Não é falta de inteligência
é o peso invisível
que dobra o pensamento
como água que rodeia a pedra.
Em todos os regimes,
em todos os tempos,
um povo inteiro afirma o regime
e alguns, considerados, os incómodos, os loucos, os livres
tentam abrir-lhes os olhos.
É assim que se faz.
É assim que sempre se fez.
A democracia tem o seu fraco
como todos os outros tiveram o seu!
Nela a maioria decide o que é verdade
e a estatística torna-se doutrina,
a sociologia vira catecismo,
e a sabedoria das outras disciplinas:
teologia, filosofia, história, poesia
é deitada ao chão
para que os pés dos números
não sintam o frio do mármore.
A maioria não engana com má-fé.
Engana com boa consciência,
que é a forma mais perfeita de engano.
E os dissidentes?
São tolerados como ornamento,
prova de que o sistema é livre,
enquanto o sistema segue sem os ouvir.
É assim que se faz. É assim que sempre se fez.
E é assim que sempre há-de ser!
Não fosse o povo continuar a ser povo
e as elites deixarem de ser poder.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo