CONTRA A MUTILAÇÃO GENITAL

Um exemplo criativo de coragem e dignidade

Na revista Kontinente, da organização missionária missio, deparei com uma notícia que merece ser partilhada como exemplo luminoso de humanidade e transformação social.

Entre o povo Samburu, no Quénia, persiste ainda a dolorosa tradição da mutilação genital feminina, rito imposto a muitas meninas antes do casamento e considerado, durante gerações, condição para a entrada na vida adulta. Para milhares de jovens africanas, este costume representa sofrimento físico, trauma psicológico e a perda da própria autonomia sobre o corpo.

Foi neste contexto que surgiu a coragem serena e criativa da Irmã Theresa Nduku. Em vez de afrontar a cultura local com condenações exteriores ou discursos agressivos, procurou transformar a tradição a partir de dentro, respeitando a identidade do povo e oferecendo uma alternativa humana e digna.

A religiosa criou um novo ritual de passagem para a idade adulta. Durante uma semana, as raparigas participam em encontros de formação e reflexão sobre o corpo feminino, a saúde, a dignidade humana, os direitos da mulher, a fé, a cultura e os seus próprios sonhos de vida. Aprende-se ali não apenas a rejeitar a violência, mas sobretudo a descobrir valor, autoestima e liberdade interior.

No final da semana realiza-se uma cerimónia festiva e solene. Os anciãos da comunidade rezam pelas jovens, as famílias participam com orgulho e os pais assumem publicamente o compromisso de não submeter as filhas à mutilação genital. Segundo a Irmã Theresa, “é um momento de alegria e orgulho para todos”.

Este exemplo mostra como a mudança social profunda raramente nasce da humilhação cultural ou da confrontação ideológica. Muitas vezes, nasce da proximidade, da escuta, da educação paciente e do testemunho silencioso de pessoas que dedicam a vida aos outros.

Em muitos lugares esquecidos do mundo, milhares de irmãs, padres e missionários continuam diariamente a salvar vidas, ensinar crianças, cuidar de doentes, defender mulheres vulneráveis e combater práticas desumanas. Fazem-no longe das câmaras, sem protagonismo e, frequentemente, em condições extremamente difíceis mas sempre com dedicação e respeito pelo povo.

Por isso, causa estranheza ver tantas críticas generalizadas e ideológicas dirigidas à Igreja por sectores e grupos que, na prática, raramente assumem presença concreta junto dos mais pobres, dos abandonados e das vítimas de tantas formas de miséria humana.

Histórias como a da Irmã Theresa Nduku recordam-nos que a verdadeira transformação do mundo começa quase sempre em pequenos gestos de coragem, respeito e amor concreto pelas pessoas.

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

4 comentários em “CONTRA A MUTILAÇÃO GENITAL”

  1. Que linda história da Irmã Theresa Nduku são estes gesto do bem, aos outros que alegram o mundo no amor concreto pelas pessoas , como escreve Senhor António Cunha ,que bom e com alegria, ler a sua publicação . Um Bem Haja

  2. Este é um exemplo claro de inculturação e direitos humanos, onde a tradição é ressignificada para proteger a dignidade humana sem destruir a identidade cultural local.
    Há muitos outros exemplos, registo aqui a inspiradora trajetória do bispo português D. José Alfredo Caires de Nóbrega, natural da Madeira, que pertence à congregação dos Dehonianos. Este bispo abdica de uma vida confortável para servir as comunidades mais vulneráveis do planeta.
    Está em Madagáscar há mais de 40 anos e atua como bispo da Diocese de Mananjary. Vive o drama da população que enfrenta secas severas e crises alimentares crónicas. O seu trabalho foca-se na garantia do básico para a sobrevivência.
    Tem uma vida de permanente reconstrução. As catástrofes que a região enfrenta são frequentes, os ciclones tropicais são devastadores.
    O bispo dedica grande parte do seu tempo a angariar fundos para reconstruir missões, escolas e habitações destruídas.
    Atua igualmente na defesa ecológica e social.
    Em tempos recentes, as missões locais têm enfrentado e denunciado os impactos da extração de ouro por grandes empresas, que polui as águas e empobrece ainda mais as populações locais…
    Sabemos que estes líderes religiosos vivem exatamente com as mesmas dificuldades do povo que pastoreiam, partilhando a escassez de recursos, a falta de infraestruturas e o isolamento. São estes testemunhos que mostram o lado profundamente humanitário e transformador da ação missionária.
    Para haver um julgamento justo e completo, a sociedade precisa de conseguir olhar para a Igreja na sua totalidade, condenando firmemente o que houve de errado, mas reconhecendo, com igual honestidade, o impacto vital do seu trabalho humanitário.
    Bem haja quem vive para servir, neste tão amor incondicional…

  3. A mutilação genital feminina passou a ser um a problema em Portugal com a imigração mulçumana. Não vai ser fácil erradicarmos esse problema.
    Melhores cumprimentos,

  4. Henrique, é realmente um problema, entre outros, importado. Os políticos estão mais interessados no empenho das guerras militares porque lhes dão mais lucro. A guerra contra a injustiça não preocupa a governação porque sabe o povo que tem
    Cumprimentos.

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