O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

8 comentários em “O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA”

  1. A Quaresma não é tempo de tristeza ! Sou de tempo um pouco, muito atrazado ! Penso eu , lembro-me que havia um dia da Quaresma , que a minha Madrasta que dizia hoje não te podes pentiar. hoje o Senhor morreu .. O tempo era triste tudo era levado á tristeza e ignorância . Ainda bem que se aclariou um pouco.. um pouco mais de luz. e mais saber graças a Deus ! A Quaresma é tempo de dádiva e oferta a Deus . fazer a sua vontade — Um dar e receber , a graça de Deus em nós é de tudo o mais principal a ter , viver em gratidão gratos todo o dia , de manhã ao sol posto . OBRIGADA

  2. Conceição Azevedo, o seu comentário é um testemunho valioso e comovente. Muito obrigado por partilhar essa memória tão vívida da sua madrasta e desse tempo em que a Quaresma era vivida com um peso de “tristeza e ignorância”, como tão bem descreve. Essa imagem de “hoje não te podes pentear porque o Senhor morreu” é muito forte e revela como, por vezes, a mensagem central da fé se perdia em práticas exteriores que mais pareciam castigo do que caminho de conversão. Eram práticas próprias de aldeias que viviam ainda na Idade Média.
    A sua reflexão final é belíssima e toca no essencial. De facto, a Quaresma não é um tempo de tristeza, mas sim um tempo de “dádiva e oferta a Deus”, um “dar e receber” onde o principal é “a graça de Deus em nós”. Essa claridade e “mais saber” que menciona permitem-nos hoje compreender que o jejum, a oração e a esmola não são fins em si mesmos, mas instrumentos para nos abrirmos a essa graça e vivermos em gratidão constante, “de manhã ao sol posto”. Agradeço imenso a sua partilha, pois mostra exatamente essa evolução: de uma fé por vezes toldada pelo medo ou pela rotina, para uma fé iluminada pela gratidão e pelo amor, como Jesus ensinou. Que continuemos todos a caminhar nessa luz. Sabe, sou padre mas sem exercer mas nunca pensava que tivesse havido tais hábitos! (Desculpe se por vezes não respondo, porque tenho imensos e-mails a responder e isso impede-me de escrever outros artigos, mas aminha primazia é sempre para as pessoas!).

  3. Obrigada pelo seu maravilhoso texto ! Como diz : A Quaresma , no fundo , não é fuga nem moralismo mas sim um tempo para regressar a si mesmo,o que vai dentro… como vai a vida no sentido espiritual , as nossas conversas com Deus sempre perto, dentro de nós , e a nossa alma escuta . Fáz bem muita coisa fazer um dia sem comer , desintóxica-se o corpo e fáz bem á saúde . desanuvia-se a mente e purifica-se a alma , para caminhar, mais levemente , na senda de nós mesmos , possivelmente na sombra do nosso Deus que é misericordia todo o dia . UM BEM HAJA ! BOA NOITE EM FAMILIA

  4. Que linda e tão PRIMOROSA REFLEXÃO!
    Une uma escrita envolvente, a uma explicação impecável, sobre o que é a quaresma. AMEI!
    Eu própria fiquei motivada e encontrei sentido para a viver…
    MUITO OBRIGADA

  5. De facto, todos deveríamos atentar no verdadeiro significado da Quaresma e na subsequente aprendizagem do silêncio como pausa salutar face a todos estes “ruídos” frenéticos dos tempos actuais. Um tema largamente desenvolvido num bem definido fio condutor e, como sempre, numa linguagem clara e acessível. Quem não se sentirá um/a previlegiado/ face a esta oportunidade de aprender continuamente com a sua escrita, de tão alto valor pedagógico? Grata, de novo!

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