Leviandade, a dos que gritam «é livre»
quando o punho do clã lhe cerra a nuca.
Leviandade, a dos que bramam «é estrangeira»
quando o que odeiam é a fêmea em si.
Ambos a usam como bandeira de conveniência,
nenhum lhe pergunta se o véu pesa mais
que o peso da alma que lhe calaram.
Ela é o negócio da religião,
a moeda de troca entre o céu e a terra,
a prova de que o homem é senhor
quando a mulher é só silêncio andante.
Não conseguem ver?
A pressão é mais fina que a seda,
entranha-se-lhe nos ossos
como prece íntima:
«Cobre-te,
que a tua face é pecado;
descobre-te,
que a tua face é escândalo;
sê nenhuma (ninguém),
que assim serás de todos.»
Mas quem defenderá o direito
de ela ser
a autora do seu próprio eclipse
ou da sua própria aurora?
Quem lhe devolverá a tinta do rosto
para que ela pinte o dia
conforme o seu próprio gosto?
Ah, deixai-a rasgar a cortina do templo,
não para ofender deuses,
porque esses são mudos,
mas para que a mulher, enfim,
seja perigo apenas pela sua inteligência,
e não pela covardia do homem
que a esconde.
Que a praça a receba
como rio que ela é:
sem margens,
sem dono,
sem burca.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
Excelente!
Mas pelo Ocidente é o negócio do rosto que funciona, desde uma candidatura para atendedora do balcão de boutiques a recepcionista de chafarica, ou mesmo para uma posição destacada nos media ou grandes empresas…
Elvira Fernandes, tem toda a razão. É verdade que, muitas vezes, a sociedade acaba por atribuir um peso excessivo à aparência, transformando o rosto numa espécie de cartão de visita ou até de critério de seleção. A poesia procurava precisamente convidar a um olhar diferente: para além do rosto que se vê, há o rosto que revela a história, a sensibilidade e a humanidade de cada pessoa. Talvez seja esse o que mais importa, mesmo quando nem sempre é o mais valorizado. O que mais precisamos é de arífices de humanidade. O seu comentário revela uma consciência atenta.
António Cunha Duarte Justo Nunca me preocupei com igualdade entre géneros, porque nem mesmo dentro do mesmo género somos iguais, as capacidades físicas ou intelectuais divergem mas há lugar para todos.
Elvira Fernandes, precisamente! O problema de base pervalece e esse é a matriz masculina que seguimos da tradição patriarcal em que o princípio feminino se submete ao masculino contentando-se em assumir apenas papeis dentro dele!
António Cunha Duarte Justo, e cujo desaparecimento não se dará. Quando muito, a adaptação aos tempos pelo acesso que as mulheres têm tido na educação e através do ensino superior e na política. Mas qualquer dos campos ainda não está pronto para ser trabalhado em pé de igualdade, há diferenças quer fisiológicas quer mentais (refiro raciocínio) que nunca se diluirão por completo. A humanidade vive um processo em que a maturidade parece que se evaporou!
Elvira Fernandes, vivemos numa matriz masculina antropológica e não ginoantropológica como tenho exposto em alguns dos meus textos e a conseqquência é que as próprias mulheres são obrigadas a assumir os papeis que a matriz masculina contempla tendo para isso de renuciar em grande parte ao princípio daa feminilidade.