Balada das Ondas da Vida

Nas ondas da vida nas ondas do mar,
a vida movimenta-se novas ondas a formar.
Crista e vale, subida e descida,
dança eterna da força contida.

O que parece contrário é par,
o que julgas adverso vem-te sustentar.
Como o barco no alto mar navega,
sem a onda que o ergue, afunda e se entrega.

Na família, no clã, na sociedade inteira,
agem forças antigas de maneira certeira.
Não são inimigas, não são contradição,
são faces diversas da mesma criação.

Cada ser que respira busca individuação,
definir-se, afirmar-se na sua condição.
E neste afirmar-se, no atrito que há,
não reside a guerra, reside o estar cá.

Se cada um soubesse, se cada um notasse
que as mesmas leis da vida, em todos palpitasse,
o conflito seria visto com outro olhar:
não inimigo a temer, mas irmão a abraçar.

Pois a energia que te move a ser quem és,
move também o outro, move tantos a seus pés.
A mesma força cósmica que ondula o oceano
ondula em ti, em mim, no próximo, no humano.

Compreender-se é compreender o alheio,
reconhecer em si o universal enleio.
A onda não combate a onda que vem depois,
juntas formam o mar, juntas são as leis.

Se te vires como parte, não como separado,
se sentires a vida como um todo entrelaçado,
verás que o atrito é só a pele da união,
o preço da existência, a marca da individuação.

Somos barcos ao vento, somos ondas também,
somos força e repouso, somos onda e vaivém.
E se não fosse o empurrar de cada onda a formar,
não haveria sustento, não haveria mar.

Então navega consciente, com olhos de aceitar:
o que te parece adverso veio-te ajudar.
As leis da natureza não conhecem traição,
só conhecem o pulsar da eterna criação.

Que esta balada seja espelho e lição,
que cada verso acorde a tua supervisão:
Não há inimigos onde há compreensão,
há só o ondular da vida em constante expansão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo 2024

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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