QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM

Para ser lido num dia de eleições e pensado no dia seguinte

Num dia de eleições, quando o país se enche de debates, promessas e espectáculos televisivos, talvez valha a pena parar um pouco e dizer aquilo que anda esquecido: o maior problema do nosso tempo não é apenas político nem económico; é sobretudo humano.

Os candidatos falam, os comentadores analisam, os entrevistadores perguntam, muitas vezes sem verdadeira escuta. E, no meio de tanto ruído, a pergunta essencial fica sem resposta: que ideia de pessoa humana sustenta o sistema que nos governa?

Portugal não é excepção. É sintoma.

Vive esta realidade de forma clara. A política transformou-se, em larga medida, num exercício de imagem e de curto prazo. Discute-se tudo com ar grave, mas raramente se toca no essencial; fala-se de tudo,  menos daquilo que estrutura o quotidiano real das pessoas. A saúde que não responde como devia, a burocracia que desgasta, a carência silenciosa de quem trabalha e mesmo assim não chega ao fim do mês, a solidão de muitos idosos, a invisibilidade de quem não tem voz nem palco mediático.

O sistema cria fragilidades e depois surpreende-se com a desconfiança, a abstenção e o afastamento dos cidadãos. Mas como confiar numa política que fala de progresso enquanto trata o humano como um problema de gestão?

Aqui não está apenas em causa a competência técnica ou a boa vontade dos actores políticos. Está em causa algo mais profundo: a visão do homem. Sem uma ideia clara do que é a pessoa humana, a política torna-se um conjunto de procedimentos sem alma.

Vivemos numa sociedade que deixou de confiar no bom senso comum e na ordem natural das coisas para se agarrar quase exclusivamente ao poder: poder económico, poder técnico, poder mediático. E quando o poder deixa de ser acompanhado por uma consciência moral partilhada, o resultado não é mais liberdade, mas mais desencontro. Como já se dizia há séculos, o homem torna-se lobo do homem, hoje com linguagem polida, gráficos bem desenhados e relatórios impecáveis.

A Europa, vista a partir de Bruxelas, dá sinais claros desse cansaço. Uma Europa saturada de normas, directivas e regulamentos, mas cada vez mais pobre de sentido. Regula muito, controla mais, explica pouco e escuta menos ainda. Fala de valores, mas evita perguntar de onde vêm e para que servem. Governa-se como um sistema e esquece-se de que é, antes de mais, um conjunto de povos e de histórias.

Numa Europa fragmentada por dentro e por fora, perdeu-se até a noção de geografia humana. Governam-se territórios como se fossem quadros estatísticos, esquecendo que são pessoas concretas, com culturas, memórias e fragilidades próprias.

É neste contexto que a questão ética se torna inevitável. Não como moralismo, nem como regresso ao passado, mas como condição mínima de futuro. Sem um chão ético comum, nenhuma democracia resiste por muito tempo. Não por falta de leis, mas por falta de rumo.

Uma ética mundial, como a pensou Hans Küng, não pretende uniformizar consciências nem impor crenças. Procura apenas algo essencial: um acordo mínimo sobre o respeito pela dignidade da pessoa humana, acima de interesses económicos, ideológicos ou geopolíticos. É pouco e, ao mesmo tempo, é tudo.

Para a Europa e também para Portugal, isso implicaria uma relação mais honesta com as suas próprias raízes culturais e espirituais. Não para misturar religião com poder político, nem para restaurar velhas hegemonias, mas para deixar de tratar o cristianismo apenas como um incómodo ou um resíduo do passado. Quando liberta da tentação do poder, a tradição cristã foi uma escola de universalidade: ensinou que cada pessoa conta, que o outro não é um número, nem um meio, nem um obstáculo, mas alguém. Bruxelas regula com precisão, mas já não sabe para quê. Fala de valores, mas evita perguntar pela sua fonte. Governa territórios sem pensar a geografia humana que os habita.

Sem essa memória ética, a política reduz-se à administração do imediato. E os dias de eleições tornam-se dias de ruído, não de verdadeira escolha. Discute-se o acessório, evita-se o essencial.

Talvez, ao entrar numa cabine de voto, a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas que tipo de sociedade queremos alimentar. Porque, no fim, não são apenas os programas que moldam um país é a ideia de homem que os inspira.

E essa é hoje a urgência mais silenciosa, mas também a mais decisiva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

6 comentários em “QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM”

  1. Nada se discute nas campanhas, porque os políticos vivem numa bolha completamente descolada daquilo que é a realidade das pessoas…
    Por outro lado, os problemas com que se debate atualmente Portugal são tão grandes e complexos, que a sua discussão seria irrelevante e até incompreensível para a esmagadora maioria das pessoas…
    Uma política assente em “boas notícias” e em que apenas se diz o que as pessoas querem ouvir, não pode dar bons frutos…
    Vive e gere-se o imediato…
    Se virmos bem, não há nenhuma ideia para o País num horizonte de vinte anos, por exemplo… Provavelmente porque presentemente, Portugal, terá a (i)rrelevância de uma qualquer junta de freguesia de quinta categoria da UE. Nada há a discutir…
    Há presentemente um fosso enorme no que concerne ao conhecimento e informação detidos pela “elite” dirigente e o que o povo perceciona…
    Vota-se e acredita-se naqueles que nos acenam com a promessa de mais uns trocados no bolso para comprar umas coisas e…por aqui se fica atualmente a política…

  2. Democracia só funciona bem com cidadãos educados e informados.
    Com políticas de protecção da família e da pátria.
    Com cidadãos a participar nas grandes decisões e não apenas a eleger seus representantes.
    Mais importante que o voto é a participação.
    O voto em si não muda nada, porque o sistema é mais espectáculo do que substantivo.
    Eu voto sem acreditar no sistema, uso o voto apenas como a única ferramenta disponível.
    Passei uma vida a acreditar numa mudança e afinal só vi corrupção onde prometeram transparência,
    desordem onde prometeram liberdade responsável,
    pobreza onde prometeram progresso.
    As pessoas são ignoradas, mal tratadas e deixadas ao abandono!
    E sei do que falo, vivi isso muito recentemente.
    Esperei 9h, em dor, por uma consulta, nas urgências dum hospital central, sem ser atendida!…
    Senti-me abandonada e entregue à minha sorte, depois de trabalhar uma vida e a descontar 40% do meu vencimento, para agora numa urgência de saúde, ser assim destratada.
    Portanto, as pessoas e o país, neste sistema, estão claramente abandonadas.
    É muito triste, mas é esta a nossa triste e lamentável realidade.

  3. Manuela Silva, uito obrigado pelo seu testemunho. O seu caso justifica frustração e revolta. O que partilhou é profundamente marcante e ilustra uma falha do sistema grave que vai muito além de uma mera questão política porque expressa também uma violação do contrato social mais básico.
    Trabalhar uma vida, contribuir com uma parte significativa do rendimento, e depois sentir-se abandonado pelo mesmo sistema que deveria ser uma rede de segurança, é uma das formas mais profundas de desilusão.
    É muito relevante o que afirma porque de facto uma democracia robusta exige muito mais do que o voto periódico. Numa democracia deveria pressupor-se Instituições transparentes e responsáveis, que prestem contas e um Estado que funcione nos seus pilares essenciais: Saúde, Justiça, Educação.
    A sua crítica ao “espetáculo” versus “substância” toca no cerne do mal-estar democrático atual em muitas sociedades. O voto, quando desconectado de resultados tangíveis na vida das pessoas, torna-se um ritual vazio.
    No entanto, o seu acto de votar, mesmo sem acreditar, é significativo. É, como diz, a ferramenta disponível. Mas a sua reflexão aponta para o passo seguinte: como transformar o descontentamento e a experiência pessoal em ação coletiva que exija mais do que promessas?
    Os políticos são muitas vezes motivados a viver longe do povo dado este empenhar-se mais na defesa deste ou daquele partido do que em falar do que se passa na vida diária, na saúde, justiça e educação. Quase ninguém fala da responsabilização efetiva dos eleitos por falhas como a que viveu.
    A sua dor é um testemunho poderoso. Este tipo de experiência, quando partilhada e organizada, pode ser o germe da pressão necessária para a mudança. É trágico que tenha de ser através do sofrimento, mas é frequentemente aí que nasce a consciência coletiva mais incisiva.
    O seu voto, acompanhado desta voz de protesto e desta experiência narrada, já é mais do que um voto. É um ato de testemunho e de exigência.
    A sua experiência passada no Hospital não deveria ser possível num país desenvolvido. E o facto de o ser, confere à sua crítica uma autoridade e uma urgência que nenhum político ou analista deveria ignorar. Muita força e coragem e continue a dar testemunho da dor que nas campanhas eleitorais é ignorada. Manuela, a sociedade cada vez exige mais que nos organizemos em grupos locais, grupos conscientes que exijam responsabilidade ao Estado.Infelizmente a política só se deixa impressionar por quetões que venham de grupos porque só estes lhe poderão fazer sombra! Importanzte é não nos deixarmos desmotivar por eles a continuarmos a defender o humanismo.

  4. Kanespor Feijão, obrigado pela sua reflexão, tão lúcida e objectiva. Sintetiza com precisão o círculo vicioso em que nos encontramos: políticos numa bolha, problemas complexos demais para debates de campanha, e uma gestão do imediato que anula qualquer visão de futuro.
    Tem toda a razão. Quando se governa para as manchetes e para o bolso (no curto prazo), perde-se o país. A ideia de estarmos reduzidos a uma irrelevância estratégica é, infelizmente, um diagnóstico acertado e devastador.
    A sua conclusão é o cerne da questão: se nada há a discutir, o que resta é a mera transação de “trocados”. E um país não se constrói assim.
    A sua crítica mais que um desabafo é um diagnóstico. E um diagnóstico preciso é o primeiro passo, ainda que amargo, para qualquer cura possível. Precisamos de políticos que se tenham tornado personalidades e não meros administradores da mediocridade e de interesses míopes. Obrigado, Kanespor, por ter partilhado o seu diagnóstico. É uma tristeza verificar-se como na campanha eleitoral as pessoas se perdem no acidental e em acusações moralistas e não se ocupam com os problemas de saúde, justiça e educação. Portugal precisaria de uma discussão pública séria sobre a visão ou mundivisão do homem (antropologia), o problema das ideologias e acção política numa democracia partidária e de huma sociologia europeia humanista.

  5. António Cunha Duarte Justo, tenho vindo a pensar, registar/reclamar, este lamentável episódio, a algum superior hierárquico, que se estendeu a todos os doentes que lá estavam, nas mesmas circunstâncias, e eram muitos!
    Não sei ainda como devo fazê-lo, para cumprir os requisitos.
    O seu comentário, veio reforçar essa inquietude e vontade.
    Muito obrigada por ser essa força e empatia.
    Bem-haja.

  6. Manuela Silva , a melhor maneira de resolver inquietudes e problemas é passar à acção: Junto aqui uma carta/e-mail que pode enviar ao ministro da Saúde. Coloquei também o chefe de gabinete porque assim eles são obrigados a ter o assunto em consideração. A seguinte carta, com as devidas adaprtações pode ser dirigida a outras autoridades:
    Manuela Silva
    e-mail, direccao…
    Carta ao Ministro da Saúde e ao Chefe de Gabinete

    Cidadã Contribuinte
    E-mail: gabinete.ms@ms.gov.pt.
    Avenida João Crisóstomo, n.º 9, 6º andar, 1049-062 Lisboa, Portugal.

    Assunto: Reclamação Fundamentada: Abandono no Serviço Nacional de Saúde e Quebra do Contrato Social
    Exmo. Senhor Ministro da Saúde,
    Exmo. Senhor Chefe de Gabinete,
    Dirijo-me a V. Exas. como cidadã que cumpriu rigorosamente os seus deveres cívicos e fiscais durante toda uma vida de trabalho. Escrevo não para me lamentar, mas para denunciar uma realidade inaceitável que vivenciei recentemente e que reflete o colapso do Serviço Nacional de Saúde — e, com ele, a quebra do contrato social que deve unir o Estado aos seus cidadãos.
    Os Factos
    Recentemente, dirigi-me às urgências de um hospital central numa situação de dor aguda que justificava assistência médica urgente. Aguardei nove horas sem ser atendida. Nove horas em sofrimento, sem informação, sem dignidade, sem qualquer gesto de cuidado humano ou profissional.
    Ao fim dessas nove horas, desisti. Não fui atendida. Regressei a casa entregue à minha sorte, como se nunca tivesse contribuído para este país, como se o meu sofrimento não tivesse importância, como se a minha vida não valesse o esforço de uma resposta minimamente digna.
    A Contribuição de Uma Vida
    Trabalhei toda a minha vida. Paguei impostos e contribuições sociais de forma rigorosa — cerca de 40% do meu vencimento, mês após mês, ano após ano, durante décadas. Fiz isso confiando que, quando precisasse, o Estado estaria presente. Que o Serviço Nacional de Saúde, financiado pelo meu esforço e pelo de milhões de portugueses, garantiria cuidados de saúde dignos, oportunos e eficazes.
    Mas quando precisei, o sistema abandonou-me.
    O Significado Profundo deste Abandono
    Senhor Ministro, esta não é apenas a minha história pessoal. É o reflexo de um sistema que falha sistematicamente aos cidadãos que o sustentam. Um sistema que promete saúde universal, mas que na prática deixa pessoas em sofrimento durante horas intermináveis, sem atendimento, sem explicação, sem respeito.
    Este abandono não é apenas administrativo — é moral. Representa a quebra de um contrato fundamental: o cidadão contribui, trabalha, cumpre os seus deveres, e em troca o Estado garante proteção, cuidado e dignidade. Quando esse contrato se rompe, rompe-se também a confiança nas instituições e na própria democracia.
    Passei uma vida a acreditar que o sistema poderia melhorar. Mas onde me prometeram transparência, encontrei desorganização. Onde me prometeram serviços públicos de qualidade, encontrei abandono. Onde me prometeram progresso, encontrei degradação.
    O Estado Atual do Serviço Nacional de Saúde
    Sei que V. Exas. conhecem os números, os relatórios, as estatísticas. Mas peço que não esqueçam as pessoas por detrás desses números. Cada hora de espera é uma hora de dor. Cada urgência não atendida é uma vida em risco. Cada cidadão abandonado é uma falha do Estado que jurou protegê-lo.
    O Serviço Nacional de Saúde não está apenas em crise — está a falhar na sua missão fundamental. E enquanto os responsáveis políticos discutem estratégias e reformas, as pessoas continuam a sofrer, a esperar, a desistir.
    O Que Exijo, Enquanto Cidadã
    – Resposta institucional concreta sobre o episódio que vivenciei, com identificação das causas do tempo de espera e das medidas que estão a ser tomadas para evitar que situações semelhantes se repitam;
    – Plano de ação urgente para reduzir os tempos de espera nas urgências hospitalares a níveis compatíveis com a dignidade humana e com os padrões de um país desenvolvido;
    – Reforço imediato de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde — médicos, enfermeiros, assistentes operacionais — para que o sistema possa funcionar sem deixar cidadãos abandonados;
    – Transparência na gestão dos recursos financeiros que os contribuintes, como eu, entregam ao Estado — quero saber como está a ser usado o meu dinheiro e porque é que não chega para garantir cuidados dignos;
    – Prestação de contas pública sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde, sem eufemismos, sem desculpas vazias, mas com honestidade e assunção de responsabilidade política.
    Apelo Final
    Senhor Ministro, Senhor Chefe de Gabinete: não vos escrevo como adversária política, mas como cidadã exausta. Exausta de promessas não cumpridas. Exausta de um sistema que me ignora depois de eu o ter sustentado durante décadas. Exausta de sentir que, afinal, o meu país me abandonou quando mais precisei dele.
    Não peço favores. Peço justiça. Peço dignidade. Peço que cumpram o contrato que o Estado assumiu comigo e com todos os cidadãos portugueses: o direito a cuidados de saúde dignos, oportunos e eficazes.
    Espero uma resposta. Não uma resposta burocrática, mas uma resposta substantiva, que demonstre que ainda há quem, nas esferas do poder, se preocupe verdadeiramente com as pessoas reais que vivem, trabalham e sofrem neste país.
    Porque se não houver essa preocupação, então o sistema não merece a nossa confiança — e a democracia deixa de ser substantiva para ser apenas um espetáculo vazio.
    Com a consideração devida, mas com a firmeza de quem já não aceita o inaceitável,
    Manuela Silva
    Contribuinte n.º
    Contacto:
    Data: 20 de janeiro de 2026
    A acompanhar a carta pode enviar em anexo Comprovativo de presença nas urgências hospitalares; Documentação médica relevante e comprovativos de descontos fiscais e contribuições para a Segurança Social
    Anexos (se aplicável):
    • Comprovativo de presença nas urgências hospitalares
    • Documentação médica relevante
    • Comprovativos de descontos fiscais e contribuições para a Segurança Social
    Também pode mandar cópia para conhecimento:
    Gabinete do Primeiro-Ministro
    Provedoria de Justiça
    Ordem dos Médicos
    Ordem dos Enfermeiros
    Comissão Parlamentar de Saúde
    Órgãos de comunicação social (se não houver resposta no prazo de 30 dias)

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