Não chega a luta socialista,
nem a capitalista de gravata bem passada.
Esquerda, direita, duas muletas a discutir
qual delas manca com mais dignidade.
O povo? Esse está ocupado!
Tem contas para pagar, sopas para aquecer
e uma democracia embrulhada em jornal
que serve mais para tapar vidros partidos
do que para informar.
O povo queria uma luta maior:
a luta humanista.
Mas isso não rende cartazes,
não cabe em gravações
nem dá emprego a comentadores residentes.
Humanismo não tem patrocinador.
E misericórdia não passa em horário nobre.
As elites, essas, lutam com fervor,
pelos seus interesses, como é seu natural.
Chamam-lhe ideologia
para não dizer ambição com ressaca.
Quando falham, fundam um painel de especialistas
para explicar por que o povo
não percebe a sua genialidade.
O povo simples continua na primeira classe,
sentado direitinho,
à espera que o professor chegue.
Mas o professor foi para a política,
o quadro está ocupado por siglas
e a lição do dia chama-se
“aprenda a desenrascar-se”.
Fala-se pouco de humanidade
porque humanidade não dá likes.
Fala-se muito de filtros,
filtros democráticos, filtros editoriais,
filtros morais com dentes à mostra.
Censura sorridente:
“Não é mordaça, é curadoria.”
Queríamos um Portugal real,
mas deram-nos figurantes.
Vedetas que se passeiam a si mesmas,
máscaras de interesses organizados,
selfies com causas descartáveis
e humanidade fora de enquadramento.
Há cristos abandonados nas esquinas,
com reformas de vergonha,
corpos cansados depois de décadas de trabalho.
Mas a política veste casacos grossos:
o frio da indiferença
é o seu melhor agasalho.
Saúde, justiça, escola,
assuntos menores, dizem.
Não dão guerra suficiente.
E sem guerra,
como justificar trincheiras partidárias
num país já em ruínas?
Chegam as eleições
e vale tudo:
rótulos voam como confettis,
fascista, populista, estalinista,
extremo isto, extremo aquilo.
O problema não é o nome da coleira,
é termos criado tantos cães de guarda
e tão poucos cidadãos.
Abril prometeu liberdade,
mas especializou-se em dependência.
Formou partidários, não cidadãos.
E quando alguém cheira a povo,
esse perfume perigoso,
soa o alarme nas redações respeitáveis.
Difama-se por prevenção.
Nunca se sabe:
um desmancha-prazeres
podia entrar nos corredores do poder
e perguntar coisas inconvenientes.
Como: “E o humanismo, ficou onde?”
No fim do espetáculo,
o povo bate palmas devagar.
Não por entusiasmo. Mas por hábito.
E sai para o frio,
enquanto os artistas discutem nos bastidores
quem ganhou a luta.
A luta continua, dizem.
Mas talvez, porventura, esteja na hora
de parar de lutar e começar a tratar
uns dos outros como gente.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo