Um Olhar a partir do Diagnóstico de Ratzinger e dos Biótopos da Alma
A modernidade europeia vive um paradoxo dramático. Enquanto a diversidade é celebrada nos discursos formais, a administração tecnocrática centralizada em Bruxelas atua como um bulldozer que aplaina as assimetrias, transformando o continente num latifúndio sem biótopos. Trata-se do cumprimento rigoroso do diagnóstico que Oswald Spengler formulou em “O Ocaso do Ocidente”: aquele momento crítico em que uma cultura viva perde a sua força interior e espiritual, petrificando-se numa civilização mecânica, utilitarista e fria.
A atual fixação da União Europeia num globalismo liberal económico, aclitado por um socialismo puramente funcionalista, revela uma falta escandalosa de perspetiva histórica e humanista. Incapaz de formular estratégias geopolíticas de longo prazo, a liderança europeia transfere a sua ausência de visão para o interior dos próprios Estados-membros. O resultado é a importação e o fomento de lutas sociais internas e de conflitos identitários artificiais. O povo é jogado uns contra os outros dentro da própria casa, fragmentando o tecido social em guetos mutuamente hostis.
Todo este desvario maniqueísta seria evitado se existisse uma genuína consciência histórico-cultural de si. Como expus em As Metamorfoses do Mistério (1), o facto de uma cultura procurar manter-se fiel às suas próprias raízes não significa, de modo algum, opor-se às outras. A verdadeira tolerância não nasce do vazio identitário, mas sim da firmeza interior. Só quem sabe quem é pode respeitar o outro. A confusão de ideias e de práticas que Bruxelas dissemina só serve para semear o caos e abrir o caminho a um Islão que sabe o que é e o que quer, numa sociedade que se encontra desorientada e contraditória consigo mesma.
É precisamente neste ponto que a figura de Joseph Ratzinger se revela como um farol civilizacional, que transcende as fronteiras da religião. Ratzinger encarnou a síntese perfeita que fundou a Europa: a herança greco-romana, a sabedoria germânica e o dinamismo do Evangelho. Ao recuperar o conceito de Logos (razão) e de “lei natural”, o Papa emérito propôs uma plataforma universal de entendimento. Nesta visão, a consciência individual do homem é soberana e a história, as culturas e a natureza são mitos veneráveis, manuscritos sagrados que encerram um enigma transitório e não meros recursos a serem explorados pela razão instrumental.
Para que a Europa tenha futuro, é imperativo que compreenda que o mundo atual é organicamente multipolar. A insistência numa visão hegemónica e eurocêntrica acabou por conduzir o Norte geopolítico a um beco sem saída belicista, onde a única linguagem parece ser a da intensificação da guerra. É, portanto, urgente escutar a diplomacia do Sul global. O pluricentrismo, cuja riqueza encontramos, por exemplo, na ecologia linguística e humana da Lusofonia com o seu pluricentrismo, ensina-nos que a paz se constrói através da reciprocidade fraterna e não pela imposição ideológica.
Não podemos permitir que a Europa se transforme numa oficina sem alma. Temos de recuperar a nossa consciência histórica para, finalmente, podermos conviver pacificamente no grande concerto das civilizações, como humildes aprendizes na oficina do Real.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
© Pegadas do Tempo
https://de.wikipedia.org/wiki/António_Justo
(1) As metamorfoses do Mistério: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11068