25 DE ABRIL EM CAMPANHA NACIONAL

Vive o partido em campanha sem fim,
palco de sombras num teatro vão;
o povo é plateia, ou antes, refrão,
e o Estado, cenário que serve o fim.

No 25 de Abril, que luz tão ténue!
Há gritos, flores, fardas de poeira.
Parece a Mocidade a tarde inteira,
mas cada qual mais hábil se abranda.

E ninguém vê além? O sistema, esperto,
filtra o olhar com gaza de discurso.
E a classe que podia mudar seu curso
vive melhor na impostura do certo.

O povo lê a mesma cartilha, errado,
e aplaude o gesto, crê no que já viu.
O pensamento dói? Mas é melhor,
ficar na mediania, lado a lado.

A propaganda infecta tudo, infecta
o voto, a rua, a pátria, o coração.
Não há remédio porque somos a prisão
e o carcereiro. A vontade está afecta.

Desdenha-se do outro, fala-se mal.
O desacordo é o pão de cada um.
O partido, por gosto ou por algum
destino, vive do caos vertical.

E o Estado, pobre administrador
da mesma miséria que o mantém,
regando o mal que de si mesmo vem,
faz da inércia o seu melhor labor.

Medíocres, sim, porque pensar exige
mudança e dor, mas quem deseja a dor?
Faz de conta que amamos o Senhor
mas o Senhor é o mesmo que nos aflige.

Hipocrisia em verso e argumento.
E ainda há quem viva melhor, sem consenso.
O resto é canto, é pó, é tempo imenso
num palco onde ninguém sai do centro.

A ironia, meu povo, é esta lúcida:
todos no mesmo barco, a olhar de lado,
a ver o naufragar perpetuado
e a chamar-lhe Democracia plácida.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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