Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar
Há sociedades que adoecem não por falta de riqueza, mas por excesso de unanimidade. Não são apenas os monopólios económicos que empobrecem um país; existem também monopólios de ideias, mais subtis e por isso mais difíceis de reconhecer. Não proíbem formalmente o pensamento, mas ocupam-no e embora não o censurem directamente, a realidade é que o saturam.
Também em Portugal, como em grande parte da Europa, cresce por vezes uma atmosfera em que determinadas narrativas tendem a adquirir estatuto ritual, quase litúrgico e que refletem o fervor de olhos e mãos erguidas em torno do ecrã. Questões reais e sérias como o clima, as discriminações, as imigrações, as guerras, as desigualdades e as várias formas de exploração, entram cada vez mais no espaço público acompanhadas por uma intensidade moral que nem sempre favorece a inteligência do problema. O zelo substitui a análise e a proclamação ocupa o lugar da interrogação.
Não é o tema que se torna ilegítimo; é o modo como, por vezes, se instala. O activismo, quando perde a capacidade de se deixar corrigir pela realidade, arrisca tornar-se cantante ao repetir fórmulas, amplificar emoções, criar pertenças e fabricar urgências permanentes. O ruído passa então a valer como prova de razão.
Entretanto, aqueles que conhecem os mecanismos profundos do poder, económicos, tecnológicos, financeiros, ideológicos e burocráticos, continuam a mover-se com discrição. Enquanto o olhar colectivo se fixa no eco das palavras, outros reorganizam silenciosamente os corredores da casa.
Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar. Tal como uma cidade precisa de esgotos para afastar os resíduos e preservar a habitabilidade, também a vida pública necessita de instituições, meios de comunicação, escolas e cidadãos capazes de fazer circular o ar das ideias (e para isso não chega o barulho interpartidário, tão querido pelo poder porque desvia as atenções para polémicas de interesses). Onde tudo se acumula, até a boa intenção azeda.
Ai da sociedade que se transforma em esgoto de forças que se imaginam o centro do seu próprio universo. Vive então do ruído, da indignação contínua e da substituição do cidadão pela audiência. O indivíduo deixa de participar e limita-se a reagir; deixa de pensar e aprende apenas a alinhar-se.
Por isso, hoje a necessidade política mais urgente não é produzir mais palavras, mas criar mais ventilação. Ventilação intelectual e de interesses em jogo. Necessitam-se mais pessoas capazes de perguntar antes de repetir; de distinguir entre compaixão e exibição moral; entre justiça e automatismo ideológico; entre informação e sincronização emocional.
Uma casa fechada torna-se abafada mesmo quando está limpa. Também o cérebro humano precisa de janelas abertas ao controverso e ao contraditório, precisa de portas para o inesperado, de corredores onde circulem dúvidas e argumentos doutro modo asfixia na narrativa de um sistema ou de uma ideologia.
A grande casa europeia atravessa um desses momentos em que o ar rareia. Não apenas por crises externas ou por limitações materiais, mas também pela fadiga da inteligência governativa: uma tendência para administrar narrativas em vez de enfrentar causas, para gerir percepções em vez de imaginar caminhos. Ao mesmo tempo, actores económicos de dimensão global adquirem uma capacidade crescente de influenciar ritmos, prioridades e dependências.
Nenhuma civilização morre apenas por falta de recursos; muitas começam a definhar quando deixam de distinguir entre consenso e conformismo, entre doutrina e pragmatismos imediatistas.
Talvez o primeiro dever de uma sociedade livre seja conservar limpos os seus esgotos e abertas as suas janelas, porque uma abertura meramente globalista transforma o cidadão em necessitado e mero cliente dos seus produtos.
Uma comunidade nao atenta que não cria canais para escoar excessos, ideologias e resíduos do pensamento arrisca tornar-se irrespirável, malcheirosa e incómoda. Ai da pátria que não tem esgoto: cedo confundirá pureza com estagnação e ordem com sufocação.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©