O CATAVENTO DO MIRANTE
Grita o mundo em altos brados,
Com certezas de metal,
Vão os egos inflamados
Em desfile triunfal.
Toda a gente tem razão,
Ninguém quer olhar para dentro;
Faz-se do moral brasão,
Quando a alma é só vento.
Gritam “paz” e batem palmas,
P’ra bancada ver e ouvir,
Mas esquecem que nas almas
É que o mundo vai sorrir.
Não suspires pelo ruído
Desta mesa de bilhar,
Onde o humano é perdido
Só p’ra a bola desviar.
Vem, abraça a imperfeição,
Que a verdade não tem dono;
Quem tem toda a razão,
Não tem direito ao sono!
A vida quer-se vivida,
Com sabor e com bom som,
Que a rir se cura a ferida
E o discernimento é bom.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
NA DANÇA DO SIM E DO NÃO
Vem o doutor da praça pública,
Com a cartilha bem guardada,
Cospe uma frase mui jurídica,
Mas a verdade está trancada.
Uns vão p’ra a esquerda, outros p’ra a direita,
Como bonecos num cordão,
Nesta cegueira tão estreita,
Cada um se julga com razão.
Guerra e fronteiras no tabuleiro,
Eles discutem em poltronas,
Mas fogem todos do nevoeiro,
Nas suas redomas madonas.
Ai, que cansaço ver o mundo
Dividido em “sim” ou “não”,
Quando o mistério mais profundo
Mora no fundo do coração!
Deixa o alarido no seu canto,
Que a vida é curta p’ra chorar,
Muda o suspiro num encanto,
Pois fomos feitos para amar.
Se a limitação nos define,
Seja o erro o nosso espelho;
Quem no bom humor não atine,
Vive choraminga e já velho!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo