Não é de novos astros e programas
que precisa a astronomia política da emigração,
mas da antiga gravidade da vergonha
e do peso terrestre, da responsabilidade.
Crónica poética
O emigrante não olha o céu por ingenuidade.
Olha por saudade.
E a saudade, como se sabe,
é um telescópio defeituoso:
aproxima o passado
e desfoca o presente.
De quatro em quatro anos,
o céu da emigração enche-se de sinais.
Não são estrelas,
são políticos em combustão emocional,
treinados para cintilar com brilho alugado
no tempo necessário de promessas recicladas
para acordar a nostalgia
e adormecer a razão.
Chegam carregados de pátria portátil:
um hino dobrado no bolso,
um discurso com cheiro a infância
e um sorriso calibrado
para quem ainda diz “lá na terra”
como se o tempo não tivesse também emigrado.
Entram nas associações
com a perícia de quem conhece o público:
falam de sacrifício
a quem sacrificou a vida inteira,
falam de futuro
a quem vive suspenso do passado,
e falam de respeito
com a ligeireza de quem parte
antes que a palavra pese.
Escoltados ao restaurante antigo:
sabem onde fica a mesa,
quem paga o vinho
e quem ainda acredita no brinde.
Sorriem com dentes de campanha,
riem alto,
o riso é a única obra concluída.
O emigrante escuta.
Não por crença,
por educação emocional.
A saudade ensina a ouvir,
a não interromper,
a sorrir mesmo quando dói.
É aí que a caça ao voto se torna arte:
não pescam ideias,
pescam emoções antigas.
Passadas as eleições,
o céu volta ao normal.
O poder recolhe-se ao cais,
fecha o casaco,
descansa.
A maré baixa
e deixa à vista
as mesmas pedras,
os mesmos atrasos,
a mesma ausência de obras
que não cabem em discursos.
Vira o disco.
Toca o mesmo,
agora sem música.
Há activistas de posto fixo,
sentinelas da esperança alheia,
que lançam cravos ao vento
como se o povo não tivesse jardim
ou como se o vento votasse.
Vivem no luar do partido,
distribuindo palavras
que nunca conheceram o sol.
Há as vozes permanentes,
astronautas de partido,
que orbitam a diáspora
falam de liberdade, democracia
como se fosse propriedade ideológica.
Nos seus media falam da emigração
com a convicção paternal
de quem acha que o povo
precisa sempre de ser lembrado
do que deve sentir.
Vivem da lua partidária,
onde nunca é noite e nunca é dia.
Confundem lealdade com repetição
e chamam consciência política ao eco.
No céu da diáspora
não há constelações:
há meteoros emocionais, de fogo curto
bons para pedidos rápidos,
e meteoritos antigos,
que ficam a fazer fumo no ar
com a arte antiga do maldizer
para esconder o vazio.
O emigrante apresenta desejos.
Não porque acredite,
mas porque a saudade insiste.
Pede em português antigo,
com verbos no passado
e esperança no condicional.
Não vê que a luz é emprestada
nem que o fogo é curto:
a emoção chegou primeiro.
Dizem que são sinais divinos,
mensagens dos deuses eleitorais.
Mas são deuses preguiçosos, fruto do voto facilitado
que exigem longas peregrinações para votar
e oferecem, em troca,
o direito de continuar esquecido.
Se respeitassem a diáspora,
já teriam encurtado a distância
entre o gesto e a urna.
Pescam votos no mar da saudade,
não no da razão.
E como a rede da mudança
volta sempre vazia,
culpam o povo por não acreditar
no milagre repetido.
Esquecem que o povo,
cansado de rezar a estrelas,
prefere ficar em terra,
a ver passar o fogo-de-artifício
da legislatura.
Em quarenta anos no meio,
aprendi a astronomia real:
as estrelas passam,
o migrante fica.
E o emigrante também nota
a astronomia difícil:
o passado não volta,
a saudade não governa
e estrelas cadentes
não constroem presente.
Enquanto a política continuar
a explorar a emoção
em vez de respeitar a experiência,
o céu da emigração
continuará cheio de brilho inútil.
Cabe ao emigrante,
rico em inteligência emocional,
usar essa mesma saudade
não como âncora,
mas como memória crítica.
Porque quem viveu longe
já aprendeu o essencial:
nem toda a luz guia,
nem todo o sorriso aquece,
e nem toda a estrela
merece desejo.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo