USO DA SEMÂNTICA NA MOLDAGEM DA PERCEPÇÃO DA REALIDADE

“Património especial” (“Sondervermögen”) é o eufemismo político usado para a dívida pública na Alemanha

O júri de especialistas da Sociedade da Língua Alemã de Marburgo escolheu o termo «Sondervermögen» (Riqueza Especial) como a “palavra tabu” do ano de 2025. A escolha, que visa destacar vocábulos considerados impróprios ou enganadores, recaiu sobre a designação usada pelo governo para a nova dívida do Estado.

Os peritos argumentam que a expressão, de conotação positiva, serve para ocultar a realidade financeira que pretende designar: um volume de endividamento extraordinário. Na prática, o mecanismo do “património especial” permite contornar os limites de endividamento previstos na constituição financeira alemã, as chamadas “regras da dívida”.

O valor, que ascende a mais de 500 mil milhões de euros para financiar tarefas específicas como a modernização das Forças Armadas ou a transformação energética, contrasta com os 15 mil milhões anuais anteriormente permitidos por lei. Esta mudança representa uma ruptura com o compromisso público assumido pelo agora chanceler federal, Friedrich Merz, quando, de que tais fundos seriam uma exceção única.

A sentença do júri funciona como um espelho crítico perante a classe política. A escolha da “palavra tabu” alerta para o uso de uma linguagem cada vez mais refinada e eufemística nos corredores do poder, que, ao suavizar conceitos sensíveis, dificulta a averiguação pública e o debate transparente sobre temas que os governantes desejam encobrir.

A discussão levantada pelos linguistas de Marburgo vai além de uma questão semântica. Coloca no centro do debate democrático a forma como a linguagem política molda a perceção da realidade e a responsabilidade dos governantes de comunicar com clareza, sem recorrer a construções que possam ofuscar a importância das decisões tomadas.

António da Cunha Duarte Justo

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Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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