Os jovens creem no Diabo, diz o estudo alemão,
talvez porque os idosos, coitados, já não têm visão
para ler a letra miúda dos tratados de Bruxelas,
onde o inferno se compra com moedas amarelas.
Pormenores, pormenores, eis a nova peste:
austeridade na sopa dos pobres, petróleo na festa
dos tanques que roncam em velhas estepes,
enquanto o ambientalista chora por mais cartazes verdes.
Politicos anões dançam num tabuleiro gigante,
mudam as quotas, mudam o tom, mas o mandante
é o senhor dos cofres, o Mamon de carinhoso cinzento,
que ri na cave do banco central, onde o ar é lento.
Já não se distingue o grande do pequenino:
a reforma de um imposto ou o gatilho de um assassino?
Tudo são truques, tudo é peça num motor de guerra
que aquece os motores enquanto a Terra se desterra.
E a juventude, ó alma ingénua, herda o sabor
do que o espírito do tempo cozinhou com desamor:
sobra-lhe o detalhe, a migalha, a factura,
enquanto o Diabo, desempregado, assina a escritura
deste mundo onde o fogo já não precisa de chifres,
basta um “deficit” mal contado e uns juros que nos cifram.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo