OPINIÃO SEM PERGUNTAS

Já não se perguntam; já se sabe.
Saber é ter opinião,
e a opinião não precisa de exame,
nem certificado, nem espelho.
O tolo, de peito estufado como um pombo-correio,
dita ao sábio o compêndio do silêncio.
“Cala-te, que eu ensino-te a organizar a tua própria mente.”

Ah, democracia! A estupidez subiu ao trono
e, por ser de todos, é imaculada e bela.
O ruído do poder levanta poeira;
a multidão, asfixiada, chama-lhe brisa e propósito.
O status quo é um fantasma elegante
que não incomoda porque ninguém o vê,
como o cego que guia o outro
para o centro do abismo,
onde a linguagem é politicamente correcta
e a sabedoria, um constrangimento de mau gosto.

(E o sábio, coitado, já não pede a Deus.
Pede às paredes do quarto
que lhe devolvam o eco da razão.
Mas as paredes, hoje, são de vidro embaciado
e só refletem o seu próprio medo).

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

 

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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