Desce do alto, pois o olhar do mirante
é vidro espesso que te separa do mundo.
A vida corre em baixo, ofegante,
e a pedra é dura só no olhar profundo.
Se a tocas, é calhau que a água molha,
se a evitas, é muralha que te cerra.
A noite que na tua alma se recolhe
é o eco da razão que faz da terra
um campo estéril onde a mente semeia
areia grossa em vez de branda relva.
A cruz que pesa e que o teu dorso encadeia,
se a ergueres com braços, torna-se em selva,
mas se a arrastas no chão, feita corrente,
enforca o coração na própria gente.
Vai, toca a folha que o sol chama e sente,
e deixa o pé na água que não mente.
O sério da vida é não levá-la a sério,
sê água, sê raiz, sê sol, sê ar,
que o todo cabe num só hemisfério
se o deixares sentir, não explicar.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo