Há um paradoxo original na condição humana: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas o greta da existência só ganha cor, calor e significado no cadinho do outro. O ser humano é, por essência, um animal social, um “animal político”, como já o definia Aristóteles. A sua afirmação no mundo não é um monólogo, mas um diálogo permanente que espera uma resposta, um eco, um reconhecimento. A pergunta que hoje, de forma premente, se nos coloca é: numa sociedade hiperconectada tecnologicamente, o que é que essa mesma sociedade devolve ao indivíduo para que ele não se sinta profundamente só? A resposta, quando não chega, deixa uma ferida que não é apenas da alma, mas que se inscreve no corpo, como uma doença silenciosa da modernidade.
Sentir-se sozinho é, de facto, uma das experiências mais cruéis. Não é sinónimo de estar fisicamente só, porque muitas vezes habita os corredores apinhados de um escritório ou o lado vazio de uma cama partilhada. É a sensação aguda de que a nossa essência não é vista, tocada ou compreendida. Os dados, como o preocupante estudo alemão que aponta que seis em cada dez pessoas se sentem sós, são mais do que estatísticas; são o retrato de uma epidemia subjetiva numa sociedade carente. A nossa visão de nós mesmos é, em grande parte, formada pelo reflexo que encontramos nos olhos dos outros. Quando esse espelho social se embaça ou se parte, a nossa própria imagem interior entra em crise. Perdemos contorno, nitidez, existência.
Vivemos tempos em que o nosso chão se torna cada vez mais movediço. A globalização, com as suas luzes e sombras, retirou-nos muitas vezes o chão das comunidades estáveis, das praças onde todos se conheciam. As notícias de conflitos globais ecoam como um ruído de fundo ansioso. Muitos sentem-se como peças intercambiáveis numa engrenagem vasta e impessoal, onde a eficácia substitui a afetividade. Neste contexto, o apelo a uma espiritualidade que sirva de refúgio e de sentido não é um mero capricho devocional, mas uma necessidade também psicológica vital. As comunidades, sejam religiosas, culturais ou de simples proximidade, são os antídotos naturais ao isolamento. É por isso que a ação do Estado e das instituições não pode limitar-se ao económico e ao funcional; deve investir ativamente na criação de espaços de encontro, de cultura viva e partilhada, de celebração do vínculo, durante todo o ano. Uma sociedade que não cultiva o seu espírito comunitário é uma sociedade que adoece coletivamente, tornando-se mais depressiva e fragmentada.
Contudo, a ponte para o outro não se constrói apenas de cima para baixo. Ela nasce dos gestos mínimos, da micro-política da gentileza quotidiana. Fiquei profundamente comovido com um episódio simples: durante um passeio, ao executar discretamente um exercício de equilíbrio, um desconhecido de semblante alegre que passava perguntou-me: “Está tudo bem?”. Não era mais do que uma frase, uma nesga de atenção, mas continha um universo de reconhecimento. Naquele instante, deixei de ser uma figura anónima numa paisagem para me tornar um alguém. Admiro, com um certo sentimento de humildade, a etiqueta infalível dos cães que, ao cruzarem-se, se cheiram e se saúdam. Recordam-nos um protocolo básico de existência: a presença do outro merece um registo, um reconhecimento.
É na descoberta mútua, nas conversas que desvendam universos íntimos, que nos encontramos a nós próprios. A falta deste estímulo relacional é um veneno lento. O cérebro atrofia-se, a demência pode encontrar terreno fértil; a alma, em desespero, busca consolo fugaz no álcool ou noutras substâncias. A biologia confirma a tragédia: o isolamento social crónico eleva os níveis de cortisol, a hormona do stress, abrindo caminho a doenças cardiovasculares e a um declínio geral do sistema imunitário.
A solidão é, portanto, uma questão de saúde pública. Combate-se com a participação ativa, como, dançar, pertencer a um coro, fazer parte de um grupo de voluntários, cultivar uma amizade com a paciência com que se cultiva uma árvore. Sei bem como isto é difícil de praticar porque também eu não consigo praticar sempre muito do que aqui digo embora reconheça a sua importância. A reforma, tantas vezes temida pela perda súbita de significado e de rede social, deve ser preparada com a mesma cautela com que se planeia a independência financeira. É preciso poupar afetos, semear ligações.
Nem todas as pessoas solitárias estão isoladas, e muitos isolados não se sentem solitários. A chave, como bem apontam os movimentos de autoajuda e entreajuda, está na autenticidade e no compromisso. Relações superficiais ou tóxicas podem ser mais solitárias do que o silêncio. O que buscamos, no fundo, é o toque de uma humanidade partilhada, a confirmação de que a nossa voz tem um interlocutor, de que a nossa sombra, quando projectada, se funde com outras, formando uma proteção maior contra o vento frio da indiferença.
Chegou a hora de um investimento coletivo na arte do encontro. De perguntar ao vizinho como está. De criar, com pequenos gestos, uma rede de luz que afaste a escuridão da solidão. Porque no fim, salvamo-nos uns aos outros, ou perecemos juntos, na mais dolorosa das separações que é a que acontece estando lado a lado.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo