De uma praia de pedra e vento, contra o fado do abandono,
Nasceu a vontade férrea que nenhum silêncio consome,
O rapaz que ousou erguer-se e recusar o outono,
Para gravar no mármore do tempo o seu próprio nome.
Cristiano é o cinzel que molda o corpo e o destino,
A prova de que a matéria se dobra perante a mente;
Num Portugal tantas vezes perdido no seu desatino,
Ele é o eixo vertical, o facho que se faz presente.
Não se fala aqui do ouro, do mercado ou da fumaceira,
Mas do herói que fita a meta com o olhar concentrado;
Ele move as energias de uma nação inteira,
E transporta no peito o choro de um povo sitiado.
Os comentadores passam, poeira na estrada vazia,
A crítica murcha na sombra do que foi apenas falado,
Mas o gesto de quem salta, rasgando a geografia,
Fica suspenso no ar, na memória do sagrado.
Ele mobilizou a alegria, o grito guardado na garganta,
Unindo o pequeno operário ao mais alto sonhador;
Pois quando o capitão avança e a cabeça levanta,
O mundo inteiro compreende a dignidade do esforço e do amor.
Corações ao alto! É o lema que a sua carne encarna,
Uma força que aglutina a cultura e a identidade;
No altar do relvado, onde a fria razão se desengana,
Fica o homem-símbolo, eterno na sua vontade.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo