OS NAUFRAGADOS DA FESTA

Houve festa de cravo e madrugada,
estandartes rasgando o azul da idade,
disseram que o vento novo era a liberdade
e a história, enfim, estava inaugurada.

Mas em docas cegas, longe da alvorada,
outro barco dobrava a enseada torta,
não trazia ouro, trazia uma porta
fechada sobre o sol, e uma despedida.

Na memória, não vinham mapas, só a ferida:
fotografias a apodrecer no sal de outros céus,
o sotaque de Luanda enterrado entre os dentes e os adeuses
como moeda posta sob a língua dos que partem para não voltar.

A pátria não é terra, é cicatriz mal fechada,
nó de carne e silêncio que a chuva de Lisboa reabre,
cosidos às pressas por mãos que não sabiam
que estavam a coser um sujeito ao vazio.

E o exílio, ninguém o disse pelo nome.
Retornados trouxemos as mãos e deixámos a sombra.
E foi a sombra que ficou do outro lado do mar
a fazer os gestos que já não sabemos fazer.

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
como pão e distribuem guerra e fome.

Nós éramos o estilhaço que sobrou do banquete,
o espelho devolvido à sala depois da festa:
nele, a face que não querem ver,
a descolonização a sangrar no reverso da conquista,
o império dissolvido como sal na maré,
a madrugada devorando o que restava de nós.

Chamaram-nos sombras,
o estorvo na paisagem que queriam limpa,
a testemunha incómoda da pressa com que se apagou
tudo o que havia, mal ou bem plantado,
nas mãos de outros, noutra margem,
noutra imagem turva ou límpida, mas alheia.

Éramos Ícaro depois da queda,
nem o sol nos pertencia, nem o mar nos queria.
Retornados, palavra de gelo na boca quente de Abril.

E o Fado, esse não fez a revolução.
Apenas sangrou na guitarra como velho profeta,
não é revolta, é mágoa que atravessa o segredo,
rio subterrâneo que nunca seca, nunca grita,
apenas corre fundo, fundo, até ao mar.

Portugal por que lhes cortas o coração?

Pergunta sem resposta, pedra atirada ao poço,
voz que o eco devolve mais funda e mais sozinha.

Somos os náufragos da festa que não nos convidou,
filhos do império que o império renegou,
e carregamos, como Sísifo carrega a pedra,
a memória de uma terra que o mar não apagou.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

Nota:

As ideias que fluem nesta poesia vivi-as também na altura do PREC  ao observar  que começavam a chegar os “Retornados” a Portugal cerca de 500 a 700 mil cidadãos portugueses vindos das ex-colónias africanas 1974 e 1976, no período do PREC, em consequência de uma descolonização atabalhoada porque marcada pela ideologia. O fim do império em 1975 provoca dores de identidade nos que estão e nos que chegam (de Angola, Moçambique e Guiné).

Os retornados foram a memória que o regime queria esquecer; eram o rosto incómodo de um império que a ideologia apressada dissolveu sem olhar a quem ficava pelo caminho. Assim tanto os retornados tal como os cidadãos residentes sofreram um embate de diferentes mentalidades e ideários, o que deixava questões importantes à identidade e à memória coletiva nacionais.

As narrativas sobre o colonialismo português diferirão segundo a perspetiva de uma esquerda leviana e apressada e a perspetiva conservadora lenta. A verdadeira visão certamente se terá de colocar criticamente entre as duas tentativas de narrativa.

De notar, apesar de tudo o mérito e o esforço de um país pequeno com 10 milhos de habitantes para receber tanto retornado. A amargura para muito português era a de verificar que os Africanos deixavam de sofrer sob o colonialismo português para passarem a sofrer sob o colonialismo soviético e estadunidense. Uma ideologia que dividia o país no sentido da geopolítica servia as grandes potências contra os interesses das pequenas nações…

©  António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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