Não busco a verdade como quem prende,
mas como quem caminha sem chegar.
A luz não é um prémio que se entende:
é companhia ao longo do olhar.
Há um silêncio acima do pensamento,
um céu interior sem explicação;
às vezes sinto, leve, o firmamento
descer inteiro ao centro do coração.
Não é milagre, nem é fantasia,
é só o real abrindo outra dimensão.
Um instante basta e a alma se alia
ao que não cabe em forma ou definição.
Sou feito de razão, mas não me fecho:
a mente é porta, não é o lugar.
O mistério respira no entremeio
do que eu consigo e não sei nomear.
Procuro sem vontade de possuir,
porque a resposta é sempre movimento.
A vida é mais do que o simples existir:
é ser pergunta dentro do momento.
E quando a dor me corta e me desfaz,
descubro uma presença que não cai,
não é certeza, é uma funda paz,
um chão invisível que me atrai.
Assim caminho: não para alcançar,
mas para ser, em busca, revelado.
A verdade não é algo a conquistar:
é o próprio passo, lúcido e amado.
António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do tempo