Procuro a verdade
como quem caminha
ao lado de um rio invisível,
ouvindo a água
mesmo quando não a vê.
Houve um tempo especial
em que o silêncio das cúpulas
me ensinou a leveza:
ajoelhado, o corpo ficava no chão
e a alma espírito e psique
abria asas por dentro
e flutuava na altura mansa do mistério.
Não era fuga, nem espetáculo,
era apenas paz, um voo sem destino,
um repouso no ar como se Deus
fosse um espaço de respiro.
E houve também o quarto,
a lágrima como oração,
o coração ferido
pela incompreensão dos homens,
quando tudo parecia ruído e regra,
e o bem feito aos outros
mostrava não caber
nos relógios do mundo.
Chorei… e nesse choro
ardeu um calor antigo,
uma presença sem forma,
um amor tão seguro
que nenhuma voz exterior
o podia destruir.
Desde então compreendi!
Há verdades
que não se demonstram,
há luzes que não se explicam,
há instantes Cairos
em que a eternidade toca o tempo
e o tempo, por um segundo,
se torna vivência.
Sou racional, dizem.
E é verdade.
Mas a razão é apenas
uma lanterna na noite,
não o céu inteiro.
Trago em mim
uma sede que não quer posse,
uma fé que não exige provas,
um saber que não grita,
porque apenas chama.
Não busco o fim da estrada,
porque a estrada já é encontro.
Não busco a meta,
porque o caminho é casa.
E talvez seja isto
o grande segredo:
a verdade não é troféu,
é companhia.
Ela acontece
quando o coração se torna simples,
quando o amor é mais real
do que a dúvida,
quando até a ausência
tem perfume de presença.
Ciente da minha pouquidade
de meu ser terra em terra sagrada
ando à procura,
não para agarrar,
mas para ser tocado.
E no fundo, arraigado,
caminho assim, caminhamos todos
como quem atravessa a vida
com uma pequena chama na mão,
sabendo que o vento existe,
mas também existe uma luz
que nenhum vento apaga.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo