ÀS ARMAS ÀS ARMAS!

Sátira sobre a praça digital e o circo eleitoral português

 

Às armas, às armas neste chão medíocre

onde Portugal desvia o olhar envergonhado.

Aqui os guerreiros do teclado iluminado

combatem pelo nada com fervor hipócrita.

 

As cornetas partidárias não descansam,

generalidades ocas são a munição,

deixam azia no estômago da nação

e na mente aquela toxicidade mansa.

 

Facebook, essa praça pública tão nobre

onde a ideologia resplandece toda nua,

sem argumentos, mas tão fervorosa que flua

o vómito ideológico que nos cobre.

 

Progressistas e conservadores em duelo eterno,

jacobinos modernos, subtis como os drones,

infiltram-se nas páginas alheias, campeões

da propaganda barata, do marketing paterno.

 

Como cucos de manual depositam

o ovinho ideológico em ninho emprestado,

voam satisfeitos, trabalho consumado,

enquanto os incautos as certezas aceitam.

 

E os socialistas, de zumbido certeiro,

vespeiro atento a qualquer migalha,

vivem da opinião, eis a sua batalha,

que ninguém pergunte (pensamento rasteiro)

que tipo de humano é que defendem afinal.

 

Apoderaram-se dos meios com astúcia fina

enquanto a direita dormia profundamente.

Tanto esforço, tanta máquina militante

para ver a abstenção cruzar a linha.

 

Já os conservadores, de sono honrado,

queixam-se pouco e perdem o jornal.

Mas sem esforço nem armas de verbo sonoro

fazem a colheita, ironia do banal,

ganham nas urnas esse prémio de ouro.

 

Justiça poética ou teatro do absurdo?

Tanto grito socialista, tanto alarido

acaba em silêncio, em desapego surdo,

enquanto a indiferença vence, sem ruído.

 

Todos armados de verborreia ordinária,

paulada de cá, paulada de lá sem parar,

e nenhuma alma, que cegueira temerária,

se lembra do humano que deveria importar.

 

Que conceito de pessoa jaz escondido

por trás desta guerra digital e vazia?

Que Portugal é este, perdido,

que se consome em rixas de um só dia?

 

Às armas, às armas, o grito ressoa

mas as armas são frases, vento, simulacro.

E este chão reles onde a mentira voa

envergonha a terra de Camões e de Pessoa.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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