Sátira sobre a praça digital e o circo eleitoral português
Às armas, às armas neste chão medíocre
onde Portugal desvia o olhar envergonhado.
Aqui os guerreiros do teclado iluminado
combatem pelo nada com fervor hipócrita.
As cornetas partidárias não descansam,
generalidades ocas são a munição,
deixam azia no estômago da nação
e na mente aquela toxicidade mansa.
Facebook, essa praça pública tão nobre
onde a ideologia resplandece toda nua,
sem argumentos, mas tão fervorosa que flua
o vómito ideológico que nos cobre.
Progressistas e conservadores em duelo eterno,
jacobinos modernos, subtis como os drones,
infiltram-se nas páginas alheias, campeões
da propaganda barata, do marketing paterno.
Como cucos de manual depositam
o ovinho ideológico em ninho emprestado,
voam satisfeitos, trabalho consumado,
enquanto os incautos as certezas aceitam.
E os socialistas, de zumbido certeiro,
vespeiro atento a qualquer migalha,
vivem da opinião, eis a sua batalha,
que ninguém pergunte (pensamento rasteiro)
que tipo de humano é que defendem afinal.
Apoderaram-se dos meios com astúcia fina
enquanto a direita dormia profundamente.
Tanto esforço, tanta máquina militante
para ver a abstenção cruzar a linha.
Já os conservadores, de sono honrado,
queixam-se pouco e perdem o jornal.
Mas sem esforço nem armas de verbo sonoro
fazem a colheita, ironia do banal,
ganham nas urnas esse prémio de ouro.
Justiça poética ou teatro do absurdo?
Tanto grito socialista, tanto alarido
acaba em silêncio, em desapego surdo,
enquanto a indiferença vence, sem ruído.
Todos armados de verborreia ordinária,
paulada de cá, paulada de lá sem parar,
e nenhuma alma, que cegueira temerária,
se lembra do humano que deveria importar.
Que conceito de pessoa jaz escondido
por trás desta guerra digital e vazia?
Que Portugal é este, perdido,
que se consome em rixas de um só dia?
Às armas, às armas, o grito ressoa
mas as armas são frases, vento, simulacro.
E este chão reles onde a mentira voa
envergonha a terra de Camões e de Pessoa.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo