Todos têm uma e é sempre a mesma:
a deles, sagrada, inegociável,
parida sem esforço e sem pai conhecido.
O argumento foi dispensado
por excesso de exigência.
Pensar doi, opinar, não.
Basta o “eu acho”,
essa pequena fricção solitária
a que o ego chama convicção.
Chamam-lhe debate cívico,
mas é onanismo em coro:
cada um de si para si,
mãos ocupadas, olhos fechados,
a gemer em voz alta
para que o vizinho saiba
que também ele está a gostar.
Ninguém convence, ninguém aprende.
Concluem-se, no máximo,
e saem da sala aliviados,
a limpar-se ao que sobrou da razão,
a jurar que foi encontro.
A pólis, esse grande balneário
de vaidades a esfregar-se,
tem mil cabeças e um só vício:
confundir o ruído que faz
com o pensamento que não teve.
(Opinião sem argumento
é vício de quem não pensa,
muito gesto, nenhum parceiro,
e ainda pede aplauso.)
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo