Na minha cidade é caso pensado,
Não cobre a folhagem o papel colado.
Não por respeito à Democracia,
Nem à vontade que à urna guia.
É só respeito, singular razão!
À vertical, silente declaração
Da árvore antiga, de raiz segura,
Mais pura que qualquer candidatura.
Prendem os rostos, as promessas feitas,
Às lanternas, aos postes das avenidas,
Onde a luz pública, fria, dá respostas
Às frases gastas, às propostas batidas.
E assim a cidade, no seu jeito rude,
Mostra um decoro de estranha virtude:
As árvores livres, intactas nos troncos,
Os homens, presos em seus próprios concursos.
E vemos, nós, nesta opção bizarra,
Que a política é questão de casca,
E o respeito, quando à árvore se vota,
É porque a outra raiz já está rota.
Assim caminha a urbe, nesta dança:
A política busca a semelhança
Do poste liso, da coluna vazia…
Pois a árvore tem outra genealogia.
E no outono, quando caem as folhas,
Não arrastam votos nem siglas enroscadas.
Caem em silêncio, leves, naturais,
Enquanto os cartazes, nos ferros metálicos,
Gritam ao vento seus mundos esquecidos.
António CD Justo
Pegadas do Tempo