Natureza, Soberania humana e o Tecido institucional do Ocidente
A metáfora da natureza como espelho carrega uma longa linhagem filosófica, mas ganha uma urgência renovada na literatura contemporânea e no ensaísmo atual. Na modernidade tardia, o espelho da natureza já não reflete apenas uma harmonia estética ou idílica, porque passou a funcionar como um tribunal ético.
A literatura contemporânea usa a biosfera para expor as neuroses e os preconceitos humanos: quando olhamos para a pluralidade espontânea do mundo natural e, em seguida, olhamos para a nossa intolerância social e cultural, o espelho devolve-nos uma imagem deformada da nossa própria humanidade. É o contraste entre a inocência da criação e a corrupção do preconceito humano.
Para compreender esta fratura, é necessário cruzar este conceito com a matriz da civilização ocidental, assente em três pilares fundamentais: Deus como Criador, o ser humano como soberano e as instituições como extensão do “Nós”.
Deus como Criador e a Diversidade como Desígnio e não como Erro
A tradição judaico-cristã, fundadora do Ocidente, postula que o universo é uma obra deliberada de Deus. Se a natureza é o plano divino materializado, a sua diversidade intrínseca não pode ser vista como uma anomalia, mas sim como a própria assinatura do Criador.
Atacar a natureza identitária ou a orientação de um indivíduo é, numa perspetiva teológica profunda, questionar o próprio critério do Criador para viver no erro do preconceito.
A natureza (teológica) ensina que a unidade se faz na multiplicidade (diferentes espécies, cores e formas que coexistem num único ecossistema). Quando o discurso de ódio tenta homogeneizar a sociedade à força, ele tenta corrigir o plano divino, gerando o esgoto interior da hostilidade que nega a Criação.
O Ser Humano como Soberano diante das Instituições
No pensamento ocidental, refinado pelo Iluminismo e pelo personalismo cristão, o ser humano possui uma dignidade intrínseca e inalienável. A pessoa humana é soberana em relação às estruturas que cria. As instituições (o Estado, as igrejas, os partidos, os movimentos sociais) existem para servir o ser humano e nunca o contrário.
Na sociedade moderna contemporânea assiste-se à exacerbação da coisificação do indivíduo rm nome do globalismo liberal. O grande perigo contemporâneo, visível tanto em visões radicalmente conservadoras como em concepções sociais progressistas, é a instrumentalização da vida individual. Quando termos como “trans”, “homossexual” ou “diverso” se transformam em bandeiras de combate político, o indivíduo real desaparece. E isto porque o ser humano deixa de ser um fim em si mesmo (como exigia Kant) e passa a ser tratado como um objeto ou um peão por defensores e opositores. A soberania humana é aniquilada quando o indivíduo é forçado a submeter a sua verdade existencial à agenda de uma instituição ou ideologia.
As Instituições como Parte do “Nós” no Espaço Sagrado da Humanidade
Embora o ser humano seja soberano, ele não vive isolado porque necessita das instituições para estruturar a vida comunitária. A civilização ocidental assenta na premissa de que as instituições não são inimigas externas, mas sim emanações do próprio “Nós” que se tornaram ferramentas coletivas para garantir a ordem, a justiça e a coesão.
Por um lado há o direito à regra e ao limite do Todo. Cada instituição tem o direito legítimo de estabelecer as suas próprias regras de funcionamento. Um estado, uma igreja, uma associação ou um clube podem ter os seus estatutos e dogmas. Contudo, na praça pública, ninguém é senhor absoluto da sociedade.
Por outro lado, para que as instituições façam parte de um “Nós” saudável, elas devem abdicar de colonizar a totalidade da vida pública. Deve haver sempre um espaço reservado e inviolável onde a humanidade em geral tenha lugar. Quando grupos ou instituições tentam criar zonas privadas de exclusão, onde determinados cidadãos são privados do direito à felicidade e à segurança, como no trágico atentado em Berlim, o pacto social que sustenta o Ocidente passa a ser quebrado.
O Reencontro no Reflexo
A literatura contemporânea propõe que a salvação da civilização ocidental reside em voltar a olhar para o espelho da natureza com os olhos desarmados. Ao aceitarmos que a criação de Deus é vasta e plural, resgatamos a soberania do indivíduo contra a tirania da instrumentalização ideológica.
As instituições regressam ao seu papel legítimo de proteger o “Nós”, não através do silenciamento do “Outro”, mas sim da garantia de que a dignidade humana básica é um solo sagrado onde todos, sem exceção, têm o direito inalienável de existir e florescer.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578