Não somos dois.
Somos o lugar
onde dois aprendem a cessar
para se encontrarem no nós.
Em nós,
a masculinidade não domina
nem a feminilidade se recolhe,
apenas se escutam e palpitam.
Trocam o fogo e a água
sem se anularem.
Trazemos cada um
vozes antigas no peito,
o gesto que avança
e o que acolhe,
a lâmina que decide
e a mão que permanece.
No nós,
essas vozes desaprendem o medo
e tornam-se respiração comum.
Não nos unimos
para fugir de nós mesmos,
mas para nos transcender.
O eu chega até onde pode,
depois abre-se e chama-se nós.
Aqui,
o desejo não é posse,
mas sim, afinação.
Dois ritmos a procurar
uma mesma música
sem partitura.
Somos o instante
em que a diferença
não separa
nem confunde,
mas gera ressonância
e cria profundidade.
Quando dizemos nós,
o tempo abranda,
como se aprendesse
uma nova gramática.
O futuro não é promessa,
é presença em estado nascente.
Não há vencedor nem vencido,
ativo nem passivo,
céu nem terra,
há aliança.
E nessa aliança
o masculino encontra repouso,
o feminino encontra força,
e ambos se reconhecem
como linguagem de um só sentido.
Somos nós
quando o eu já não teme perder-se
e descobre que só assim se encontra.
(Como espelho da relação da Trindade)
António CD Justo
Pegadas do Tempo