Quem cede o terreno das ideias, entrega o mundo aos que não pensam
Durante demasiado tempo, os intelectuais aceitaram um lugar confortável: o da sala de aula, o do livro especializado, o do seminário fechado. É um lugar respeitável, sem dúvida, mas insuficiente. Num tempo de inquietação social profunda, de polarização política e de discursos simplistas que dominam a esfera pública e um discurso político-social por vezes primitivo, a ausência dos intelectuais do debate vivo tornou-se um problema democrático.
Todas as profissões contribuem directamente para a sociedade. Trabalhadores, técnicos, empregados e profissionais de todas as áreas colocam diariamente o seu saber ao serviço do colectivo. Qual é a razão por que os intelectuais, filósofos, sociólogos, pensadores, académicos, se resignaram a ver o seu conhecimento filtrado pelas elites políticas e económicas, que o instrumentalizam de acordo com interesses próprios?
A função histórica do intelectual foi sempre a de clarificar o pensamento, de desmontar falsos dilemas, de resistir à manipulação ideológica. Hoje, porém, o espaço público está saturado de ruído emocional e cada vez mais dominado pelos megafones da confusão. A política deixou de se orientar pela razão e passou a disputar audiências através do medo, da indignação e da moralização simplista. Tanto à esquerda como à direita, triunfam os apelos emocionais, porque rendem mais votos do que a clareza, ficando o povo cada vez mais na mesma.
A democracia paga um preço elevado por isso. Reduzida a uma aritmética grosseira, a maioria decide, a minoria obedece, perde a sua essência mais profunda: a democracia é, antes de tudo, cooperação, deliberação, reconhecimento da pluralidade. Não é um ponto de vista imposto, mas um processo partilhado.
Também os activistas precisam de reaprender esta lição. A militância que se limita à afirmação de pertença, à rotulação ou à indignação permanente empobrece o espaço público. Sem reflexão, sem teoria, sem capacidade de escuta, o activismo transforma-se em mais um ruído incómodo na praça mediática.
As redes sociais revelam, paradoxalmente, que existe interesse por debates mais profundos. Muitos cidadãos, mesmo aqueles jovens focados na carreira, no sucesso económico ou na realização pessoal, seguem discursos que escapam ao maniqueísmo dominante. O problema não é a falta de público; é a falta de mediadores intelectuais dispostos a sair da sua bolha. Naturalmente a tal decisão não é coisa fácil devido à exposição a ataques baixos.
Nos estúdios televisivos, a política tornou-se espectáculo com bastidores de cores narcisistas. Políticos hiper-activistas vivem da superfície e, como consequência, superficializam o público. A classe média, outrora espaço de reflexão e mediação social, adopta cada vez mais formas de comunicação rudimentares, empobrecendo o debate democrático, ao submeter-se ao espírito do tempo que nivela atitudes e hábitos pelo padrão mais baixo.
Onde estão os filósofos, os pensadores, os intelectuais capazes de criar pensamento claro num mundo cada vez mais nebuloso? A situação é tão doentia e confusa que seria de perguntar: estão ao serviço de quem?
O abandono da arena das ideias é uma capitulação silenciosa aos que as distorcem. A clareza pensante tem o dever de ocupar o espaço público, ou será tragada pela névoa do ruído e pelas sombras da ação cega.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Não me parece! Conheço, leio e ouço intelectuais que, dia a dia, lutam pela LIBERDADE e por uma sociedade justa. Alguns já os tenho encontrado em manifestações! Assim, não é justo generalizar.
Ilidio Lacerda , claro, generalizaçães são sempre falsificações. Entretanto não me é dado ver intelectuais portugueses com lugar de relevo na TV e que falem no âmbito da razão e não sobretudo personalidades de lógicas partidárias. Fala-se demasiadamente de esquerda e de direita e muito pouco de humanidade e de racionalidade que dilua a nuvem da emocionalidade que envolve o país. Está em falta na discussão pública um discurso intelectual empenhada em formar cidadãos e não se empenhar tanto no fomento de partidários. Estes são precisos mas primeiramente urge o empenho na formação do cidadão com uma mente crítica para lá de interesses organizados. Esta é uma falha do nosso regime que continua na tradição anterior à revolução.
Os intelectuais de esquerda são ignorados pelos meios da comunicação social, ppropositadamente. Grave é o facto de os canais televisivos públicos não convidarem intelectuais de esquerda.
Ilidio Lacerda , em Portugal não vejo muitos intelectuais à vista quer da esquerda quer da direita, nem sequer meio ambiente propício a discussões intelectuais: O que tenho observado é historiadores e outros doutras disciplinas com narrativas encostadas a partidos e isso vai contra os principais critérios da ciência. Quanto aos Media, de uma maneira geral, falta-lhes também espinha dorsal para serem independentes porque isso suporia existência por conta própria sem necessidade dos auxílios estatais que vêm dos contribuintes.