Do pensamento à Palavra, da Palavra ao Gesto,
do Gesto à plenitude humana
Antes que a luz rompesse a noite escura,
antes que o tempo aprendesse a caminhar,
já a Ideia, em secreta gestação pura,
sonhava um mundo inteiro por criar.
No ventre do silêncio germinava
a forma do que ainda não havia
e o pensamento, em si, já anunciava
a Palavra que um dia nasceria.
E o Verbo fez-se carne entre os humanos,
ponte de amor do eterno ao temporal,
não veio apenas proclamar seus planos,
mas dar ao próprio amor forma real.
Porém, que vale a voz, por mais fecunda,
se a mão desmente aquilo que ela diz?
A Palavra só se torna mais profunda
quando o Gesto lhe dá corpo e raiz.
E quando o Gesto é justo e consciente,
quando o bem se faz hábito e atitude,
a verdade floresce socialmente
e o seu fruto mais nobre é a Virtude.
Pois ninguém se realiza em solidão,
nem há um eu completo sem um tu;
é no encontro que nasce a comunhão
e o brilho de cada ser se torna luz.
Tal como o amor trinitário é relação,
unidade que acolhe a alteridade,
também a vida encontra a perfeição
quando o agir se faz fraternidade.
A Ideia é mãe, a Palavra é claridade,
o Gesto é carne, a Virtude é plenitude,
e o ser só se realiza em liberdade
quando faz do amor a sua atitude.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©