POESIA EM ALVORAR MULTIPOLAR

Quando a Lua me visita, no rosto lhe sorrio,
E nesse espelho etéreo um outro Sol se vê.
Ocidente e Oriente num só olhar confio,
Pois no brilho que emana, ninguém jamais se perde.
Misturam-se os saberes, as emoções irmãs,
Num lago de luz onde o tempo se desfaz.

Logo erguemos nossas mãos, dois hemisférios de alma,
Num arco de oração que o céu sabe entender.
O louvor é a ponte que a distância acalma,
E o Criador escuta o cosmos a crescer.
Unimos o que a história teimou em separar,
Numa só vibração que nos faz palpitar.

A Ave-Maria ecoa em cada fuso horário,
Maria de Nazaré, matriz da Humanidade.
Em suas entranhas, o mistério planetário,
Onde o céu e a terra acham a igualdade.
Tudo o que dela emana é santo e imortal,
É o parto perenal que une o bem total.

Mas quando a Lua foge e a sombra me consome,
Minh’alma, polinizada, exalta-se a tremer.
Estremeço, Maria, no teu sagrado nome,
Pois sinto o que é dar à luz e renascer.
A comoção divina trespassa o meu ser,
E o mundo, em cada célula, começa a florescer.

Da saudade profunda, um útero se forma,
Já não de fantasia, mas de real visão.
É a Anunciação que a nossa alma transforma,
Aceitando o raio eterno em pura doação.

Assim como Maria, direi o meu “Sim”,
Para que um novo estado em nós tenha um jardim.
Novas maneiras de estar, sem muros nem fronteiras,
Onde a dor do contínuo parto é luz que nos clareia.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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