A lucidez de António Costa entre a oposição da E3 e os interesses negligenciados do Sul
À laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, não pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder não se mede pela força do punho, mas pela largura do olhar, aquele olhar universalista de quem, sentado no extremo do continente, vê o mundo como um todo, não como um tabuleiro de xadrez dividido entre vencedores e vencidos. Quem só ouve Berlim e Paris, escuta o eco do poder; quem ouve Lisboa, escuta a voz da razão.
Introdução
A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, António Costa, de abrir canais diplomáticos com Moscovo não foi um mero gesto protocolar. Foi um teste à coesão da União Europeia e o resultado do teste foi revelador. Ao tentar estabelecer contacto com o Kremlin para avaliar a disponibilidade russa para negociações, Costa expôs uma fratura que há muito se adivinhava, mas raramente se assumia em público: a Europa não fala a uma só voz, nem sabe bem quem deve falar por ela. O que é mais grave ainda é a Europa não se mostrar disposta a ouvir todas as suas vozes porque o grupo E3 (Alemanha, Inglaterra e França) pretende ser a voz da Europa e opem-se veementemente à tentativa de António Costa, Presidente do Conselho Europeu, de preparar relações diplomáticas com Moscovo.
O que está verdadeiramente em jogo não é apenas o protocolo diplomático ou a oportunidade política de um contacto telefónico. O que está em causa é a própria natureza do projeto europeu, a tensão entre as suas tradições políticas, a anglo-saxónica e a latina e a persistente dificuldade em conciliar os interesses de um continente que se quer unido mas que continua a ser gerido por uma lógica de pesos e contrapesos onde nem todos os pesos são iguais.
O E3 e a pretensão de um poder moral
França, Alemanha e Reino Unido, o chamado grupo E3, reuniram-se em Londres com Volodymyr Zelensky para delinear as condições para uma paz “justa e duradoura”. O formato E3, segundo o chanceler alemão Friedrich Merz, teria sido criado “a pedido expresso da Ucrânia”. Mas esta justificação, por mais legítima que seja, não esconde uma realidade mais incómoda que é o facto de o grupo E3 se arrogar a si não apenas o poder económico e militar, mas também um poder moral que, na prática, funciona como uma espécie de colonialismo mental sobre os restantes Estados-membros.
Quando Macron e Merz criticaram a iniciativa de Costa, argumentaram que o momento ainda não era o certo para dialogar com Putin e que, quando esse momento chegasse, deveria ser o E3 a liderar. Mas quem lhes confere esse direito? O tratado europeu é claro quanto ao papel do presidente do Conselho Europeu: é o “representante natural” dos interesses do bloco. Costa, como ex-primeiro-ministro português, não age por capricho ou por vaidade pessoal; age dentro das suas competências institucionais. A reação de Merz e Macron revela menos uma preocupação com o protocolo do que com a perda de controlo sobre o processo.
A geopolítica do Norte contra a diplomacia do Sul
A oposição a Costa reflete duas visões antagónicas da política externa europeia. De um lado, a tradição anglo-saxónica, que vê o mundo em termos de poder, de alianças militares e de vitórias estratégicas. Do outro, a tradição latina e, dentro dela, a velha escola diplomática portuguesa; que privilegia o diálogo, a mediação e a construção de pontes, mesmo com adversários.
Costa defendeu a sua posição com clareza: “Não podemos depender apenas de outros para interpretar as mensagens russas”. O seu objetivo era “estabelecer um canal diplomático” para, “quando chegar o momento, defender os interesses da UE”. Não se tratava de mediar, nem de substituir os Estados Unidos, nem de abrir uma via negocial paralela. Tratava-se, simplesmente, de garantir que a Europa tem uma linha direta com Moscovo, em vez de depender de terceiros para saber o que o Kremlin pensa.
Esta abordagem, que qualquer diplomata experiente consideraria elementar, foi recebida com fúria por Berlim e Paris. Um diplomata do E3 chegou ao ponto de classificar a iniciativa como “altamente pouco profissional”. Outros líderes, como o primeiro-ministro estónio, rejeitaram liminarmente a necessidade de “canais alternativos” com “ditadores”. A mensagem é clara: para o núcleo duro europeu, a diplomacia só é legítima quando gerida por quem se considera no direito de a gerir.
Os países que apoiam Costa e a razão do seu apoio
Mas Costa não está isolado. A Irlanda e a Letónia pronunciaram-se a favor da sua liderança. A Bélgica, na voz do primeiro-ministro Bart De Wever, apoiou-o publicamente: “És o único que nos pode representar”. A Eslovénia saudou “quaisquer passos que possam levar à cessação das hostilidades”. Uma fonte oficial europeia referiu mesmo que “um número enorme” de Estados-membros apoiou a posição de Costa.
Porque razão estes países, muitos deles pequenos ou periféricos, se colocam ao lado de Costa? Porque veem nele a possibilidade de uma Europa que não é apenas o prolongamento dos interesses franco-alemães. Veem nele a esperança de que a diplomacia não se resuma à lógica da indústria bélica, de que a paz não seja apenas uma palavra vazia e de que os interesses do Sul, onde a guerra parece distante, mas os seus custos são quotidianos, possam finalmente ser ouvidos.
Os custos da guerra e o orçamento dos sacrifícios
A pergunta que Costa, conscientemente ou não, colocou no centro do debate é simples, mas incómoda! Por que razão os Estados do Sul teriam de cortar nas prestações sociais, nos serviços de saúde, na educação e no bem-estar das suas populações para financiar uma política de confronto que beneficia sobretudo os interesses industriais e militares do Norte? A União Europeia está a pagar um preço elevado pela guerra na Ucrânia, um preço que, como sempre, é suportado de forma desigual.
Enquanto Berlim e Paris lideram a retórica da vitória “custe o que custar”, são os cidadãos do Sul, com os seus salários mais baixos e os seus Estados sociais mais frágeis, que sentem na pele o impacto da inflação, do aumento do custo de vida e da pressão orçamental para aumentar as despesas com defesa. A unidade da Europa, na visão do E3, serve os interesses do E3. A solidariedade europeia, na prática, tem um programa muito preciso.
A velha política portuguesa e o futuro da Europa
Costa, ao estender as suas antenas em direção a Moscovo sem consultar previamente as potências do E3, não cometeu um ato de indisciplina. O que cometeu foi um ato de lucidez, pois recordou à Europa que a diplomacia não se faz apenas com sanções e com ameaças. Recordou que Portugal, país situado na extremidade ocidental da Europa, longe do centro belicoso do continente, tem uma tradição de mediação entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o mundo. Esta posição tomou-a Portugal ao fundar a escola de Sagres em torno do infante D. Henrique, adiantando-se a uma Europa também ela na altura embrenhada em guerras.
A velha política portuguesa, aquela que nos ensinou que é possível dialogar com adversários sem capitular, que é possível construir pontes sem abdicar de princípios, tem muito para ensinar a uma Europa que parece ter esquecido as virtudes da diplomacia e parece renegar a sua herança cultural. Costa não propôs uma rendição, o que propôs, foi que a Europa recuperasse o seu papel de actor diplomático autónomo, em vez de se limitar a seguir a agenda de Washington ou a dos seus próprios membros mais poderosos.
A Europa que queremos perante a Europa que temos
A Europa enfrenta uma escolha fundamental. Pode continuar a ser gerida por um núcleo duro de países do Norte que ditam a agenda e esperam que os restantes obedeçam. Ou pode redescobrir-se como um projeto verdadeiramente plural, onde a voz de Lisboa vale tanto como a de Berlim, onde a tradição diplomática do Sul é tão valiosa como o poder militar do Norte, e onde a paz não é uma concessão aos inimigos, mas uma exigência dos povos.
A iniciativa de Costa foi criticada como “descoordenada” e “não profissional”. Mas certamente foi a mais profissional de todas: a de um diplomata que sabe que o silêncio não é uma estratégia e que a guerra não se vence apenas no campo de batalha. O E3 quer sentar-se à mesa? Que se sente. Mas que não pretenda ocupar todos os lugares. A Europa tem 27 cadeiras. Está na altura de as ocupar todas.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
António Costa, afundou Portugal com mais de um milhão de migrantes em 7 anos de desgovernação, e fugiu para Bruxelas a exemplo de Guterres com as Nações desunidas.
Aliás; estas duas instituições têm a particularidade de serem destruídas por dois amigos de Putin disfarçados de defensores da democracia.
O pano de Costa caiu ao defender uma aproximação com Moscovo, o de Guterres caiu no dia em que se inclinou para beijar a mão do ditador russo.
Felizmente; nem todos os portugueses, têm memórias de galinha.
Durante a governação socialista, Sócrates/Guterres/ costa escrevi o que ninguém se atreveu, sobre estas três peças em vários Jornais.
Só no Mundo Português foram cerca de 650 Crónicas em Papel, e mais de 1200 On Line.
Por isso António Justo; sff, não vale a pena insistir em chamar aos ditadores de democratas, muito menos a assassinos de crianças e idosos.
Caro amigo Jovo, agradeço as suas palavras e compreendo a sua posição, só que o assunto do meu artigo é geopolítico e os interesses que na EU se escondem nos bastidores e que não são debatidos, de maneira geral na opinião pública, não podendo o senhor misturar alhos com bugalhos. Procuro proporcionar ao leitor pretexto para ter uma perspectiva analítica diferente daquela que os jornais em geral transmitem. O ano passado num artigo que tratava dos interesses dos países membros da EU em que Costa defendia que os países perdessem o direito a veto critiquei-o severamente. Também já escrevi artigos em que questiono o facto de políticos que dão barraca em Portugal serem coroados com postos em instituições internacionais. De resto, não sei donde lhe vem a ideia de chamar democratas a ditadores. Também estou consciente do activismo ideológico em que primam socialistas. Também estou consciente que o meu artigo é demasiado longo para poder ser publicado em jornais dirigidos ao público em geral. O mesmo se dá com a Carta aberta que escrevi sobre o uso de bandeiras ideológicas em edifícios públicos e que enviei ao Parlamento, ao Presidente e aos grupos parlamentares.
Para um debate construtivo, sugiro que nos atenhamos ao tema do artigo.
É isso mesmo caro amigo com visão futura global em prol duma Humanidade Universal em que o Mundo deve viver de forma igual.
Parabéns pela sua explicitude defende com muita razão a força dialogante de Antonio Costa ex- Primeiro Ministro de Portugal e, sobretudo, agora eleito presidente europeu defendeu seguro de si, o melhor caminho para a união de todos os continentes numa só versão a bem da Humanidade, evitando as guerras de países diferentes, talvez, uns ditadores e outros colonizadores. Ora, bom é que se diga que António Costa tem razão em pôr o dedo na efémera ferida da Europa
porque tem experiência da habitual falha na Democracia de dois pesos e duas medidas, no que se refere à própria Europa diferente , no que se refere aos países do Norte e Sul, é absurdo haver no mesmo continente tais
e grandes diferenças.‼️
Manuel Saraiva Borges, obrigado pelas suas palavras. Partilho a ideia de que o diálogo, a cooperação e uma visão mais equilibrada entre os povos são caminhos essenciais para uma Humanidade mais justa; este princípio devia valer também para a relação entre os partidos, independentemente do que pode estar por trás do que move as pessoas. A experiência política e a defesa de maior coesão dentro da Europa ajudam a lembrar que unidade também significa reduzir desigualdades e aplicar os mesmos princípios a todos. António Costa, com a posição que tomou conseguiu distanciar-se de forças que apostaram nele para o posto que ocupa. Com esta posição Costa deixou sobressair nele o chamamento de universalidade humana a que todo o português estará chamado.
Sr. António da Cunha Duarte, gostei de ler a sua publicação , como escreve , estas, belas suas palavras do saber—. A paz não é uma concessão aos inimigos , mas uma exigência dos povos . muito admirei , estas, suas palavras . Ás vezes quem governa as esquece não se lembram… mas temos, bons , escritores, e os poetas , sempre podem e o têem feito …. o povo, só deve ser grato– quem o acolhe com justiça — o povo quando fala não sabe dizer… Deus ,sempre está — os nossos governos se esquecem demais tantos a enrredar ! Valha-nos o Sr. António Costa , foi um profissional deu uns pontos em, verdade óxalá, todos , se unem do mesmo lado , em únião de homens no , saber e sabedoria , e não a fazer passar o tempo ! Mas fazer a paz e a resolução dos problemas do mundo , já são tantos .Uns se fazem rápidamente amigos , de uns e de outros, Outros então se tornam inimigos eternamente . Deiam um aperto de mão ao Sr. presidente da Rússia ao Sr. Putim . Há os que se dizem, somos bons,— somos, os melhores . e os outros parecem ter inveja , talvez em dialgo , confiança , tudo se recompônha . e o mundo sempre renasce das cinsas , em vida nova — Deus sempre tem a primeira palavra e a última palavra …. Mesmo que o homem não queira … Ele se fáz ouvir—- UM BEM HAJA
Conceição Azevedo, muito obrigado pelas suas palavras tão sentidas. Sim, a paz continua a ser uma exigência dos povos e um compromisso que deve nascer do diálogo, da justiça e do respeito entre nações. Que nunca faltem vozes, como a sua, que recordem que compreender é sempre mais difícil mas mais valioso do que dividir. Um bem-haja.
António Cunha Duarte Justo .. Até a querida Suiça que sempre se pautou pela neutralidade anda agora também com fogo no cu – se bem que obviamente a sua posição neutral sempre foi mais por interessar à banca e aos banqueiros judeus que outra coisa, mas.. agora até já alinham com a narrativa da Alemanha nazista… Não esquecer que o nazismo não foi derrotado em 45, ele está bem vivo na Alemanha, na Europa, e no ocidente em geral.. não esquecer que muitos dos oficiais da Wehrmacht foram reciclados pelo ocidente, acolhidos pelos EUA, deram-lhes a roupagem da “democracia” e ocuparam mais tarde cargos importantes na NATO, e formaram muita da mentalidade que domina hoje o pensamento dos militares saídos das academias e da sociedade ocidental em relação à Rússia!
Silvestre Mariano , os senhores do globalismo global estão a apoderar-se de tudo e a fazer uso da guerra para afirmar os seus interesses contra os dos povos e das nações. A guerra é a oportunidade em que apostam e a E3 assume o papel dos seus mosqueteiros.
Para quando a deposição de Zelensky?
Ana Bravo , ele é útil à E3 (Inglaterra, Alemanha e França) que mantêm o resto da europa refém.
António Cunha Duarte Justo Zelensky tem sido uma grande inspiração para alimentar a indústria do armamento , o desejo de expansão da NATO, a derrota de Putin, para tentarem a fragmentação da Rússia e a para a expansão do nazismo que ele perfilha, na Europa. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, tropas nazis irão desfilar nos ” Champs Élysées”, a 24 de Julho! Mais esclarecedor é impossível!….
Ana Bravo, sim, Zelensky foi colocado à frente da Ucrânia numa acção coordenada de oligarcas nacionais aliados aos interesses dos EUA/EU/Inglaterra ao serviço do ultracapitalismo internacional. Ele tem também dado oportunidade a uma nação como a Inglaterra a encobrir a sua própria autodestruição com a ilusão de uma guerra que só serve os três (E3) e à mediocridade dos políticos em Bruxelas de confundir o povo europeu.
Ana Bravo, é melhor esperar sentada.
João Norte, o objectivo deles é obrigar-nos a assistir sentados aos seu orquestrado “teatro”mas pelo menos é preciso erguer a voz porque a ideia conduz à acção.