Há profissões cuja importância só se torna verdadeiramente visível quando faltam. Os Técnicos Auxiliares de Saúde pertencem a esse grupo. São milhares de profissionais que, diariamente, asseguram cuidados essenciais ao funcionamento dos hospitais, centros de saúde, unidades de cuidados continuados e lares, permanecendo, porém, quase sempre longe do reconhecimento público.
Ao longo dos últimos anos, estes trabalhadores assistiram a sucessivas alterações da sua designação profissional. Foram Auxiliares de Ação Médica, passaram a Assistentes Operacionais e, desde a publicação do Decreto-Lei n.º 120/2023, integram a carreira especial de Técnico Auxiliar de Saúde. Muitos esperavam que esta mudança significasse uma verdadeira valorização da profissão. Contudo, segundo inúmeros testemunhos, a realidade quotidiana pouco mudou.
Continuam a desempenhar funções indispensáveis junto dos doentes, garantindo a higiene, o conforto, o transporte de pessoas vulneráveis, a preparação de materiais e espaços clínicos, a colaboração com médicos e enfermeiros e inúmeras outras tarefas essenciais para que os cuidados de saúde possam ser prestados com segurança e dignidade. Sem o seu trabalho silencioso, o funcionamento das instituições de saúde seria impossível.
Apesar disso, muitos destes profissionais afirmam sentir-se desvalorizados. Denunciam a escassez de recursos humanos, equipas insuficientes para responder ao crescente grau de dependência dos doentes, horários exigentes, desgaste físico e emocional e remunerações que consideram desproporcionadas face às responsabilidades assumidas.
A sua missão não termina nos momentos de esperança. São também eles que acompanham os doentes nas horas mais difíceis, prestam apoio às famílias, colaboram na preparação dos corpos após a morte e realizam tarefas que poucos querem ver, mas que todos reconhecem como necessárias. Trata-se de um serviço profundamente humano, exigente e marcado por uma enorme carga emocional.
É legítimo perguntar se uma profissão com estas características não merece um estatuto mais digno, melhores condições de trabalho, oportunidades reais de progressão na carreira, reconhecimento do desgaste inerente às suas funções e formação contínua devidamente valorizada.
Não se trata de estabelecer hierarquias entre profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros, técnicos superiores, assistentes técnicos e técnicos auxiliares formam uma única equipa, onde cada elemento é indispensável. A qualidade dos cuidados depende precisamente dessa cooperação.
Uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que trabalham diariamente ao serviço dos mais frágeis. Os Técnicos Auxiliares de Saúde não pedem privilégios. Pedem respeito, valorização e condições que lhes permitam exercer a sua missão com dignidade.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de falar apenas dos protagonistas mais visíveis do Serviço Nacional de Saúde e dar voz àqueles que, discretamente, sustentam uma parte essencial do sistema. Porque os invisíveis indispensáveis merecem, finalmente, ser vistos.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo