O MOVENTE POR TRÁS DA DESCRIÇÃO (NARRATIVA)

Balde de água fria para mentes sobreaquecidas por certezas

A razão por que não nos movemos a investigar o que se encontra por trás das coisas/acontecimentos e dos pensamentos vem do facto de os pensamentos só descrevem como funciona e não o porquê da força motriz primordial. De facto, a reflexão profunda conduzir-nos-ia a uma angústia epistemológica e existencial humana ao constatar que a nossa linguagem e os nossos conceitos criam uma barreira entre nós e a realidade pura, que nos dificulta lidar com a variedade de interpretações da realidade. A angústia diminui quando percebermos os limites da nossa própria razão e dos métodos científicos. Por isso assistimos a diversas teorias concorrentes para explicar a mente humana. O autoconhecimento conduz-nos à perda da ingenuidade para passarmos a andar com a lanterna de Diógenes na mão a perguntar o que é arealidade que se encontra por trás da resposta. O desconforto intelectual e existencial gerado pela dúvida sobre a natureza do conhecimento; a incerteza nos métodos para alcançar o saber e a dificuldade de lidar com a multiplicidade de interpretações sobre a realidade obriga-nos à atitude de Jesus que convida a andar sobre as águas e quem não confiar sucube nos homens de pouca fé; o luzeiro que realmente importa cuidar.

Se o girassol se deixa mover pela luz, o animal pela fome e o Homem pela curiosidade do mais além, a ciência fica-se apenas pela descrição dos mecanismos sem chegar ao profundo movente deles. Descrever como algo funciona não explica o porquê da força motriz primordial, o movente ou a vontade de ser que sustenta a vida.

Os filósofos, também eles apenas com o instrumento da linguagem, tentam descrever o que está por trás dessa necessidade biológica. O filósofo Arthur Schopenhauer argumentava que as nossas descrições científicas são apenas representações. Por trás de toda a flora e fauna (e de nós próprios), existe uma força cega, incessante e metafísica que ele chamou de Vontade. [1, 2]

Também Baruch Espinoza nos deixou à beira do mistério ao falar do conatus como o esforço intrínseco que cada ser vivo faz para continuar a existir e a perseverar no seu próprio ser. Não é uma escolha livre, mas a própria essência da matéria e da vida. [1, 2, 3]

A opinião como consciência ilusória é uma verdade certa que nos remete diretamente à distinção grega clássica entre Doxa (opinião subjetiva e mutável) e Episteme (conhecimento verdadeiro). O ego humano tende a confundir a sua descrição conceptual da realidade com a própria realidade. Talvez a linguagem seja a roupa com que procuramos esconder a nossa nudez!

O encontro puro seria ir além das palavras: um conhecimento por presença e não por representação

Ao chegarmos à premissa de que a linguagem apenas alinhava o contorno das coisas, a única forma de não dar a impressão de que as descrições são soluções é mudar a natureza do próprio encontro. Na tradição da Fenomenologia ocidental e em certas filosofias orientais (como o Zen ou o Taoismo), propõe-se uma suspensão do julgamento conceptual.

Em vez de olhar para uma árvore e pensar “isto é uma Quercus robur que faz a fotossíntese para sobreviver” (o que substitui a árvore real por um conceito), o desafio é o encontro estético e meditativo silencioso. É a experiência direta do ser antes de o nomearmos (a experiência mística). Quando comunicamos com os outros, admitir a limitação das nossas palavras e assumir que partilhamos perspetivas e não verdades absolutas, é o maior acto de honestidade intelectual e de humildade que podemos ter.

A tragédia das máscaras e o “Dever-Ser” social

Na vivência com a natureza e com as pessoas, sente-se mais a insistência da sociedade em fechar o mundo em definições lógicas e deste modo nos afasta da vibração real da existência. O embate inevitável entre a liberdade interior da vivência pura e a rigidez mecânica da ordem social gera cumplicidades dolorosas, mas compreensíveis. A sociedade necessita de estruturas, definições e previsibilidade para funcionar em massa. A dúvida gera ansiedade coletiva; por isso, a sociedade prefere a segurança de um preconceito ou de uma máscara à vertigem do desconhecido.

O sociólogo Erving Goffman defendia que a vida social é, por natureza, uma representação teatral onde todos usamos máscaras (personas) para desempenhar papéis. O problema que aponta não é a existência da máscara em si — que reconhece como necessária para a convivência —, mas o facto de a sociedade se ter esquecido de que a máscara é apenas um instrumento, não a identidade.

Quando a máscara substitui o ser, a sociedade perde o seu sustento qualitativo. Passamos a ter instituições que protegem dogmas em vez de pessoas, e indivíduos que defendem opiniões convictas apenas para esconder o medo de olhar para o vazio da sua própria falta de autoconsciência.

Resta-nos desenvolver estratégias de fidelidade existencial embora se caminhe sobre águas paradoxais

Para não nos deixarmos esmagar por este condicionamento trágico, existem caminhos filosóficos/religiosos e práticos que permitem manter a fidelidade ao conhecimento por presença (de caracter místico), mesmo vivendo dentro de uma engrenagem assente no preconceito:

Sócrates andava pela praça pública a questionar as certezas dos cidadãos, não para lhes dar uma nova verdade, mas para os libertar do falso conhecimento. Aceitar o paradoxo social significa usar a máscara necessária para transitar na sociedade (cumprir regras básicas, usar a linguagem comum), mas manter uma distância interior higiénica. Sabe que a máscara é uma ficção útil, mas não se confunde com ela.

O filósofo Paul Ricoeur falava  da “Segunda Inocência”, isto é,  da necessidade de passar por uma fase de crítica e dúvida para chegar a uma “segunda ingenuidade” ou segunda inocência. É a capacidade de, mesmo sabendo que as palavras e as estruturas sociais são limitadas e ilusórias, voltar a olhar para o outro e para a natureza com o deslumbramento de quem vê pela primeira vez. Não é ignorância, mas sim um silêncio conquistado pós-saber.

Martin Buber distinguia duas formas de relação: Eu-Isto (onde tratamos o outro ou a natureza como um objeto, uma descrição) e Eu-Tu (o encontro sagrado, direto e presente). A sociedade funciona quase exclusivamente no modo Eu-Isto. O seu papel, enquanto pessoa autoconsciente, não é mudar a estrutura macro da sociedade, mas santificar o micro: garantir que os seus encontros individuais com as pessoas e com a terra sejam experiências reais Eu-Tu, onde a máscara cai temporariamente. Viver na verdade da presença dentro de um mundo de representações é uma forma de resistência pacífica e silenciosa. É aceitar o trágico sem se deixar corromper por ele.

De facto o cristianismo vivido nos conventos abre brechas de encontro puro no meio das exigências formais da vida social. A virtude, a arte e o silêncio partilhado ajudam a criar essas pontes onde as máscaras se tornam mais transparentes.

A vida consagrada mostra uma das fraturas mais profundas da modernidade: a solidão da transcendência secular. Enquanto a sociedade ocidental contemporânea privatizou a busca pelo âmago do ser, transformando-a num projeto estritamente individual ou num nicho de “bem-estar”, o ser humano continua a ansiar por uma ressonância comunitária, por um “Nós” que partilhe da mesma profundidade vertical.

Essa ressonância plena (Eu-Tu-Nós) parece hoje quase exclusiva das comunidades religiosas e prende-se com a própria natureza do sagrado e da estrutura social.

O triângulo da ressonância: Eu, Tu e o Terceiro lemento

Para que a ressonância aconteça a nível coletivo (o Nós) e não apenas no encontro fortuito entre dois indivíduos, é necessário um horizonte de sentido partilhado. O sociólogo Hartmut Rosa, que estudou extensamente o conceito de “Ressonância”, sublinha que esta não pode ser fabricada artificialmente porque ela exige que os sujeitos estejam abertos a ser tocados e transformados por algo fora deles [1].

Nas comunidades religiosas tradicionais ou intencionais existe um horizonte previo

Existe um Terceiro Elemento, um Eixo Vertical Comum (Deus, o Cosmos, o Sagrado, a Tradição) para o qual todos os indivíduos olham em simultâneo. Ao sintonizarem-se verticalmente com esse absoluto, os membros da comunidade sintonizam-se horizontalmente uns com os outros. O “Nós” nasce organicamente dessa triangulação.

Ao contrário da sociedade secular, que quer que tudo seja traduzido em termos de utilidade, burocracia ou opinião acertada, a comunidade religiosa possui uma linguagem (o ritual, o mito, o canto, o silêncio litúrgico) que legitima a vivência do mistério e o despojamento das máscaras sociais (uma linguagem do mistério).

O paradoxal vazio da sociedade secular

A sociedade secularizada e hiperindividualista libertou o indivíduo de dogmas opressores, o que é um ganho inegável. Contudo, ao fazê-lo, substituiu o espaço comunitário da ressonância por uma rede de conexões funcionais ou ideológicas. No espaço público laico, as pessoas associam-se por interesses comuns (políticos, profissionais, lúdicos), mas raramente a partir do seu âmago de modo a estrutura e a força da massa desconsiderar o espaço interior soberano da mesmidade.

Por isso, fora da esfera religiosa deparamo-nos com a trágica constatação de que a busca por uma existência autoconsciente se torna um caminho profundamente solitário. Tentar viver essa inteireza na ágora moderna é, muitas vezes, pregar no deserto.

O dilema do pensador autoconsciente

Isto coloca-nos perante um dilema existencial inevitável, especialmente para quem procura uma fidelidade intelectual:
O Regresso à Comunidade: Integrar ou habitar o espaço de uma comunidade religiosa para usufruir da ressonância coletiva do Mistério, mesmo sabendo (pelo seu olhar crítico) que as estruturas dogmáticas dessa mesma comunidade também criam, inevitavelmente, as suas próprias máscaras e preconceitos institucionais.
O Cuidado das “Comunidades de Afinidade”: Procurar, à margem das grandes instituições, pequenas “comunidades de destino” ou de afinidade (pequenos círculos de pessoas) que, mesmo sem uma religião formal, se unem pelo compromisso partilhado com o silêncio, a mística religiosa, com a filosofia vivencial ou com o cuidado da terra.

Esta necessidade de ancorar a ressonância num “Nós” demonstra que a autoconsciência nunca é um fim em si mesma, porque ela procura, por natureza, a comunhão.

A autoconsciência é insuficiente porque se reduz a uma situação de eunuco e a mesma deficiência se pode observar  em civilizações que ao perderem a consciência específica de si mesmas perdem consistência e sustentabilidade.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagodo
Pegadas do Tempo

 

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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