O TEMPO APRENDEU O MEU NOME

O tempo não mora nos relógios.
Habita em me-mim-migo

Chega sem bater,
senta-se no coração
e aprende devagar
o ritmo do meu sangue
a suster a ânsia de viver.

Há dias que passam por mim
como água sem sede,
e outros que ficam
como ferro quente na memória.
Não é a duração que decide,
mas sim o sentido.

O tempo ama-me quando o escuto.
Fala na brisa que inclina as árvores,
no mar que pensa em voz alta,
na noite que me despe do ruído
para me devolver inteiro.

Quando amo,
o tempo adensa.
Não mais corre, enlaça.
Faz-se carne, no abraço,
pausa em que o instante
desperta eterno.

Os que passaram por mim
não foram embora,
mudaram apenas de morada.
Vivem agora no espaço interior
onde a saudade não é ferida,
mas profundidade.

Escrever é recolher esse tempo
antes que se perca.
Não para o fixar,
mas para o deixar respirar
no papel como respira em mim.

Sou argila deste tempo
que me modela e trespassa.
Sou seu curso e sua margem.
Até que, inesperado,
seu sopro em meu ouvido
soletra a sílaba primeira.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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