Havia, nos arredores de uma cidade antiga, um jardim murado que poucos conheciam por inteiro. Chamavam-lhe O Jardim dos Dois Olhos, porque dizia-se que quem entrasse por um portão via uma coisa, e quem entrasse pelo outro via outra completamente diferente, embora fosse o mesmo jardim.
Nesse jardim viviam dois guardiões.
Ela chamava-se Líria. Ele chamava-se Aureliano.
Líria tinha o dom da imagem. Via o mundo como uma tapeçaria viva, feita de histórias, rostos, gestos, intenções ocultas. Para ela, nada era apenas o que parecia ser. Cada acontecimento vinha carregado de sentidos, memórias e feridas antigas. Quando algo se partia no presente, sentia ecoar quebras muito antigas, como se o tempo não fosse uma linha, mas um círculo sensível.
Desde cedo aprendera que o amor podia ser belo e cruel ao mesmo tempo. Crescera num ambiente onde era vista mais como ornamento do que como pessoa, e por isso desenvolvera um olhar atento, quase vigilante: precisava de perceber rapidamente quando o afeto estava a ser retirado. Isso tornara-a profunda, criativa, mas também vulnerável. Quando se sentia contrariada, não discutia apenas um facto, defendia a sua própria existência.
Aureliano, por sua vez, tinha o dom da estrutura. Via o jardim como um sistema vivo que precisava de equilíbrio para não se destruir. Observava padrões, consequências, encadeamentos. Onde Líria via dramas singulares, ele via leis gerais. Onde ela sentia, ele pensava. Não por frieza, mas por necessidade de ordem interior. Sabia, talvez sem o saber, que se mergulhasse demasiado no turbilhão emocional, se perderia.
Ambos eram bons guardiões. Ambos amavam o jardim. E ambos acreditavam, sinceramente, que estavam a protegê-lo.
Mas havia um problema: cada um acreditava que o outro via mal.
Quando Líria falava, falava com a alma descoberta. Esperava que Aureliano entrasse na história com ela, que sentisse o peso do que estava em jogo, mesmo quando parecia pequeno. Porém, Aureliano, ao ouvi-la, imediatamente procurava evitar danos futuros, guerras invisíveis, desastres em cadeia. Respondia com conselhos, estratégias, mediações.
E então Líria sentia-se invisível.
E Aureliano sentia-se acusado de algo que não pretendia.
Certo dia, surgiu no jardim um conflito entre visitantes: um casal que se separava queria dividir as obras de arte que ali haviam deixado como oferenda. Líria trouxe a história a Aureliano carregada de inquietação. Não era apenas sobre quadros, era sobre justiça, reconhecimento, memória, generosidade ferida.
Aureliano ouviu e respondeu como sempre fizera: falou de consequências, de evitar lados, de soluções diplomáticas.
Nesse momento, o jardim tremeu.
“Tu falas como se eu não soubesse sentir”, disse Líria.
“E tu falas como se eu não soubesse amar”, respondeu Aureliano, cansado.
Separaram-se nesse dia, cada um refugiando-se no seu lado do jardim. As plantas começaram a definhar, não por falta de cuidado, mas por excesso de unilateralidade. As flores de Líria cresciam exuberantes, mas frágeis; as árvores de Aureliano eram fortes, mas secas.
Foi então que apareceu um velho jardineiro, que ninguém recordava ter visto entrar.
Ele observou Líria e Aureliano longamente e disse apenas isto:
“Cada um de vós olha com um olho só.”
Líria e Aureliano protestaram. Cada um acreditava ver melhor que o outro.
O velho continuou voltando-se para Líria:
“Tu olhas com o olho do significado. Tudo para ti é pessoal, porque foste ferida onde o mundo devia ter sido abrigo. Mas quando tudo é pessoal, o outro deixa de ter espaço para ser diferente.
Depois voltou-se para Aureliano:
“E tu olhas com o olho da ordem. Tudo para ti precisa de coerência, porque aprendeste que o caos dói. Mas quando tudo é geral, o outro deixa de ser visto na sua singularidade.”
Os dois ficaram em silêncio.
“O jardim só florescerá quando aprenderem a olhar com os dois olhos”, concluiu o velho. “O olho que sente e o olho que compreende. O coração que vive e a mente que prevê.”
E acrescentou, antes de se ir embora:
“Não tentem corrigir-se um ao outro. Tentem hospedar o olhar do outro dentro de vós. Isso chama-se individuação num processo de relação eu-tu-nós.”
Desde esse dia, nada se tornou perfeito. Eles ainda discutiam. Ainda se feriam. Mas algo mudara.
Quando Líria falava, Aureliano perguntava-se primeiro: “O que é que isto significa para ela?”
Quando Aureliano respondia, Líria perguntava-se: “O que é que ele está a tentar proteger?”
O jardim não se tornou isento de conflitos. Tornou-se vivo!
Mas os conflitos começaram a mudar de forma, como nuvens que já não descarregam sempre tempestade.
Ou foi por sugestão silenciosa do velho jardineiro, ou talvez por cansaço da repetição, que Líria e Aureliano decidiram caminhar para além do muro mais antigo do jardim, aquele que separava o cultivado do selvagem. Ali vivia um homem de poucas palavras e muitos silêncios. Diziam que ele não dava conselhos. Limitava-se a escutar os sonhos. Não perguntava o que lhes acontecia, mas como lhes acontecia por dentro.
O homem chamava-se Elias.
Elias pedira-lhes que se sentassem frente a frente, não para se convencerem, mas para se verem refletidos um no outro. Líria e Aureliano sentaram-se diante dele como duas margens de um mesmo rio. Depois de longos momentos Elias falou com voz calma, como quem nomeia algo antigo, parecendo recordar algo que ambos tinham esquecido:
“O que vos divide não é a falta de amor, mas a unilateralidade da alma.”
Líria sentiu-se inquieta. Aureliano franziu o sobrolho.
Elias, voltando-se para Aureliano, disse:
“Em ti vive uma imagem feminina ferida, a tua anima. Ela anseia por sentido, por reconhecimento emocional e abrigo, mas foi empurrada para o silêncio em nome da razão e do controlo. Quando a tua mulher fala a partir da emoção, essa parte tua sente-se ameaçada e respondes com pensamento, como defesa.
Depois voltou-se para Líria:
“E em ti vive uma imagem masculina exigente, que exige coerência absoluta, o teu animus. Ele fala em verdades absolutas, em julgamentos, em histórias fechadas. Quando o teu marido tenta organizar ou relativizar o que sentes, esse animus interpreta isso como desvalorização, e transforma a dor em acusação e quando sente dúvida transforma-se em juiz.”
Líria e Aureliano entreolharam-se. Algo fazia sentido, embora doesse.
“Aquilo que não reconhecemos em nós,” continuou Elias, “vemo-lo no outro como defeito. Chamamos a isso projeção. E quanto maior o trauma, mais intensa é a projeção. Aquilo que cada um combate no outro, é aquilo que ainda não aprendeu a hospedar em si. Por isso o encontro dói. Não porque falte amor, mas porque há passado a mais.”
Líria sentiu um aperto antigo no peito.
Aureliano baixou os olhos sentindo como que um calafrio que atravessada todo o seu corpo.
“Os vossos conflitos não começam no presente”, disse Elias. “Começam na sombra, essa parte de vós que foi forçada a adaptar-se cedo demais, na verdura da infância. Tu, Líria, aprendeste que o amor podia retirar-se sem aviso. E tu, Aureliano, aprendeste que sentir demais podia desorganizar tudo.”
Fez uma pausa e acrescentou:
“Por isso, quando uma fala, o outro não ouve apenas o que está a ser dito. Ouve ecos antigos. E feridas não cicatrizadas exigem algo especial: não perfeição, mas mãos dadas.
“E o que fazemos quando dói?” perguntou Líria, quase num suspiro.
Elias sorriu com bondade:
“Quando dói, não se corrige nem se interpreta o outro. Sustenta-se a tensão. Aprende-se a dizer: “Isto é meu, mas preciso de ti aqui.”
Aureliano respirou fundo e disse:
“Então não se trata de mudar o outro no sentido de se fazer um caminho comum?”
Elias respirou fundo e respondeu:
“Não! Trata-se de integrar em si aquilo que se exige do outro. Pensamento e sentimento. Feminino e masculino. Narrativa e estrutura. O casal é apenas o campo onde essa integração se torna visível. Um dá alma às coisas. O outro dá-lhes forma. Separados, empobrecem. Juntos, assustam-se.
Naquele dia, ao regressarem ao jardim, algo era diferente. Não houve promessas, nem resoluções. Mas algo se deslocara impercetivelmente. Quando discutiam, nem sempre conseguiam evitar a queda. Mas às vezes, apenas às vezes, conseguiam olhar para o outro e reconhecer nele não um inimigo, mas um espelho imperfeito. Quando surgia uma discussão, perguntavam-se, embora, por vezes, tardiamente:
“Isto é o presente ou é a sombra?”
“Estou a falar com o outro ou com a minha projeção?”
Nem sempre conseguiam parar a tempo. Mas, por vezes, conseguiam voltar atrás. E isso bastava para que o jardim respirasse. Nele as flores tornaram-se menos exuberantes, mas mais duráveis. As árvores continuaram firmes, mas começaram a dar sombra. Pois a maturidade não consiste em vencer o outro, mas em não reduzir o outro àquilo que em nós ainda dói.
Aprenderam, lentamente, que amar e viver não é eliminar o conflito, mas não deixar que o conflito destrua a possibilidade de ver o outro como alguém em transformação.
E compreenderam que a verdadeira união não acontece quando dois se fundem, mas quando dois indivíduos caminham lado a lado, conscientes das suas sombras, sem deixarem de dar as mãos.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Pegadas do Tempo ©
Nota do autor
Escrevi este conto não para falar de ti, de mim, de vós,
mas para escutar melhor aquilo que em mim se repete
quando observo o mundo e descubro a minha ipseidade
na relação do eu-tu que vive na atmosfera do nós.
A sombra que reconheço nos outros
brota da mesma fonte que me atravessa.
Quando me inquieta fora,
é porque já passou, ou ainda passa, dentro de mim.
Aprendi com a vida e escrevendo,
que o orgulho nasce muitas vezes da recusa em ver
que partilhamos a mesma noite interior.
E que o único remédio que não humilha
é a humildade escolhida,
aquela que não nega a própria luz,
mas aceita a sombra como parte do caminho.
Se estas palavras servirem para algo,
que seja apenas para lembrar
que ninguém caminha inteiro sozinho
e que compreender o outro
é, talvez, uma das formas mais discretas
de nos reconciliarmos connosco.
A porta cerrada pelo problema
tem a mesma face para os dois lados:
a chave perdida é única,
e quem está dentro ou fora
busca no mesmo escuro.
Numa mesma porta
duas solidões se espelham
Ninguém é apenas vítima,
ninguém é apenas causa
somos coautores do caminho
e também da prisão.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo©