O CAMINHO DA CONSCIÊNCIA

(versão condensada)
O ser humano sofre, não tanto pela realidade em si, mas pela imagem que cria dela e pelas ideias que o aprisionam.
No seu caminho, Jesus revela-se não apenas como mediador entre o humano e o divino, mas como o próprio caminho, verdade e vida. A sua via crucis propõe uma revolução silenciosa: vencer a dor sem a transmitir, quebrar o ciclo da violência sem recorrer a vítimas ou culpados. Com ele nasce a possibilidade de uma nova humanidade, uma idade da paz tantas vezes esquecida sob o peso da história e das estruturas de poder.
Jesus desmonta a imagem de um Deus violento e vingativo. Deus não exige sacrifícios. Ao assumir a condição de vítima, Jesus expõe a lógica da violência e torna-a inútil. Mostra que a transformação não nasce da lei nem da moral, mas da relação, uma relação viva, interior, que conduz à liberdade, à graça e ao amor.
A cruz não é castigo, mas consciência. Nela não há vencedores e vencidos: há reconciliação. O caminho do Calvário dissolve a lógica do crime e do castigo, substituindo-a por uma visão inclusiva da realidade. O mal não se vence com pior, mas com uma força mais profunda: a misericórdia.
A via-sacra torna-se, assim, um itinerário espiritual. Não convida ao sofrimento pelo sofrimento, mas à descoberta de um sentido novo, uma solidariedade radical que integra tudo e todos. O sofrimento assumido transforma-se em caminho de libertação, não apenas do mundo, mas das próprias ilusões.
No silêncio diante do julgamento, Jesus revela a inutilidade de discutir com uma mentalidade fechada na dualidade. A verdade não é um conceito, é relação. Por isso, cala-se.
Ao carregar a cruz, assume não uma culpa, mas o peso da condição humana. Rejeitado pelos poderes e incompreendido pelo povo, caminha sem devolver violência. Cai, como todos caem, mas levanta-se sempre na fidelidade a uma consciência maior.
No encontro com sua mãe, não há palavras: apenas um olhar onde a dor se transforma em compreensão. Na ajuda inesperada de um estrangeiro, na compaixão espontânea de uma mulher, revela-se que a humanidade permanece capaz de bem, mesmo sem compreender plenamente.
Jesus recusa o jogo das aparências, da moral rígida e das estruturas que aprisionam. Propõe uma mudança interior, uma metanoia, onde a vida deixa de ser regida pelo medo e pela norma, e passa a ser vivida na liberdade do amor.
Crucificado, não responde com revolta. Morre como viveu: livre, entregue, fiel ao amor. E é precisamente aí que a morte perde o seu poder.
A ressurreição não é apenas um acontecimento, mas um horizonte: Deus não está entre os mortos, mas entre os vivos. A cruz não é o fim — é passagem. Um convite a abandonar as imagens que nos prendem e a descobrir uma vida mais ampla, mais verdadeira.
A via crucis é, afinal, o caminho de uma consciência nova: aquela que não julga, não exclui, não agride, mas integra, transforma e ama.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531
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O CORDEIRO DE DEUS

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu, de fragmentos e ilusões,
o fio luminoso de outra história.

Não com lã intacta, mas com o quebrado,
cada nó, cada falha, cada ferida,
tece o que nunca foi, nem foi sonhado:
a ponte sobre a noite da descida.

E quando o fio rompe, no mesmo instante
o Cordeiro reúne os cacos dispersos;
a luz não vem de fora, vem do antes
que se fez frágil para abrir universos.

Assim o fio desce, sobe, e ensina
que a tecelagem é comunhão de estrada:
quem tece com o outro não termina,
porque a mão que dá nó fica entrelaçada.

António da Cunha Duarte Justo

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A LUZ QUE ROMPE O ESCURO

No peso do silêncio, irrompe a luz,
nem suave, nem tímida, nem rogada,
espada que desfaz o véu da noite e o reduz
ao clarão da aurora inaugurada.

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu de fragmentos e ilusões
o fio luminoso de outra história.

As mulheres andavam sob o pranto,
e ao buscar entre as pedras o sepulcro,
encontraram o vazio, o aberto espanto,
o silêncio em flor, não o lúgubre.

O que procuravam não estava lá.
E nesse nada ergueu-se o Tudo eterno,
o Aleluia que dorme no amanhã
despertou como pássaro do inverno.

A cruz, pelo que consta, é peso que cansa,
Mas o crente conhece o seu segredo,
Ela é sorriso oferecido à ofensa
é braços abertos onde havia o medo.

É raio de sol em feridas estranhas,
é caminho onde os muros se desfazem,
são raízes que florescem nas entranhas,
do solo onde as dores se refazem.

Cruz minha não carregues o peso dos avós,
não herdes a culpa que não semeaste
és livre, foste livre, és entre nós
o ser que no Amor libertaste.

Do teu gesto, apenas corresponsável,
colhes teu fruto, limpas tua fonte.
O passado já não pesa, é uma aresta
que o vento da Páscoa leva ao horizonte.

E a Boa Nova, Evangelho, ressoa
para o crente que inclina a fronte à fé,
e para o peregrino que não ouve
credo algum, mas sente o que os olhos veem:

que a vida dada por sepultada
volta como flor depois da neve,
que a esperança não morre asfixiada,
que o Amor, quando é Amor, jamais se deve.

Não estamos sozinhos nesta viagem.
O anseio mais fundo do peito humano
encontrou no vazio a sua imagem,
o Homem novo, protótipo soberano.

Cultura da paz, aurora de outra era,
onde a bondade é lei e a graça é norma,
Jesus Cristo, a grande primavera
é o talho do Homem na sua melhor forma.

A todo o humano de boa vontade,
cristão ou não, crente ou caminhante,
que esta luz te encontre com suavidade
e faça de ti alguém sempre ressurgente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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BOAS FESTAS E UMA FELIZ PÁSCOA

A Páscoa é Acontecimento e uma Mensagem às Pessoas de Boa Vontade

A luz da Páscoa não teme as trevas porque entra nelas e transforma-as em claridade.
O Cordeiro de Deus toma sobre si as imperfeições da humanidade e da própria natureza, e convida-nos à reconciliação com tudo e com todos na aceitação humilde do real, como renascidos no espírito de Deus.

Reconhecer o espírito de Jesus Cristo é transformarmo-nos e transformarmos o mundo.
Ele rompe os laços da morte e através do Evangelho, da  boa nova, anuncia que a vida plena ressurgiu num tempo novo, propício a fundar uma nova cultura,  a cultura da paz e do Homem novo, cujo protótipo é Jesus Cristo.

É no silêncio mais pesado e nos lugares mais desanimados que irrompe a luz.
Depois da noite tenebrosa do caminho do Calvário, as mulheres que procuravam o corpo encontraram o vazio e esse vazio deu lugar àquela manhã de Aleluia, onde a amizade e a bondade renascem. É chegada a hora do tempo de reconciliação.
O que procuravam já não estava lá e, a partir desse instante, a flor da esperança espalhou o seu aroma: Não estamos sozinhos. O anseio mais profundo do coração humano encontrou a sua realização.

A alegria cristã reconhece que, no sofrimento, o Amor venceu a morte. A cruz pode tornar-se oportunidade, porque é o tempo de entremeio e tornar-se caminho. É sorriso que se oferece a quem nos fere e deste modo o raio de sol que cura feridas antigas, como o sol pode tirar as manchas na roupa posta a corar. A alegria cristã é mão estendida que abre veredas onde antes havia muros opacos.

A cruz de Cristo Salvador não é exagero: é a certeza de que o passado já não pesa, mesmo aquela cruz que pudéssemos ter recebido por herança.
O crente sabe que é apenas corresponsável pelos seus próprios actos  e não precisa de prestar contas a ninguém pelo que os antepassados fizeram. Somos seres libertos, libertados e libertadores, porque a própria cruz, no espírito de Cristo  assumida, pode tornar-se corredentora.

A Páscoa, como outras celebrações, fala aos cristãos directamente; mas fala também aos não cristãos, por analogias, imagens e parábolas válidas para toda a humanidade.

Boas festas a todos  e que a Luz ressuscitada habite em cada coração de boa vontade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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LAVA-PÉS NA ÚLTIMA SEIA NA NOITE DE QUINTAFEIRA EM JERUSALÉM

Jesus ensina que o verdadeiro senhor se faz servo

Na noite em que se consuma o mistério da sua entrega, Jesus de Nazaré realiza um gesto inaudito: levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e começa a lavar os pés aos discípulos. O verdadeiro Senhor torna-Se servo dos outros. Assistir e ajudar: eis o centro da renovação, que depende apenas da boa vontade de cada coração.

Pedro resiste, por humildade mal compreendida. Mas Jesus ensina: amar é abraçar, é inclinar-se sobre o outro, desde que o outro o permita. Com o exemplo, o Mestre resume a sua máxima: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” Nesse gesto, Ele resume todo o caminho do humano e da humanidade.

N’Ele se unem o céu e a terra. A cruz, que se avizinha, não é um palco de derrota: é a árvore da vida, assim como a árvore do paraíso terreno foi a árvore do conhecimento. No humano, encontramos ao mesmo tempo o Cristo abandonado e o Cristo ressuscitado. E n’Ele está presente o Deus que não abandona, mesmo quando as circunstâncias parecem gritar o contrário.

À mesa, porém, acompanha-O também Judas,  mais interessado na realização de ideologias políticas do que na comunhão do amor. Judas torna-se símbolo daqueles que, em nome de uma pretensa verdade, procuram desmontar o que existe apenas para se instalarem nos andores da idolatria egocentrista.

Jesus veio superar os dualismos e os maniqueísmos que, ainda hoje, persistem nos seguidores de Judas: todos os que trabalham para outros senhores, movidos por um coração tóxico que nunca é construtivo. O lava-pés permanece, pois, como antídoto e memória: a grandeza está em servir, não em dominar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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