GUERRA DO ESTADO CONTRA O PRÓPRIO POVO NO IRÃO

Leitura antropológica sobre o Islão, a revolta silenciada, a violência sacralizada e o abandono internacional

Não é uma crise, é um sistema cruel sem misericórdia

Nenhum país é totalmente livre. Mas o Irão destaca-se como um dos regimes mais fechados, mais cruéis e mais impermeáveis à compaixão humana. O que ali se passa não é um “excesso” do poder, nem uma “deriva autoritária”: é a consequência lógica de um sistema teocrático implacável levado à letra e às últimas consequências; em vez de governar, comanda, vigia, pune e sacrifica

A República Islâmica do Irão não governa apesar do Islão, governa por causa dele. E é precisamente essa verdade que muitos analistas, diplomatas e políticos no Ocidente.. evitam enfrentar.

Os Ayatollahs e a lógica interna da teocracia islâmica

Os ayatollahs (“sinais de Deus”), não são apenas líderes religiosos. São detentores de uma autoridade político-religiosa que se apresenta como transcendente, o que a torna, por definição, incontestável. Na antropologia do poder islâmico, esta é uma das formas mais eficazes de dominação. Nele obedecer deixa de ser uma escolha política e passa a ser um dever sagrado.

O Líder Supremo, Ali Khamenei, é hoje internacionalmente condenado pela repressão brutal das manifestações e pelo esmagamento sistemático de qualquer dissidência. Mas o regime não vê nisso um problema. Pelo contrário, a repressão é interpretada como fidelidade à missão divina. O indivíduo não existe só vale a Ummah.

No Islão político xiita, tal como institucionalizado no Irão, o conflito não é um acidente, é um método de governo.

Do ponto de vista antropológico, uma das características centrais do Islão é a negação do indivíduo como sujeito moral autónomo. A Constituição iraniana, por ser islâmica, não pode ser democrática no sentido moderno do termo. A soberania não pertence ao povo, mas a Deus e é administrada pelos seus intérpretes.

O Islão não reconhece o “povo” como conjunto de cidadãos, mas apenas a Ummah, a comunidade dos fiéis. Fora dela, não há dignidade plena intrínseca. Dentro dela, a dignidade é condicional: depende da obediência. O Islão de Maomé reconhece o sistema e a religião, mas não o povo enquanto conjunto de indivíduos livres.

Esta visão permite justificar a violência, a tortura, a execução e a humilhação pública como atos legítimos, até sagrados. É a adesão religiosa que confere estatuto moral ao indivíduo.

Violência como virtude moral

Quando a dignidade humana não é intrínseca ao ser humano, a violência torna-se moralmente administrável. Tortura, prisão arbitrária, execuções públicas e perseguições não são vistas como crimes, mas como instrumentos legítimos de purificação social.

O sistema islâmico necessita de um inimigo para existir. Antropologicamente, trata-se de uma estrutura dualista: o mundo divide-se entre o território do Islão e o território do inimigo. Esta lógica cria um estado de guerra permanente, externa e interna.

Hoje, no Irão, essa guerra é travada contra o próprio povo. Mas, na narrativa do regime, os manifestantes não são cidadãos,  são “terroristas”, agentes de Israel ou dos Estados Unidos, encarnações do “reino do diabo”.

O culto do sacrifício e a banalização da morte

Os representantes do regime não governam para a prosperidade ou felicidade do povo. Governam para manter a pureza do sistema. E, nesse quadro, o sacrifício é sempre uma vitória (Os pobres “mártires” que lutam pelo sistema têm o consolo de saber 70 virgens à sua espera!).

Mesmo que o regime perca politicamente, aos seus próprios olhos ele ganha espiritualmente, porque “cumpriu a vontade divina”. A morte de jovens manifestantes é envolvida numa retórica escatológica: o martírio é compensado no além e justifica todo o sacrifício em favor do sistema.

Esta lógica, religiosa permite justificar o inaceitável. A vida terrena é relativizada; o sofrimento torna-se um meio.

No fundo, o regime opera segundo um princípio brutalmente simples: O que é lei é poder. O que é poder é válido.

Esquece-se, porém, uma verdade histórica fundamental que o mundo nunca avançou graças aos sistemas, mas graças aos seus críticos.

O terror quotidiano é um facto

A violência estatal das noites de 8 e 9 de janeiro deixou feridas profundas na população iraniana. A organização de direitos humanos HRANA fala em pelo menos 5.700 mortos confirmados entre os manifestantes. Outras fontes apontam para 20.000 ou mais vítimas.ã

Feridos são retirados de hospitais e levados diretamente para prisões. As execuções continuam. O Irão tem cerca de 90 milhões de habitantes, todos reféns de um sistema que os vê como descartáveis.

O silêncio cúmplice do Ocidente

O Ocidente não estava preparado para esta revolta. E muitos iranianos sentem-se hoje traídos. Esperavam apoio, pressão real, consequências políticas. Em troca receberam comunicados e hesitações. (Na realidade o ocidente vive de contradições na medida em que já fora cúmplice ao apoiar a revolução islâmica no Irão).

Na Europa, uma parte significativa da esquerda continua a relativizar o regime iraniano por este se apresentar como anticapitalista e antiamericano. Trata-se de uma leitura ideológica que sacrifica pessoas reais em nome de abstrações geopolíticas e de cumplicidades por semelhança dos sistemas na concepção do ser humano.

Quando o conflito não é “sistema contra sistema”, mas sistema contra povo, o povo não entra nas contas diplomáticas.

Intervenção externa como solução ou mera ilusão?

A possibilidade de uma intervenção militar dos EUA paira no ar. A frota americana aproxima-se. Israel teme uma escalada regional devastadora. Donald Trump receia que uma guerra prolongada poderia destruir o equilíbrio já frágil do Médio Oriente e ele é mais um apologista de Deal e de intervenções rápidas!

Mas uma verdade permanece desconfortável: invocar o direito internacional, neste contexto, serve muitas vezes para proteger regimes e abandonar populações.

O Islão político não é apenas um governo, é uma revolução enraizada na identidade dos seus fiéis. Como se viu no Afeganistão, o poder militar pode derrubar estruturas, mas não elimina mentalidades. E, ainda assim, a inação tem um custo humano imediato.

O filho exilado do Xá da Pérsia, Reza Pahlavi, é desacreditado por setores da esquerda, apesar de representar parte dos iranianos no país e grande parte dos oito milhões de iranianos na diáspora, sendo para muitos um símbolo de esperança alternativa.

Um padrão que se repete no mundo islâmico

O Irão não é uma exceção, é um dado sistémico embora muitas vezes não declarado. Em vários países islâmicos observa-se a expulsão progressiva de outras culturas e religiões da esfera pública. A conversão da Hagia Sophia em mesquita, e a discriminação legal dos não muçulmanos, na Turquia, é um símbolo claro dessa tendência.

Judeus, cristãos e não crentes são empurrados para a invisibilidade. O ódio e a exclusão estão inscritos em textos e constituições. Reduzir isto a “casos isolados” é uma forma de negação política em voga nos governantes europeus e no jornalismo que os assiste.

Um julgamento histórico em curso

No Irão, os preços disparam, o ódio do regime intensifica-se e a repressão endurece. Tudo é contra o povo. Muitos esperam ajuda externa. Se ela não vier agora, isso ficará inscrito na história, não como neutralidade, mas como cinismo e abandono.

A questão final não é apenas se a República Islâmica cairá.
É se o mundo terá coragem de reconhecer que há sistemas incompatíveis com a dignidade humana e que enfrentá-los exige mais do que palavras cautelosas.

O grito do Irão é um teste decisivo à nossa consciência coletiva! A inação internacional perante a repressão brutal não será um mero erro político, mas uma falha moral. A questão final é se o mundo continuará a assistir em silêncio enquanto um sistema sacrifica o seu povo em nome de Deus.

 

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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