A ALEMANHA PARTIDA E PARTIDÁRIA

A rutura de setembro de 2026 deixará vestígios fortes na geografia político-cultural

As eleições regionais alemãs de setembro de 2026 deixaram de ser um simples teste de meio mandato para se tornarem no retrato de uma Alemanha partida, cansada e ideologicamente inquieta. Entre Berlim, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxónia-Anhalt, o velho arco de poder formado pela CDU, SPD, Verdes e liberais aparece em decomposição, enquanto os extremos, à direita e à esquerda, se afirmam como intérpretes do descontentamento e de uma nova política. O resultado é simultaneamente um sintoma e um aviso: a democracia alemã já não se deixa explicar apenas pelo centro, porque o centro perdeu a capacidade de mobilizar, convencer e proteger a confiança dos eleitores.

Em Berlim, o Die Linke alcançou uma vitória histórica com 25,7% dos votos, tornando-se a principal força política da Cidade-Estado. A CDU, que liderava o governo local, caiu para cerca de 19% a 20%, e a AfD subiu para 16,2%. O dado mais simbólico é a possibilidade de Elif Eralp, uma jovem política de origem turca, vir a assumir a presidência da Câmara de Berlim, procurando formar governo com o SPD e os Verdes. Isso representa uma transformação profunda porque a esquerda radical deixa de ser apenas protesto e passa a reivindicar poder executivo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o cenário inverte-se. A AfD venceu com 37,9% a 38,3% dos votos, superando por margem estreita o SPD, que ficou pelos 35,5%. A CDU sofreu uma derrota histórica, caindo para 4,9%, abaixo da cláusula de barreira de 5%, ficando sem representação parlamentar. Na Saxónia-Anhalt, a AfD consolidou a sua subida com 43,8%, legitimando-se nas urnas para reivindicar o governo, embora o chamado cordão sanitário continue a tentar impedi-lo.

O que está em causa não é apenas uma mudança de governos regionais. É uma mudança de mentalidades, de geografia eleitoral e de legitimidade democrática. Durante décadas, a Alemanha organizou-se em torno de partidos que se apresentavam como garantes da estabilidade. Hoje, esses partidos estão a ser castigados pela insatisfação social, pela perda de poder de compra, pela insegurança energética, pela imigração mal gerida e malquerida e por uma elite política que parece falar mais para Bruxelas, para os jornais e para si própria do que para os cidadãos. A coligação conservadora-social-democrata de Friedrich Merz encontra-se grávida de descontentamento, mas não parece capaz de parir um substituto credível. Merz, antigo lobista e homem de Bruxelas, sabe apreciar o sabor do poder; a sua permanência como chanceler só agravará os danos no próprio partido e no país. A CDU precisa de renovação, não de teimosia.

Ao mesmo tempo, seria intelectualmente desonesto tratar os extremos como se fossem simétricos em tudo. Não são. A extrema-direita da AfD carrega consigo riscos históricos, constitucionais e civilizacionais que não podem ser minimizados. Mas também não se pode fingir que a extrema-esquerda, quando governa ou disputa o poder, é automaticamente moderada só porque usa uma linguagem mais aceitável nos círculos mediáticos. O problema mais grave é o enviesamento da informação: quase todos os jornais falam do perigo da extrema-direita, mas quase nenhum fala do perigo da extrema-esquerda. Esta assimetria não é pluralismo porque corresponde a uma forma tóxica de orientar o debate, sob aparência de análise séria. Sem entrar no negócio sórdido entre política e informação, é legítimo exigir coerência. Quem respeita a democracia deve respeitar todos os votantes, do centro, da esquerda, da direita e não apenas os que confirmam a narrativa dominante. Em democracia não deve haver senhores nem proprietários.

O caso da Saxónia-Anhalt é particularmente revelador. A AfD venceu com 43,8%, mas o arco do poder partidário tradicional fará tudo para impedir que Ulrich Siegmund, linha-dura do partido, chegue a primeiro-ministro. Não está excluído que o BSW ou deputados individuais da CDU possam viabilizar essa eleição, o que mostraria até que ponto o cordão sanitário é mais frágil do que se diz. Em Berlim, pelo contrário, a extrema-esquerda ganhou e já se prepara para governar com o SPD e os Verdes, sem que isso provoque o mesmo alarme mediático. Esta seletividade mina a confiança e alimenta a ideia de que as regras só se aplicam a alguns. O cordão sanitário pode ser legítimo como defesa constitucional, mas não pode transformar-se numa forma permanente de negar a vontade eleitoral sem custos democráticos. Quando uma maioria vota num partido e esse partido é sistematicamente excluído, a democracia não fica mais forte,  fica é mais distante dos cidadãos.

A Alemanha precisa de uma política de equilíbrio social e de coesão. Precisa de partidos que voltem a ouvir, de uma imprensa que não confunda informação com militância e de líderes que não se agarrem ao poder como se este fosse propriedade privada. O espectro político está a mudar; os partidos que tradicionalmente formavam o arco do poder estão em decomposição, enquanto os extremos se afirmam. Isto corresponde, em parte, ao extremismo que domina a informação na União Europeia e à incapacidade das elites de se reformarem. Se o centro não reagir com ideias, coragem e proximidade, serão os extremos a ditar o futuro.

A mudança de mentalidades não virá de Bruxelas nem dos estúdios de televisão! A mudança virá da rua, do trabalho, da escola, da habitação, da segurança e da dignidade de quem se sente abandonado. É aí que se joga a verdadeira política muito embora a nova política latifundiária se tente afirmar por algum tempo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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