Na peugada do génio português
Trago Portugal gravado na medula dos ossos
e o Tejo aceso no Douro como estrela no olhar.
Sou filho de duas marés e de nenhum porto,
um barco antigo que já não sabe ancorar.
Parti quando os ares da europa respiravam luz
e a oliveira falava com o cedro do Norte;
então o mundo era largo como promessa
e nele cada um buscava a sua sorte.
Sou, no emigrante, metade caminho
No regressado a metade memória.
Mas no fundo sou apenas um homem
que escuta o fado secreto da História.
E assim caminho, migrante “Ninguém”,
com o mundo a viver já comigo,
na espera que o nevoeiro se abra,
sobre um Portugal avindo consigo.
Então saberei que a viagem fez sentido:
o exílio, o regresso, a dor e o cantar.
Porque todo o migrante que volta ferido
traz dentro de si a aurora do mar.
*
O emigrante e a sombra da pátria
caminham juntos como espelho antigo
onde a nação procura o seu rosto.
Nele o coração atravessa o abismo
como quem busca o início do mar.
Ele é ponte onde o coração nunca termina.
E assim o povo aprende a cantar
mesmo quando a dor se levanta.
António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo