, preservar o centro cristológico da fé. Maria não é uma divindade feminina acrescentada ao cristianismo nem uma alternativa a Cristo. Toda a sua grandeza procede da relação com Deus e aponta para Cristo.

Ela própria o diz no Magnificat: «A minha alma glorifica o Senhor». Maria não retém o olhar sobre si; remete-o para Deus.

Por isso, uma mariologia teologicamente madura não diviniza Maria, mas também não a reduz a personagem secundária. Ela é criatura, mas criatura plenamente aberta à graça; discípula, mas discípula singular; mãe de Cristo e, precisamente por isso, imagem da Igreja e sinal da humanidade reconciliada.

A Assunção é obra de Deus em Maria. Cristo ressuscita pelo poder divino e Maria é elevada à glória pela graça de Deus. Esta distinção preserva simultaneamente a centralidade absoluta de Cristo e a extraordinária dignidade concedida a Maria.

Mulher, Igreja e esperança

Talvez seja precisamente aqui que a dimensão feminina do cristianismo tenha algo decisivo a dizer ao nosso tempo.

Há uma racionalidade necessária às instituições: organização, normas, estruturas, autoridade e continuidade. Também a Igreja precisa delas. Mas nenhuma instituição vive apenas de estruturas. Necessita igualmente de relação, cuidado, escuta, interioridade, fecundidade, misericórdia e capacidade de gerar vida.

Essas qualidades não pertencem exclusivamente às mulheres nem os atributos de força e autoridade pertencem exclusivamente aos homens. A linguagem simbólica do feminino pode recordar à Igreja dimensões que uma estrutura historicamente masculina corre o risco de secundarizar.

Maria introduz no coração da Igreja uma lógica diferente da lógica do poder: a lógica da fecundidade.

Ela não conquista, mas acolhe; não domina, mas gera; não se impõe, mas oferece-se. Maria não ocupa o centro pois abre espaço para que Outro possa nascer.

E, paradoxalmente, nessa aparente fragilidade manifesta-se uma força extraordinária. Maria permanece junto à cruz quando muitos fogem. A mulher do fiat é também a mulher do “Stabat”: aquela que sabe estar de pé diante do sofrimento e a sua força não é a força da imposição, mas a força da fidelidade.

A mulher vestida de sol

A tradição litúrgica relacionou também a Assunção com a grandiosa imagem do Apocalipse na mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de estrelas.

Essa mulher possui uma dimensão simultaneamente mariana, eclesial e escatológica. Nela podemos contemplar Maria, mas também a Igreja e, simbolicamente, a humanidade que atravessa as dores da história sem perder a promessa da vitória de Deus.

É significativo que uma das grandes imagens bíblicas da esperança final seja precisamente uma mulher que dá à luz.

A história da salvação não culmina na esterilidade do poder, mas na fecundidade da vida. Por isso, a Assunção não convida à fuga do mundo. Pelo contrário, devolve-nos ao mundo com maior responsabilidade. Se o corpo está destinado à glória, deve ser respeitado agora. Se os pobres serão exaltados, a sua dignidade deve ser defendida agora. Se Deus glorifica aquilo que o mundo despreza, o cristão não pode conformar-se com estruturas que humilham. A escatologia cristã transforma-se, assim, em ética.

Maria, irmã e mãe na esperança

Quando o povo cristão dirige os olhos para Nossa Senhora da Assunção, não contempla uma rainha distante da experiência humana. Contempla uma mulher que conheceu a precariedade, a maternidade, a migração, a preocupação, a perda, a incompreensão e a dor.

Antes da coroa houve Nazaré. Antes da glória houve o caminho. Antes da Assunção houve o Calvário.

É por isso que a devoção popular encontra nela tanta proximidade. O povo reconhece em Maria não apenas a Mãe de Deus glorificada, mas alguém que atravessou a condição humana e agora representa a esperança de que nenhuma lágrima, nenhuma fidelidade e nenhum amor se perdem em Deus.

Maria precede-nos. A sua Assunção diz à humanidade: o vosso destino último não é a decomposição, mas a comunhão; não é o nada, mas a plenitude; não é a humilhação, mas a dignidade transfigurada.

E diz algo particularmente belo à mulher: nenhuma forma histórica de discriminação possui a última palavra sobre aquilo que és.

A festa da humanidade chamada à glória

A Assunção é, finalmente, uma festa de Maria que se transforma numa festa da humanidade. Ao glorificar Maria, Deus revela aquilo que deseja realizar na criação redimida. Ela é aquilo que a tradição cristã gosta de chamar “figura Ecclesiae”: imagem e antecipação da Igreja na sua plenitude.

Nela contemplamos a criatura reconciliada com o Criador, o corpo reconciliado com o espírito, a liberdade reconciliada com a graça, o feminino libertado da humilhação e a humanidade finalmente reconciliada consigo própria.

Por isso, Nossa Senhora da Assunção pode ser compreendida como símbolo religioso e existencial da dignidade da mulher e, através dela, da dignidade de todo o ser humano.

A devoção a Maria não deveria alimentar uma espiritualidade sentimental que afaste os cristãos da realidade. Deveria torná-los mais atentos à dignidade humana. Quanto mais elevada contemplamos Maria no Céu, mais deveríamos aprender a reconhecer a dignidade daqueles que permanecem esquecidos na Terra.

Não basta colocar coroas sobre as imagens de Nossa Senhora se permitimos coroas de espinhos sobre mulheres vivas. Não basta proclamar a glória do corpo de Maria se toleramos a exploração do corpo humano. Não basta chamar-lhe Rainha se continuamos a tratar tantas mulheres como servas.

A verdadeira devoção transforma o olhar e, transformando o olhar, deve transformar também as relações humanas.

Nossa Senhora da Assunção é, deste modo, simultaneamente memória, promessa e apelo: memória da fidelidade de Deus, promessa da glorificação humana e apelo à construção de um mundo onde a dignidade que celebramos liturgicamente seja reconhecida existencialmente.

Em Maria, mulher de Nazaré elevada à glória, o cristianismo contempla a grandeza que Deus pode realizar numa criatura que livremente se abre ao seu mistério. E em cada rosto humano,  particularmente nos rostos femininos que a história tantas vezes silenciou, somos convidados a reconhecer antecipadamente algo dessa dignidade destinada à transfiguração.

Nossa Senhora da Assunção não nos manda simplesmente olhar para o Céu, porque nos ensina a olhar de outra maneira para a Terra.

Porque, se uma mulher da nossa humanidade já participa plenamente da glória prometida, então nenhuma mulher pode ser considerada inferior, nenhum corpo pode ser tratado como coisa e nenhuma existência humana pode ser julgada insignificante.

Na mulher assunta ao Céu resplandece, afinal, a promessa feita a todos nós: a matéria pode tornar-se glória, a fragilidade pode tornar-se força, o serviço pode revelar grandeza e a morte não terá a última palavra e também o corpo é glorificado.

Nossa Senhora da Assunção, mulher do “sim”, mulher que permaneceu de pé junto à cruz e mulher revestida de glória, é ícone de uma humanidade reconciliada e sinal luminoso da dignidade da mulher. Nela, a Igreja contempla aquilo que espera vir a ser; e a humanidade entrevê, como numa aurora, aquilo para que foi criada.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

5 comentários em “A SENHORA DA ASSUNÇÃO É SÍMBOLO RELIGIOSO E EXISTENCIAL DA DIGNIDADE DA MULHER”

  1. Tão sublime é a sua publicação ! Obrigada . Não caibo de contente, o dia é pequeno e a noite não chega …para agradecer , o viver e agradecer hoje este dia tamanha alegria que sinto ser cristã hoje em Igreja , nem há palavras grande contentamento sentir-me filha de uma tão santa Mãe bela e pura humana .. A vida de Maria em nossa vida como Mãe a Senhora que encina, acolhe oferece não ocupa o cento, abre espaço para o outro nascer — Grande é o seu (Sim) encina dignidade de ser pessoa , e Deus a cobriu de graças infindas em verdade e luz., A Senhora da assunção que subio ao Céu em corpo e alma, Ela não nos manda simplesmente olhar o Céu . Encina-nos a olhar de outra maneira para a Terra . Assim Seja e sempre. obrigada .

  2. Neste dia, 15 de Agosto, é o dia em que há mais romarias e festas no país relativas a Nossa Senhora.

  3. Acho o texto bem escrito e é muito provável que seja coerente no quadro da Teologia católica.
    Na interacção com Maria e Jesus Cristo, reparei em minhas leituras nos Evangelhos que em várias situações Jesus responde a sua mãe de forma, digamos, pouco simpática. Dou apenas dois exemplos: nas bodas de Caná, Maria informa o filho que há falta de vinho. Jesus responde-lhe: Mulher, ainda não é chegada a minha hora. Maria sugeriu então aos presentes: Fazei tudo como ele vos disser. Noutro passo, Jesus prega em certo lugar numa casa e está acompanhado de discípulos. Então, um deles avisa o Mestre de que lá fora estão sua mãe e seus irmãos. Responde Jesus: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Todo aquele que fizer a vontade do Pai que está nos céus, esse é minha mãe e meu irmão.
    (Cito de cor sem indicar os capítulos e versículos dos Evangelhos para não sobrecarregar o texto.).
    Penso que nas Igrejas Ortodoxa e Católica existe uma certa idolatria em torno de Maria. Não estou a sugerir que ela não mereça amor e respeito, que não seja bendita entre as mulheres. Mas a centralidade de que goza, por vezes superior à de Jesus Cristo, não tem base bíblica. Jesus Cristo diz em S. João 14:6 : “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim!”
    Atenção ao advérbio de exclusão ” senão” sinónimo de ” a não ser ” por Ele, Jesus Cristo, exclusivamente.
    A Teologia cristã não deverá ser mais cristológica e menos mariológica?
    Gostaria que o autor A. JUSTO escrevesse sobre a historicidade da Assunção, em que espaço e tempo, circunstâncias pessoais ou outras, indicação de fontes, etc., e desde já os meus sinceros agradecimentos e saudações cordiais. Luciano Caetano da Rosa

  4. Luciano Caetano da Rosa, agradeço muito a leitura atenta e as questões levantadas. Talvez a nossa diferença esteja, antes de tudo, nas janelas através das quais olhamos a mesma casa. A perspectiva histórico-crítica é uma janela imprescindível, mas não é a única: há também a teológica, a filosófica, a simbólica, a espiritual e a existencial. Nenhuma delas, isoladamente, esgota o real nem a experiência humana.
    Quanto à centralidade de Cristo, estamos de acordo: o cristianismo é necessariamente cristocêntrico, o que também disse no texto. Na compreensão católica, Maria não substitui nem concorre com Cristo porque toda a sua significação deriva precisamente da relação com Ele. Por isso, veneração não equivale a adoração, que é devida somente a Deus. Naturalmente, a religiosidade popular pode por vezes dar a impressão de obscurecer essa distinção. E isso dá-se talvez porque em Maria está presente a feminilidade e a interioridade que, por vezes falta às instituiões,ideologias e ciências, por se encontrarem equacionadas sobretudo em termos da filosofia masculinizante grega.
    Também as passagens referidas merecem ser lidas no seu contexto literário e teológico. Em Caná, por exemplo, a resposta de Jesus não termina o diálogo: é precisamente depois dela que Maria diz «Fazei tudo o que Ele vos disser», remetendo, portanto, não para si própria, mas para Cristo.
    Quanto à Assunção, seria metodologicamente incorreto procurar demonstrá-la como se se tratasse de um acontecimento histórico documentável nos moldes da historiografia moderna e da mentalidade que a orienta. É uma afirmação de fé e uma elaboração da tradição teológica, cuja historicidade, fontes e desenvolvimento merecem ser distinguidos e estudados criticamente mas sem ter de dar razão a esta ou àquela ideologia.
    Talvez esteja aí o ponto mais fecundo do nosso diálogo: a História pergunta legitimamente “o que aconteceu, onde, quando e segundo que fontes?” e a Teologia pergunta também “que sentido tem isto para a existência humana e para a fé?” São perguntas diferentes diante do mesmo mistério. Uma casa humana precisa de várias janelas e cada pessoa, para compreender o mundo e compreender-se nele, talvez necessite de olhar por mais de uma. Com amizade e um obrigado pelo diálogo. António Justo

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