A LUZ QUE ROMPE O ESCURO

No peso do silêncio, irrompe a luz,
nem suave, nem tímida, nem rogada,
espada que desfaz o véu da noite e o reduz
ao clarão da aurora inaugurada.

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu de fragmentos e ilusões
o fio luminoso de outra história.

As mulheres andavam sob o pranto,
e ao buscar entre as pedras o sepulcro,
encontraram o vazio, o aberto espanto,
o silêncio em flor, não o lúgubre.

O que procuravam não estava lá.
E nesse nada ergueu-se o Tudo eterno,
o Aleluia que dorme no amanhã
despertou como pássaro do inverno.

A cruz, pelo que consta, é peso que cansa,
Mas o crente conhece o seu segredo,
Ela é sorriso oferecido à ofensa
é braços abertos onde havia o medo.

É raio de sol em feridas estranhas,
é caminho onde os muros se desfazem,
são raízes que florescem nas entranhas,
do solo onde as dores se refazem.

Cruz minha não carregues o peso dos avós,
não herdes a culpa que não semeaste
és livre, foste livre, és entre nós
o ser que no Amor libertaste.

Do teu gesto, apenas corresponsável,
colhes teu fruto, limpas tua fonte.
O passado já não pesa, é uma aresta
que o vento da Páscoa leva ao horizonte.

E a Boa Nova, Evangelho, ressoa
para o crente que inclina a fronte à fé,
e para o peregrino que não ouve
credo algum, mas sente o que os olhos veem:

que a vida dada por sepultada
volta como flor depois da neve,
que a esperança não morre asfixiada,
que o Amor, quando é Amor, jamais se deve.

Não estamos sozinhos nesta viagem.
O anseio mais fundo do peito humano
encontrou no vazio a sua imagem,
o Homem novo, protótipo soberano.

Cultura da paz, aurora de outra era,
onde a bondade é lei e a graça é norma,
Jesus Cristo, a grande primavera
é o talho do Homem na sua melhor forma.

A todo o humano de boa vontade,
cristão ou não, crente ou caminhante,
que esta luz te encontre com suavidade
e faça de ti alguém sempre ressurgente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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