Pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, nunca apagá-las.
Preservar o «tu» e o «vós» não é saudosismo;
é o último dique contra a proletarização da língua,
que a quer arrastar para o pântano dos incultos.
António da Cunha Duarte Justo
O Acordo Ortográfico (AO) de 1990 apresenta problemas sérios, pois corresponde a um apagamento de distinções semânticas e, como tal, a um empobrecimento da língua portuguesa que possui grande riqueza de diversificações e especificações.
Como prova do empobrecimento semântico em Portugal mencione-se o exemplo do desaparecimento do vós entre outros de “facto” vs. “fato” o que é emblemático!
Em Portugal, facto (evento, realidade) é diferente de fato (peça de vestuário)
No Brasil: fato foi simplificado significando ambas as coisas (só o contexto pode desfazer a ambiguidade, mas a distinção gráfica perde-se.
Assim ao eliminar o “c” mudo em “facto” (que no Brasil passaria a “fato”), o AO não resolve a ambiguidade! Pelo contrário, cria-a onde ela não existia em Portugal. E, para quê? Para poupar uma letra que não se pronuncia? Isso não é simplificação, é achatamento. Por que razão há de Portugal aceitar um empobrecimento semântico.
Outros exemplos semelhantes: contacto vs. contato (perde-se a ligação etimológica ao latim contactus)
O AO90, a exemplo das seguintes palavras (receção, recepcção e ressecção), ao eliminar as consoantes mudas (neste caso, o “p” e o “c”) torna-se num Busílis para o próprio AO. Como o acordo tentou aproximar a escrita da pronúncia real e esta varia entre Portugal e o Brasil, gerou-se uma grande confusão visual, semântica e geográfica. O Acordo acabou por criar uma dupla grafia oficial. E o que mostra a maior falta de conceito e a confusão é o facto de em Portugal, a forma preferencial ser receção (sem o ‘p’), embora o termo recepção também seja admitido. No Brasil, apenas é aceite recepção. Por seu lado a confusão geral com “receção/recessão” gera uma instabilidade na escrita de palavras compostas pelo mesmo radical.
Antes do acordo tínhamos em Portugal e no brasil a mesma palavra recepção para designar o acto de receber e recessão para designar crise económica. Recessão passou a ler-se e a ouvir-se exatamente igual a receção em Portugal. Além do mais caiu-se num caos de critérios pois se o “p” caiu em receção, o “c” deveria cair em resseção. Porém, o meio médico resiste à perda do “c” mantendo ressecção.
Também introduziu profundas incongruências e assimetrias no uso do hífen e na queda de acentos. Ao tentar criar regras gerais com base na fonética e na biologia das palavras, com o acordo, o texto gerou excepções bizarras que obrigam os falantes a memorizar listas em vez de seguir uma lógica. “Assim, escreve-se coordenar e cooperar (tudo junto, mesmo com vogais iguais) e coabitar (sem hífen, deixando o “h” cair). Isto destrói a coerência geométrica da regra de aglutinação.” Porque é que o cidadão perdeu a noção de composição em paraquedas, mas manteve-a em para-choques, para-brisas, para-raios ou para-lama? Linguisticamente, não há qualquer justificação científica para tratar estas palavras de forma diferente. E ainda antirreligião ou minissaia…
Também a eliminação de certos acentos que visava limpar a grafia de sinais tónicos considerados “supérfluos”, acabou por criar palavras gémeas com significados opostos ou grafias ambíguas, entre elas: O fim do acento diferencial em “para”: O verbo parar perdeu o acento agudo na 3.ª pessoa do singular. Agora, usa-se a palavra “para” tanto para a preposição (vou para casa) como para o verbo (ele para o carro). Também aqui se revela a incongruência do acordo que eliminou o acento em para (verbo), mas decidiu manter o acento diferencial no verbo pôr (para distinguir da preposição por) e em pôde (passado, para distinguir de pode no presente).
Na poesia e na literatura em geral o leitor vive da polissemia (múltiplos sentidos), do duplo sentido, do subentendido e do ritmo. Ao retirar acentos diferenciais e mudar grafias, o acordo mutilou intencionalmente a capacidade de o autor criar ambiguidades artísticas controladas. “Na prosa poética ou na poesia, o autor quer muitas vezes que o leitor oscile entre dois significados ao mesmo tempo. Sem o acento diferencial, o leitor moderno perde a chave do enigma.” Assim o exemplo de para e para (ao ser empobrecido para para) como no verso «O homem para o vento». Se fosse “pára o vento” expressava a energia humana; se fosse “para o vento”, o homem era apenas alvo que seguia com o vento. Com a redução a para destrui a beleza da dúvida estética que o poeta quereria criar.
O AO deveria ter sido facultativo ou, pelo menos, ter preservado grafias duplas (como o “c” e “p” mudos) como variantes aceites. A imposição de uma única grafia em nome da “unidade” sacrificou a riqueza interna da língua e o que mais entristece, professores como eu, é que o acordo revela ter sido mais fruto de ideologia do que de ciência.
A questão mais grave é a erosão das pessoas verbais
O problema não reside apenas no Acordo Ortográfico, que regula apenas a escrita e não a oralidade, mas numa tendência sociolinguística mais ampla. Em Portugal, essa tendência tem sido acelerada pelo próprio AO e pela exposição mediática ao português do Brasil (telenovelas, YouTube, redes sociais), favorecendo a grafia brasileira em detrimento da europeia. Este enviesamento é reforçado no dia a dia pelos corretores automáticos, que, ao seguirem a norma brasileira, nos impõem sugestões abrasileiradas e a poder de tanta insistência até os mais cautelosos acabam por seguir.
O desaparecimento do “vós”
O “vós” já estava em declínio em Portugal do centro sul, mas mantinha-se na língua culta do norte, em registos formais, na liturgia, na literatura, na jurisprudência e em algumas regiões como Trás-os-Montes.
Hoje, muitas crianças portuguesas nunca aprendem a conjugar o “vós”. Os manuais escolares ainda o ensinam, mas na prática usam-se estruturas como “vocês” + verbo na 3ª pessoa do plural. Isto revela também descuido na formação dos professores que confundem língua viva com espírito do tempo.
E porque é empobrecedor? O “vós” é a 2ª pessoa do plural que é simétrica ao “ihr” do alemão, ao “vos” do latim, ao “vous” do francês. Perdê-lo significa perder uma distinção gramatical útil (diferenciar um grupo de interlocutores de um grupo de terceiros).
A substituição do “tu” por “você” (ou pelo “tu” com verbo na 3ª pessoa)
Em Portugal, o “tu” ainda é muito usado no Norte e em contextos informais. Mas, por influência brasileira (onde “você” domina, e o “tu” aparece muitas vezes com verbo errado do tipo “tu faz”), já se ouve em Lisboa jovens a usar “você” ou mesmo “tu” com o verbo na 3ª pessoa (“tu fez”, “tu comeu”). Isso é uma perda de clareza morfológica. Interessante seria também um estudo sobre reimportação do “você” dos emigrantes do norte de Portugal para o Brasil e que agora é reimportado de maneira a diminuir a riqueza da língua.
O argumento do alemão e do latim contra o empobrecimento da riqueza verbal
O alemão mantém as seis pessoas (ich, du, er/sie/es; wir, ihr, sie). O latim idem. O português europeu tradicional (antes do acordo) também: eu, tu, ele/ela/você, nós, vós, eles/elas/vocês.
Quando se elimina o “vós” e se reduz o “tu” a uma forma ambígua (que muitas vezes é substituída por “você”, que é 3ª pessoa), o sistema fica assim:
1ª sing: eu; 2ª sing: (desaparece ou funde-se com a 3ª); 3ª sing: ele/ela/você
1ª plur: nós; 2ª plur: (desaparece, usa-se “vocês” = 3ª plur); 3ª plur: eles/elas/vocês
Isto significa que perdemos a simetria entre as pessoas do singular e do plural. Um aluno alemão que aprende “du” e “ihr” fica confuso: em português de Portugal abrasileirado, passa a não haver correspondente claro para “ihr” (seria “vós”… mas quase ninguém usa) nem para “du” (se o “tu” está a ser substituído por “você” que gramaticalmente é 3ª pessoa).
A tendência não só empobrece a língua como dificulta o seu ensino a estrangeiros cuja língua materna preserva a riqueza da distinção paradigmática.
O que pode ser feito?
Além das razões óbvias apresentadas e no sentido de não transpor emoções de um lado e do outro importaria ter ainda em conta algumas nuances:
De facto, o Acordo Ortográfico não obriga ninguém a abandonar o “vós” ou o “tu”, que é um fenómeno social, mas as autoridades não são inocentes ao descuidarem a qualidade da língua e até em promover o seu empobrecimento. Os mais responsáveis neste processo são, além do AO, o Ministério da Educação, as escolas, os Media e o controlo virtual.
Também a influência brasileira não é unilateral porque também no Brasil há movimentos de valorização do “tu” (no Sul e no Norte do Brasil usa-se “tu” com conjugação certa: “tu fazes”).
O empobrecimento é real, mas também há enriquecimento noutras frentes! A literatura angolana e moçambicana, por exemplo, introduz novas estruturas e léxico.
Revela-se absolutamente necessário manter o ensino explícito do «tu» e do «vós» com as respetivas conjugações corretas, em vez de ceder a uma ideologia que procura proletarizar a linguagem, rebaixando-a ao nível dos que estão alheios à cultura.
Também urge rejeitar a imposição de grafias que criam ambiguidade (como “facto” para “fato”). O AO deve permitir duplas grafias oficiais, como acontece com “acção/ ação” em Portugal pelo facto de o AO de 1990 proíbir “acção”, mas, a que, muitos lucidamente resistem).
Portugal não tem de falar como o Brasil. O pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, mas não as apagar.
O caminho não é rejeitar toda mudança, mas resistir à homogeneização que empobrece a língua. O português europeu deve preservar o “vós”, o “tu” e as distinções etimológicas sempre que possível. Também poderia acrescentar o você, como era próprio da região do norte que era uma maneira menos formal ente o Tu e o vós!
© Pegadas do Tempo
No Brasil escrevem recepção
Pedro Torres de Castro , exactamente, como digo no texto! O que até parece uma afronta aos literatos portugueses que, neste caso ainda, se desviaram mais do espírito português da língua, na sua etimologia.
Completamente de acordo. Pratiquei o acordo, enquanto estava no ensino. Era obrigada. Agora,nunca!
Teresa Monjardino , também fiz isso durante a docência e verifico agora que muitos textos que publico se encontram automaticamente “corrigidos” embora eu não esteja de acordo mas deixo passar por ter muitos leitores no Brasil.
Posso estar a errar, mas escrevo como aprendi. Não aceito uma humilhação da minha Língua mãe
Pois eu desobedeço e não aceito o novo AO, de facto!
Aborto ortográfico,sim!…
Ângelo Coelho , na sala de parto não havia “enfermeiros” qualificados. Estavam mais preocupados com a roupagem que traziam e em vestí-la a toda a população! Depois passou-se à administração da miséria bem mantida!…
Boa análise do AO de 1990 !
A maior culpa não é daqueles que mutilaram gravemente a língua portuguesa, pois estes são ignorantes por natureza. A maior culpa é, em meu entender, daqueles que, tendo o poder para impedir essa mutilação, não o fizeram, preferindo submeter-se à sabedoria dos ignorantes, na esperança de procurar unificação naquilo que não faz sentido unificar!
Com isso a nossa língua perdeu liberdade e independência. As raízes do português não estão no Brasil, Angola, Moçambique, … . É em Portugal, e à sua volta, que essas raízes começaram a desenvolver-se. Por isso, Portugal é o principal responsável pela preservação da sua língua, que veio a tornar-se a língua de outros povos, que a adaptaram à sua cultura. O português falado e escrito em Portugal, nunca deveria ter de submeter-se à cultura, economia ou política dos outros países lusófonos. Não tenho isso presente, mas gostaria de saber quantos acordos ortográficos já fez a França, por exemplo, com os países francófonos, e, se os fez, como os fez.
O povo português precisou de uma revolução política e, por isso, surgiu o 25 de Abril de 1974. Mas, nunca Portugal precisou de uma revolução ortográfica como a que surgiu em 1990, que destruiu as bases da língua! Recordo-me ainda que, com a revolução do 25 de Abril, começaram a surgir maneiras diferentes de escrever as palavras em português, como o caso dos nomes próprios com minúsculas. O grupo dos revolucionários da língua foi aumentando e, em 1990, sob pretexto de unificação lusófona, encontrou apoio político para o descalabro ortográfico!
É pena termos uma classe política fraquinha e dividida, sem coragem para tomar verdadeiras decisões, quando elas se impõem, pois ainda estaríamos a tempo de corrigir os graves erros que foram introduzidos na ortografia do português com o AO de 1990! Anulando esse acordo (que não passa de um Desacordo) e voltando à ortografia anterior, isso seria possível. Mas, para tal, é necessário coragem e determinação, é necessário enfrentar aqueles que contribuíram para a corrupção da língua portuguesa!
Um abraço.
Abílio Vi
Prezado Abílio Vi,
Li a sua mensagem com a atenção que merece e confesso, li-a com um sentimento de reconhecimento. É raro encontrar uma análise tão lúcida, corajosa e certeira sobre o verdadeiro cerne da questão. Por isso, respondo-lhe com o maior prazer e em total sintonia com o que escreveu.
Quanto ao que refere da culpa dos “ignorantes” vs. a culpa dos “cúmplices”, tem toda a razão. É muito fácil atirar as culpas para os “reformadores” ou para as variantes do português que naturalmente evoluíram de forma diferente. Mas o problema nunca foram os que, de boa-fé (ou por mero hábito), adoptaram simplificações. O problema reside precisamente naqueles que tinham o dever de preservar e defender a nossa ortografia histórica e, por cobardia, subserviência ou mero cálculo político, se curvaram à pressão unificadora. Foi uma falha de liderança intelectual e política, e o senhor nomeou-a na perfeição; a ideologia enfraqueceu a expressão científica
Quanto às raízes e a independência da língua, o amigo tocou num ponto fulcral. Aí está o ponto mais importante e que mais ecoa em mim. O português é nosso. Não por arrogância ou chauvinismo, mas por uma verdade histórica insofismável: é em Portugal que a língua germinou e se estruturou. Naturalmente que os outros povos lusófonos a enriqueceram com a sua cultura, os seus modos e os seus vocábulos (e isso é maravilhoso!), mas isso nunca, jamais, deveria implicar que a matriz tivesse de ser desfigurada para se ajustar a uma suposta “democracia linguística” cúmplice com a ideologia implementadora. A língua não é um produto sujeito a maiorias pois é um património. E o seu exemplo da França é brilhante e irrefutável: a França nunca se rebaixaria a alterar a sua ortografia para agradar a nuances do francês do Quebeque, da Argélia ou da Suíça. Porque razão havemos nós de ter menos brio?
Quanto ao 25 de Abril e a revolução ortográfica, é de facto, uma analogia tão feliz e tão dolorosa ao mesmo tempo! O 25 de Abril foi uma conquista de liberdade e de dignidade. O AO de 1990, esse, veio no sentido oposto, porque não nos libertou, antes nos amarrou a um facilitismo que nos empobrece. E, como o senhor bem recorda, com a importação de modas (como os nomes próprios em minúscula) que, disfarçadas de “modernidade”, foram minando a nossa identidade escrita. Foi um processo lento, mas certeiro, que culminou nesse “desacordo” e nunca vi nome mais adequado para ele.
Quanto à anulação do Acordo e a coragem política, resta-me dizer que assino por baixo. Ainda vamos a tempo, seria altura de se iniciar um abaixo-assinado ao parlamento ou uma carta aberta, mas as forças ideológicas são demasiado fortes e dominam pontos estratégicos. Anular este acordo e repor a ortografia anterior não é um ato de saudosismo; seria um acto de coragem, de afirmação nacional e de respeito pela nossa história. O que falta é, como disse, uma classe política com estatura para enfrentar os que perpetraram este descalabro e para dizer basta às imposições externas. Se houvesse um movimento sério nesse sentido, teria em mim um defensor incondicional.
Muito obrigado por esta partilha. É um conforto intelectual encontrar quem não só vê o problema, mas que o descreve com uma clareza e uma firmeza que há muito não lia.
Um forte abraço e continuação de excelentes reflexões.
Com admiração e total concordância,
António Justo
Gostei do texto, mas tenho de corrigir umas coisitas.
O Brasil sempre disse e escreveu fato em vez de facto. E nós não devemos tirar o c pois em português pronuncia-se o c de facto. Para os brasileiros, o nosso fato, vestuário de homem, é terno. Português antigo, esse terno. Já era assim em 1977 e antes.
De Coimbra para baixo o tu não desapareceu. O você usa-se para a terceira pessoa, em vez de o Senhor ou a Senhora, mas aqui nunca substitui o tu.
Muito estranho é a palavra espectadores, que passou a espetadores, alguém que espeta.
O que acho gravíssimo é editoras como a Lidel terem abolido na conjugação dos verbos, a forma vós. Passam de Nós para Eles, Elas. Isso é uma aberração.
Beijinhos
Graça
Graça,
Antes de mais, muito obrigado pela tua mensagem sempre atenta e pelo olhar tão minucioso sobre a nossa língua. É um verdadeiro prazer trocar impressões com alguém que, claramente, tem um amor genuíno e um ouvido apurado para o português. Vou responder-te por partes, porque cada uma das tuas observações merece ser bem esmiuçada e eu por vezes gosto de repetir para saber se compreendi bem!
Quanto ao “facto” vs. “fato”, tens toda a razão quando dizes que, em Portugal, o “c” é pronunciado. E é precisamente por isso que, ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990, nós mantemos o “c” em “facto”, “atual” (com “c” mudo? bem, esse é outro campeão!), mas no caso de “facto” a regra é claríssima: mantém-se a consoante quando esta é audível na pronúncia culta da língua. Como nós, portugueses, dizemos mesmo “facto”, ele fica e penso que outra razão para ficar é a etimologia. Os brasileiros, que sempre o pronunciaram sem o “c”, passaram a escrever “fato” e essa diferença é perfeitamente legítima e aceite. Ou seja, ambos os lados estão certos, cada um no seu registo, mas nós fazemos muito bem em preservar o nosso “facto” sonoro.
Quanto ao “terno” que é uma delícia de palavra! E é exatamente como dizes: para eles, o nosso “fato” (vestuário masculino) é “terno”, que para nós soa a um adjetivo carinhoso ou àquela expressão antiga “terno de saia”. Claro, já era assim em 1977 e é uma das diferenças lexicais mais bonitas e curiosas que nos distinguem. É um clássico das nossas “guerras” pacíficas pelo idioma.
Quanto ao “tu” e ao “você”, concordo plenamente contigo. Em Coimbra, no Porto, em Lisboa e praticamente em todo o país, o “tu” é rei no tratamento familiar e íntimo. O “você” não substitui o “tu” no dia a dia; é antes um tratamento de deferência, de distanciamento ou, em algumas regiões, uma forma de tratamento para pessoas mais velhas ou em contextos formais, mas sempre na terceira pessoa. É uma nuance que os brasileiros, habituados ao “você” generalizado, estranham, mas que para nós é perfeitamente natural. O “tu” não desapareceu de Coimbra para baixo, antes pelo contrário, está mais vivo do que nunca!
Quanto a “Espectadores” vs. “espetadores”, aqui, tocaste no ponto mais polémico do Acordo! A palavra “espectadores”, com “c”, era a grafia tradicional em ambos os lados. No entanto, como esse “c” antes do “t” nunca é pronunciado, nem no Brasil, nem em Portugal (dizemos “espetadores”), o Acordo Ortográfico determinou a sua eliminação. Oficialmente, a grafia correta hoje é mesmo “espetadores”. Compreendo perfeitamente a tua estranheza e adorei a tua piada sobre “alguém que espeta”; é uma observação muito perspicaz e com muito humor! É um caso clássico em que a tradição escrita cedeu à oralidade, mas confesso que, no fundo, todos nós sentimos uma certa nostalgia ao ver o “c” desaparecer.
Quanto à eliminação do “vós”, aqui timbraste pelo diapasão do meu coração. Percebo perfeitamente a tua indignação e considero-a muito justa! Para nós, o “vós” tem um peso histórico, litúrgico e até regional fortíssimo (no Norte, ainda se ouve com muita naturalidade no dia a dia, e na literatura é insubstituível).
Quanto à Lidel, dado o livro de gramática não ser de referência talvez por se dirigir mais a públicos estrangeiros não lhe interessa tanto a correção linguística. O ensino do “vós” a um aluno que mal domina a diferença entre “tu” e “você” é, de facto, difícil, mas como refiro no artigo em relação ao alemão o Lidel, na sua omissão redutora, complica mais e tem em conta uma perda cultural. É verdade, no português europeu contemporâneo, no discurso coloquial urbano, o “vocês” (3.ª pessoa do plural) afirma-se completamente em relação ao “vós” na fala corrente. Num livro de gramática de referência, a sua omissão é redutora, diria mesmo que é uma perda cultural. Mas numa cartilha de iniciação para estrangeiros, é uma opção didática que poderia merecer perdão se referisse, pelo menos numa nota de rodapé, para não morrer de vez. Por vezes as ideologias também nos gramáticos sobrepõem-se ao caracter científico.
Muito obrigado, Graça, por esta troca tão rica e por me fazer viajar pelas voltas e reviravoltas da nossa língua. É com pessoas como tu que o português se mantém vivo, crítico e apaixonante.
Muitos beijinhos, estima e admiração,
António
Caro amigo António Justo,
Agradeço o elogio que fez relativamente à minha mensagem, embora não estivesse à espera disso. O que escrevi é o que me vai na alma, quando olho para a nossa Língua e vejo o estado em que a deixaram! Não sou nenhum especialista na Ciência da Língua portuguesa, mas tenho a sensibilidade e o conhecimento suficientes para ver que aquilo que foi feito ao nosso idioma, em 1990, nunca deveria ter acontecido, deveria ter sido reprovado à partida e não ter visto sequer a luz do dia. E, quando olho à minha volto e vejo tantas opiniões que vão no mesmo sentido, algumas delas provenientes de homens e mulheres com mais conhecimentos do que eu, então as hipóteses de estar errado naquilo que sinto e vejo vão-se esvanecendo.
Nós precisamos, de facto, de gente conhecedora da Língua portuguesa, gente capaz de fazer uma análise como o meu amigo fez, mostrando o que foi feito e que não deveria ter sido feito, com justificação a acompanhar. Precisamos de conhecedores do nosso idioma e não de habilidosos movidos por estranhas ideologias, que pouco se importam com o estado da Língua.
Como já tenho dito, antes de nós outros povos conheceram revoluções políticas e culturais, mas desconheço que algum deles se tenha revoltado contra a própria Língua, mutilando as suas raízes e deixando-a num estado lastimável, como fizeram com a nossa aqueles a quem o poder político deu carta branca para assim agirem. Se Camões vivesse neste tempo e estivesse à beira da morte, imagino o que diria, vendo uma tal coisa: Morro com a Língua Portuguesa! E, por seu lado, nas mesmas circunstâncias, diria Fernando Pessoa: Morro com a minha Pátria!
Para finalizar, um abaixo-assinado ao parlamento ou uma carta aberta, como o António Justo sugere, acho que seria uma boa solução. Como diz, e bem, as forças ideológicas são demasiado fortes e estão bem implantadas, mas, se todos aqueles que repudiam o AO90 se unirem, poderão inverter o rumo até agora seguido e conseguir a anulação desse acordo. Essas forças contrárias que, em Portugal, aviltaram a Língua portuguesa pertencem aos mesmos grupos daqueles que agora procuram aí aviltar a moral do povo português. Eis mais uma razão para combater o acordo até à sua total extinção!
Se houver homens e mulheres de boa vontade, que sejam capazes de dar a cara e de enfrentar os autores do AO90 e todos aqueles que lhes deram cobertura, podem contar comigo; tal como o meu amigo estarei pronto para colaborar.
Não me recordo de alguma vez ter havido um debate televisivo sobre este assunto. Mas, talvez fosse uma boa ideia, para começar a despertar uma grande maioria do povo português para a necessidade imperiosa da anulação do acordo, exercendo assim pressão sobre o poder político. Teria de ser um debate entre um grupo de verdadeiros conhecedores da Ciência da Língua, opositores ao AO90, e um grupo de defensores do AO90 que tenham participado na elaboração do acordo. Tenho sérias dúvidas que, entre os defensores do acordo, que nele participaram e que ainda sejam vivos, haja muitos que tenham a coragem de apresentar-se para um debate televisivo dessa natureza. Têm andado a esconder-se, pois ainda não vi nenhum deles a defender o acordo.
Também me faz impressão a indiferença com que a classe política olha para o AO90! É que nem falam no assunto! Vejo muita gente revoltada contra o acordo nos meios de comunicação, inclusive políticos, mas, no parlamento, parecem estar todos acomodados. Não há sequer um que questione o parlamento sobre o que foi feito à nossa Língua!
Um grande abraço, meu amigo António Justo. Continuemos a nossa luta. Se tiver alguma ideia a sugerir, que sirva para defender a nossa Língua, será por mim bem acolhida. E um muito obrigado pelos seus artigos que são sempre bem elaborados, cheios de conhecimento e voltados para a reflexão.
Abílio Vi
Excelente artigo, concordo plenamente e continuo a escrever com a convicção do que significa a língua que aprendi nos meus primeiros anos de formação.
Arq Cristina Fernandes, tenho a imperessão que nesses tempos a Universidade era mais independente porque, apesar de tudo, o carácter científico era mais respeitado pela política!.