BUROCRACIA DA EXISTÊNCIA

Há quem só veja números, prazos vencidos,
E chame “achaques” aos anos vividos.
Querem as ruas limpas de folhas e de história,
A velhice enclausurada, cinzenta, sem glória.
Sonham com botões de silêncio programado,
No corpo do outro, já por eles assinado.

O Homem, não é coisa, não é número, nem é prazo
Não é processo em pasta de arquivo.
Nem o Incómodo, o Frágil, a Moléstia
Podem ser anexos que atrasam o sistema,
Como quer a branda política da peste
Que higieniza o humano à força de dilema.

Mas a Vida, essa árvore de raiz profunda,
Não cabe nos seus gráficos de segunda.
Arde em febre, em paixão, em ira contida,
Luta corpo e alma, numa última guarida.
E mesmo o tronco fendido, de casca gretada,
Guarda mais humanidade que a sua jornada.

Por isso, escritores, levantem o punho e a pena,
Uma defende a alma, a outra sustém a arena.
Contra a lógica gelada do descarte humano,
Seja o verso um murro, seja o murro um desengano.
Lançai estrofes com fervor e espanto:
Aqui jaz a vossa frieza, oh, gente!
Sobre o calor do nosso sacro canto!”
António CD Justo

Pegadas do Tempo

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

4 comentários em “BUROCRACIA DA EXISTÊNCIA”

  1. Nasci num mundo triste ! E a tristeza não morreu…. Viver com esperança é caminhar neste mundo tão escuro, e dificil… Porque duvidar nos planos de Deus,… e menos nos homens do mundo….Não foi para este, mundo de guerras e conflitos ,que Deus nos Criou . Aqui nos mostra nas suas palavras Senhor António , em apelo em espanto… a frieza dos homens poderosos,… subestituir Deus , por os seus deuses e loucos pelo poder . Há um grito a Deus, de fé … já dei tantos gritos .. nos silêcios … de socorro de aflição os meus irmãos , e crianças a morrerem na guerra todos os dias… e os mandatários sem luz, sem humanidade fazem, a guerra , atorto , e a direito .Senhor ,não deixes ir, o barco ao fundo, não nos deixes sózinhos – mesmo que não merecermos – cremos ver-te no que sofre salva-nos, Senhor ! Que perecemos ….dia a dia … perdão ….Ai tanta maldade neste mundo … Socorre-nos sem demora ó Deus Pai de amor…

  2. Com este poema me arrasaste… de espanto, com este salmo ao homem, à vida sagrada pisada.
    No combate à morte lucrada, comprada, vendida… também sou soldado. Nesta área sou incompetente, mas senti um forte sabor a Pessoa.
    Vou terminar a homilia de hoje com ele, com a tua licença posticipada. Grande abraço agradecido

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