PRESIDENCIAIS NA DIÁSPORA PORTUGUESA

Quando a distância ajuda a ver melhor

A democracia é celebrada enquanto repete o discurso do poder;
quando pensa por conta própria, passa a ser tratada como um erro de sistema.

O candidato mais votado no estrangeiro foi André Ventura (Chega), com 40,93%, seguido de António José Seguro (PS) com 23,69 % . (1)

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais na diáspora dizem mais do que aquilo que os números, por si só, parecem anunciar. Vistos com alguma distância, essa que a emigração ensina, revelam um eleitorado menos permeável aos consensos fabricados e às coreografias habituais do poder.

Talvez por viverem fora do ambiente político-mediático nacional, talvez por lidarem diariamente com outras realidades e outros sistemas, muitos emigrantes parecem continuar a votar com a cabeça própria. Não por rebeldia gratuita, mas por aprendizagem: depois de décadas de governos e promessas, muitos perceberam que votar ciclicamente nos representantes do mesmo sistema se tornou, muitas vezes, uma forma elegante de abstenção disfarçada.

Curiosamente, isto acontece apesar de, em muitos países de acolhimento, os meios de comunicação social, frequentemente apoiados por verbas públicas, se alinharem de forma pouco discreta com uma determinada visão política. Ainda assim, os emigrantes não parecem muito impressionados. Talvez porque quem emigra aprende cedo a desconfiar das verdades embaladas em papel de presente.

O que já surpreende menos é a reação que se segue: quando o voto não coincide com as preferências dos instalados, rapidamente surgem rótulos. Antidemocratas, populistas, extremistas, perigosos. A democracia é exaltada, desde que produza os resultados certos. Quando não produz, o problema deixa de ser o sistema e passa a ser o eleitor.

É particularmente triste ver este discurso reproduzido dentro da própria emigração, como se houvesse emigrantes de primeira e de segunda categoria, dependendo do boletim de voto. A pluralidade, tão celebrada nos discursos, torna-se incómoda quando ganha forma concreta.

Os números são claros: André Ventura foi o candidato mais votado no conjunto do estrangeiro, enquanto António José Seguro venceu em vários países europeus e africanos. Há diversidade de escolhas, geografias políticas distintas e até níveis de abstenção que convidam a uma reflexão séria, como em França, onde apenas cerca de 5% dos recenseados votaram. Tudo isto mereceria debate sereno. Em vez disso, prefere-se o ruído.

Talvez porque o ruído seja mais confortável do que escutar uma voz que não pede licença. A voz do povo, quando não repete o refrão habitual, passa a ser tratada como dissonância. Mas a democracia não é um coro afinado: é, por natureza, polifónica e às vezes desafinada.

Como escrevi noutros versos, fomos durante muito tempo alunos de um tom único, repetidores de palavras gastas. Talvez a diáspora, por estar fora da sala, tenha começado a ouvir o silêncio entre as frases.

Mais espaço para a voz do povo, portanto, mesmo quando ela incomoda e menos barulho por parte de quem confunde poder com razão e consenso com virtude.

É sabido que a distância do poder ensina aquilo que a proximidade costuma apagar: pensar não é desobedecer.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) https://www.presidenciais2026.mai.gov.pt/resultados/estrangeiro

Na Alemanha Seguro (PS) recebeu 36,16 % (1.443 votos) e Ventura (CHEGA) 22,25 % (888 votos).

Na França 60% dos eleitores votaram no candidato André Ventura (CHEGA) (em França  houve 11.000 votantes dos 429.000 recenseados; 95% não votaram)!

António José Seguro venceu em 13 países europeus: Áustria (43,75%), Bélgica (38,93%), Bulgária (28%), Chéquia (39,08%), Dinamarca (41,33%), Finlândia (46,38%), Grécia (36,67%), Itália (47,29%), Noruega (39,04%), Reino Unido (33,38%), Suécia (46,38%), Turquia (54,55%) e Países Baixos (38,08%).

André Ventura venceu em vários pontos do continente. Andorra recolheu 70,25% dos votos.Vence também em França (60,46%, com mais quatro mil votos do que Seguro), Luxemburgo (42,53%), Sérvia (33,33%) e Suíça (63,46%).

Em África, António José Seguro vence em Cabo Verde (56,32%), Guiné-Bissau (41,38%), Quénia (33,33%) e São Tomé e Principe (53,33%).

André Ventura lidera na África do Sul, com 82,46% e uma vantagem de 967 votos face a Seguro. Vence ainda na República Democrática do Congo (80%), Moçambique (30,19%), Namíbia (52,54%), Senegal (37,50%), Tunísia (55,56 %) e Zimbabué (63,16%).

No continente americano, André Ventura vence na Argentina (37,70%), no Brasil (48,81%), no Chile (27,69%), na Colômbia (26,47%), nos Estados Unidos (44,33%), no Canadá (61,22%) e na Venezuela (50,25%),

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

17 comentários em “PRESIDENCIAIS NA DIÁSPORA PORTUGUESA”

  1. A direita não aprendeu nada, deixou-se corromper!
    Não tem sabido o seu lugar, a sua responsabidade e sentido.
    Pelo contrário, a esquerda une-se, nem que seja por geringonças, sempre que a sua força ameaça quebrar e ou perder o poder.
    Esta eleição serve para demonstrar como sempre os mesmos, da esquerda e da direita, dividiram negociatas, favores e corrupção em toda a linha.
    Muito triste, que ao fim de meio século de promessas, o resultado seja o que vemos!
    Falar em debate plural, com esta prova, de que o regime, dito democrático, é apenas e tão só, para os mesmos, os que falam a mesma voz, é como vemos, pura utopia! Tudo está fechado àqueles que desafinam o discurso. Quem ousar entrar, não se livra de humilhação, perseguição, crítica e até silenciamento.
    Aqui chegados, o mais importante é mesmo romper com esse polvo que se estende e asfixia quem trabalha e que há anos, vê a sua vida, progresso e bem estar hipotecados.
    Esta é a hora dos portugueses se unirem e mudar a história, sob pena de deixarmos para os nossos netos e vindouros, um lugar perigoso de se habitar…

  2. Manuela Silva ,obrigado, o seu desalento é o diagnóstico: um sistema que se devorou a si próprio, confundindo poder com serviço. A verdadeira rutura não será entre esquerda e direita, mas entre quem alimenta o polvo e quem é sugado por ele. A união que pede é a dos que já não temem a humilhação, porque nada mais têm a perder senão as próprias correntes. Que assim seja.

  3. Plenamente de acordo.
    Ė isso que eu sinto mas que jamais conseguiria exprimir da forma tão inteligente e conhecedora do autor…!…
    Ninguém ė senhor e dono da democracia senão o povo. E ė na discussão, livre e plural, que está a sua essência.
    Apelidar de anti democrata, racista, xenófobo, fascista, e outros mimos, só porque se põe em causa o sistema corrupto existente há mais de 51 anos ė pura imbecilidade ou perversidade .

  4. Não gostei do debate que ontem ouvi ! Nem de um lado nem do outro ! As pessoas bem qualificadas, intiligentes fogem , para o estrangeiro, Aqui ficaram , agora os imigrantes , coitados sem era nem beira mal recebidos , com ordenados que o portuguêns regeita… Como os poderosos” sabem fazer a sua politica como são intiligentes a música já é decôr !!!! , Os imigrantes ainda são culpados … vieram procurar matar a fome —chamados assasinios !!! Tanta falta de humanidade tem este mundo !!! A voz do povo grita …. Porque nascemos ? Quem ousa entrar, não se livra de humilhação , perseguição com vozes de injustiça e palavras, e se unem uns aparando os seus interesses—outros fazem o mesmo … Enquanto não soubermos que todos somos gente irmãos do seu irmão . Vamo-nos unir como diz : Um Portugal para todos , e cada um assumir as suas obrigações e direitos cada um no seu lugar– com responsabilidade , nos valores humanos , porque somos gente,…. para melhorarmos tanto os que tem muito—- como os que menos têm ,para os que vierem hoje a justiça e o amor a paz, prevaleça , entre todos sem chamar nomes feios , A precisar de educação sermos educados. Com a palavra democracia — nos têem enganado e Bem Os ódios se exaltaram não da parte do povo ! Mas de quem já tem muito e mais quer ! E o povo parece assim já pensar !!!

  5. Conceição Azevedo, o seu comentário toca na ferida exposta de uma sociedade desiludida. É a voz daqueles que já não se revêem no teatro político, onde palavras como “democracia” e “debate” se esvaziaram de significado perante a realidade da fuga de talentos, da exploração do imigrante e da perpetuação de uma lógica de poder que esmaga a humanidade.
    A sua crítica mais pungente é esta: o sistema finge dialogar, mas está fechado. Unem-se os poderosos para manter os seus interesses, enquanto o povo, tanto o português como o imigrante, sofrem as consequências da mesma máquina. A sua pergunta, “Porque nascemos?” é o grito existencial contra esta engrenagem desumana.
    No entanto, no meio da denúncia, você semeia o único caminho possível: o reconhecimento de que “todos somos gente”. É aí que reside a verdadeira rutura. Não será através de novos ódios ou velhas divisões entre esquerda e direita, mas através de uma aliança fundamental entre todos os que são esmagados por um sistema que perdeu o rumo. A união que propõe não é partidária, mas humana. É a única que pode responder ao seu apelo por justiça, educação e paz.
    A sua voz não é apenas de protesto; é um apelo do povo sem voz para lembrar o que nos torna humanos, antes de sermos portugueses, imigrantes, poderosos ou povo. É um apelo para que a política seja, finalmente, um ato de fraternidade responsável. Obrigado pela sua intervenção pois nela expressa a voz do povo e a voz do povo, quando longe das ideologias, é a voz de Deus!

  6. O discurso do André Ventura não suscita dúvidas quanto às suas intenções. Ele e só ele e os seus seguidores mais afoitos, são os únicos culpados de serem colocados no patamar de fascistas, xenófobos, racistas, etc. Depois dos exemplos de Trump, e outros populistas bem próximos, não admira que as pessoas tenham duvidas quanto às suas intenções.

  7. Luís Azevedo-Coelho,o seu comentário aponta para uma parte do problema; o discurso de Ventura é a voz popular já desgastada e desiludida r a reação a ele é em grande parte feita de monossílabos e atribuição de “palavras feias” bem alimentadas pelos media em parte dependentes do sistema. O discurso que, voluntariamente, alimenta a divisão e o ressentimento é bilateral e naturalmente não pode depois escapar às consequências lógicas dos rótulos que atrai. O perigo maior, porém, não está apenas no populista que provoca, mas num sistema instalado nas estruturas do Estado e no terreno social fértil e adubado de desilusão que o faz crescer. Condenar o sintoma é necessário; tratar a doença que o gera é urgente. A democracia desgastada é o seu habitat natural.

  8. Domingos Barradas, concordo plenamente com o ponto essencial: a democracia vive do debate livre e o povo é o seu único soberano. Rotular de forma leviana quem critica o sistema é, de facto, uma tentativa perversa de silenciar o dissenso e esvaziar o pluralismo.
    No discurso público tem-se visto que há uma linha ténue e fundamental que se expressa na crítica ao sistema, o que é legítimo e necessário, e no discurso que ataca a dignidade fundamental de qualquer grupo humano que passaria a não ser crítica, mas a corroer os alicerces que permitem a uma sociedade democrática existir. De facto, a verdadeira defesa da democracia não está em proteger todos os discursos de consequências, mas em discernir, com rigor e honestidade, entre a crítica ao poder e o ataque aos próprios concidadãos. A liberdade de expressão é absoluta e a responsabilidade democrática é o seu contrapeso indispensável.

  9. Uma maioria da minoria que votou, representa apenas uma percentagem de 4 ou 5%. Seria altura do governo alterar a lei na emigração. Será que em Portugal votariam mais de 5%, se tivessem que percorrer dezenas ou centenas de quilómetros para votarem? É sabido que cerca de 50% dos portugueses que têm a Assembleia de voto a meia dúzia de metros de casa não votam. Ora os emigrantes para votarem têm que fazer, centenas de quilómetros. Eu, por exemplo as que estou de férias em Portugal, terei que fazer uma viagem de avião de mais de 2000 km e para além desta viagem de, outra de comboio ou de carro de, cerca de 250 km, 500 km na ida e volta.

  10. José Fratel , apontou para o ponto crucial das votações e ao desprezo a que os sucessivos governos têm votado os emigrantes. E depois ainda têm o descaramento de criticarem a reduzida percentagem de votos nas urnas. Os representantes dos partidos do arco do poder na diáspora ou têm andado a dormir na forma ou a olhar para os emigrantes de olhar vesgo e cínico.

  11. António Cunha Duarte Justo, lê os comentários que se seguem e pensa o que escreves..,
    Sobre a „formatação“ de que falas, já agora seria muito bom que não esquecesses o papel da igreja….

  12. Manuel Campos , geralmente penso e repenso o que escrevo. Nos comentários reajo mais ao espírito ambiental para o levar a ter outras perspectivas de pensamento em conta dado lógicas não se identificarem com a capacidade da razão. Quanto à Igreja constato que é um lugar comum de ataque de socialistas. Sempre que a trazem à baila é para a atacarem ignorando o bem que faz como se ela fosse um mal sistémico. Só não vejo nos mesmos críticos o mesmo fervor em trazer à memória a sua doutrina socialista e as suas fontes que se estendem das boas obras de Marx, Estaline, Mao, para me ficar por aqui. Mas da hipocrisia instalada vive bem um socialismo que se sabe aproveitar do voto católico.

  13. António Cunha Duarte Justo, fica informado que, antes de ser socialista democrático, com muita honra e convicção o digo, estudei teologia como tu, não negando que aprendi o suficiente para ajuizar e saber o que digo. Claro que tens uma opinião conservadora e diferente da minha. Mas não estarás a fazer aquilo de que me criticas?
    Não esqueci do chicote que Cristo utilizou para expulsar os vendilhões do templo. Precisamos dele novamente para quem quer agora dar cabo da Democracia! Ou não vês?

  14. Manuel Campos já que atacas pessoalmente eu respondo ad hominem! Eu não me limitei à teologia e andei por faculdades não só em Portugal. Como tu também andei pela escolas socialista sendo até delegado dos socialistas da alemanha, com outro colega e estado no congresso em que votamos Guterres para lider do partido. Porque vi e tive tempo para analizar bem o que se passava dentro do partido e das suas estruturas teria motivos e argumentaç1bo para não ser tão moderado na crítica ao partido. Uma pessoa anda sempre a aprender e no momento em que estaciona está a corresponder ao princípio de Peter. Quanto aos Vendilhões do Templo seria ousado dizer que Jesus deveria vir agora para expulsar um que questiona os donos da democracia. Se não fossem os vendilhões do templo do PS e do arco do poder seria desnecessário surgir alguém que conteste os favorecidos pelas elites partidárias e seus acólitos pretendendo tornar-se na voz do povo.

  15. Subscrevo. O meu texto no Contra-Cultura de que o meu estimado amigo também é articulista coincide em muitos aspetos com o seu. Estamos, creio eu, em larga sintonia

  16. António Cunha Duarte Justo pois, é isso mesmo que se espera de António José Seguro, que ajude a acabar com os malefícios da nossa sociedade, ( muito embora não governe ) mas com a sua ação e influência, ajude a mudar o que está mal. Com populismos da extrema direita ou esquerda, a história é mais que esclarecedora. Infelizmente, as pessoas são, muitas vezes, curtas de memória e por isso seguem essa cambada de falsos profetas. Todos os bem letrados/informados, sabem como isso acaba. Autocracias, cleptocracias e teocracias, nein, danke, já estamos fartos de ditaduras, Professor Justo. Abraço

  17. Luís Azevedo-Coelho , os malefícios da sociedade são da responsabilidade do arco do poder que nos governou e conduziu a sociedade à situação deplorável em que se encontra e em especial por iniciativas do PS. Agora que todos gritem “Aqui del-rei!” tornou-se numa barafunda que ajuda Portugal a continuar cada vez mais na mesma e com um discurso político de pensamento que só se equaciona na lógica do preto ou do branco)! Portugal vive socialmente confuso devido ao populismo de cima (do sistema) e ao populismo de baixo (do povo). O problema tornou-se tão complicado que hoje, as pessoas têm medo de se expressarm politicamente, porque até em ambientes familiares ou de amigos reina o medo de expressão porque as pessoas são qualificadas de pró ou de antisistema tal como acontecia na Alemanha socialista! Quem questionar o sistema é considerado anátema ou colocada fora dos muros, tal é o partidarismo que o nosso regime tem infundido na governnação e na sociedade. A História ensina-nos que nos que questionam os grupos dominantes é que a sociedade e a história avança. O resto é acomodação vivendo cada qual inclinado à sombra do seu tacho. Abraço.

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