SOU LIVRE DENTRO DA PRISÃO

A semente original habita o vaso das circunstâncias;
não sou totalmente livre, nem apenas prisão

Sou livre dentro de mim.
Não sei ao certo, às vezes,
onde começa o vento que em mim trago
e onde terminam os que me empurram.

Cuidado com a liberdade que se vende
na praça pública, essa moeda falsa
onde negociam máscaras sem rosto
e trocam almas por um punhado de sons.

Sou feito de raízes que descem
ao fundo da floresta virgem:
ali habita o “eu-tu-nós”,
árvore divina, antiga e sem nome.

Mas sopram ventos da polis,
secam a terra, trazem fogo sem água,
gritam ofertas de liberdade
enquanto roubam a minha voz.

Há muitos na praça
transformados em negociantes de vidas,
carregando chaves que nunca abriram
seus próprios cadeados.

E há carrascos vestidos de inocência
que sacrificam o mundo
por uma vidinha estreita e aplaudida.

No centro de mim,
às vezes longe, às vezes perto
escuto o mar.

É um mar que não está nos programas,
um abanador de brasas adormecidas,
um salitre que me lembra:

A verdadeira liberdade
não se compra, não se grita,
não se deixa prender pelos contextos,
pois até nas grades respira,
até no silêncio dança,
até na escuridão se faz aurora.

Sou livre dentro da prisão
porque trago o oceano em mim
e as estrelas que não cabem
em nenhuma bandeira.

O meu reino não tem fronteiras,
a minha lei é o pulsar contínuo
daquela floresta e daquele mar,
e a minha pátria
é este lugar sagrado
onde o “eu” e o “tu”
ainda se reconhecem
antes que o mundo os separe
e lhes dê nomes de inimigos.

Trago em mim um sol de ser original
No berço das roupas que herdei.
Desenho, na mão que é meu abrigo,
O voo que as grades não prendem.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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