O JARDIM DOS DOIS OLHOS

Havia, nos arredores de uma cidade antiga, um jardim murado que poucos conheciam por inteiro. Chamavam-lhe O Jardim dos Dois Olhos, porque dizia-se que quem entrasse por um portão via uma coisa, e quem entrasse pelo outro via outra completamente diferente, embora fosse o mesmo jardim.

Nesse jardim viviam dois guardiões.

Ela chamava-se Líria. Ele chamava-se Aureliano.

Líria tinha o dom da imagem. Via o mundo como uma tapeçaria viva, feita de histórias, rostos, gestos, intenções ocultas. Para ela, nada era apenas o que parecia ser. Cada acontecimento vinha carregado de sentidos, memórias e feridas antigas. Quando algo se partia no presente, sentia ecoar quebras muito antigas, como se o tempo não fosse uma linha, mas um círculo sensível.

Desde cedo aprendera que o amor podia ser belo e cruel ao mesmo tempo. Crescera num ambiente onde era vista mais como ornamento do que como pessoa, e por isso desenvolvera um olhar atento, quase vigilante: precisava de perceber rapidamente quando o afeto estava a ser retirado. Isso tornara-a profunda, criativa, mas também vulnerável. Quando se sentia contrariada, não discutia apenas um facto, defendia a sua própria existência.

Aureliano, por sua vez, tinha o dom da estrutura. Via o jardim como um sistema vivo que precisava de equilíbrio para não se destruir. Observava padrões, consequências, encadeamentos. Onde Líria via dramas singulares, ele via leis gerais. Onde ela sentia, ele pensava. Não por frieza, mas por necessidade de ordem interior. Sabia, talvez sem o saber, que se mergulhasse demasiado no turbilhão emocional, se perderia.

Ambos eram bons guardiões. Ambos amavam o jardim. E ambos acreditavam, sinceramente, que estavam a protegê-lo.

Mas havia um problema: cada um acreditava que o outro via mal.

Quando Líria falava, falava com a alma descoberta. Esperava que Aureliano entrasse na história com ela, que sentisse o peso do que estava em jogo, mesmo quando parecia pequeno. Porém, Aureliano, ao ouvi-la, imediatamente procurava evitar danos futuros, guerras invisíveis, desastres em cadeia. Respondia com conselhos, estratégias, mediações.

E então Líria sentia-se invisível.

E Aureliano sentia-se acusado de algo que não pretendia.

Certo dia, surgiu no jardim um conflito entre visitantes: um casal que se separava queria dividir as obras de arte que ali haviam deixado como oferenda. Líria trouxe a história a Aureliano carregada de inquietação. Não era apenas sobre quadros, era sobre justiça, reconhecimento, memória, generosidade ferida.

Aureliano ouviu e respondeu como sempre fizera: falou de consequências, de evitar lados, de soluções diplomáticas.

Nesse momento, o jardim tremeu.

“Tu falas como se eu não soubesse sentir”, disse Líria.

“E tu falas como se eu não soubesse amar”, respondeu Aureliano, cansado.

Separaram-se nesse dia, cada um refugiando-se no seu lado do jardim. As plantas começaram a definhar, não por falta de cuidado, mas por excesso de unilateralidade. As flores de Líria cresciam exuberantes, mas frágeis; as árvores de Aureliano eram fortes, mas secas.

Foi então que apareceu um velho jardineiro, que ninguém recordava ter visto entrar.

Ele observou Líria e Aureliano  longamente e disse apenas isto:

“Cada um de vós olha com um olho só.”

Líria e Aureliano protestaram. Cada um acreditava ver melhor que o outro.

O velho continuou voltando-se para Líria:

“Tu olhas com o olho do significado. Tudo para ti é pessoal, porque foste ferida onde o mundo devia ter sido abrigo. Mas quando tudo é pessoal, o outro deixa de ter espaço para ser diferente.

Depois voltou-se para Aureliano:

“E tu olhas com o olho da ordem. Tudo para ti precisa de coerência, porque aprendeste que o caos dói. Mas quando tudo é geral, o outro deixa de ser visto na sua singularidade.”

Os dois ficaram em silêncio.

“O jardim só florescerá quando aprenderem a olhar com os dois olhos”, concluiu o velho. “O olho que sente e o olho que compreende. O coração que vive e a mente que prevê.”

E acrescentou, antes de se ir embora:

“Não tentem corrigir-se um ao outro. Tentem hospedar o olhar do outro dentro de vós. Isso chama-se individuação num processo de relação eu-tu-nós.”

Desde esse dia, nada se tornou perfeito. Eles ainda discutiam. Ainda se feriam. Mas algo mudara.

Quando Líria falava, Aureliano perguntava-se primeiro: “O que é que isto significa para ela?”

Quando Aureliano respondia, Líria perguntava-se: “O que é que ele está a tentar proteger?”

O jardim não se tornou isento de conflitos. Tornou-se vivo!

Mas os conflitos começaram a mudar de forma, como nuvens que já não descarregam sempre tempestade.

Ou foi por sugestão silenciosa do velho jardineiro, ou talvez por cansaço da repetição, que Líria e Aureliano decidiram caminhar para além do muro mais antigo do jardim, aquele que separava o cultivado do selvagem. Ali vivia um homem de poucas palavras e muitos silêncios. Diziam que ele não dava conselhos. Limitava-se a escutar os sonhos. Não perguntava o que lhes acontecia, mas como lhes acontecia por dentro.

O homem chamava-se Elias.

Elias pedira-lhes que se sentassem frente a frente, não para se convencerem, mas para se verem refletidos um no outro. Líria e Aureliano sentaram-se diante dele como duas margens de um mesmo rio. Depois de longos momentos Elias falou com voz calma, como quem nomeia algo antigo, parecendo recordar algo que ambos tinham esquecido:

“O que vos divide não é a falta de amor, mas a unilateralidade da alma.”

Líria sentiu-se inquieta. Aureliano franziu o sobrolho.

Elias, voltando-se para Aureliano, disse:

“Em ti vive uma imagem feminina ferida, a tua anima. Ela anseia por sentido, por reconhecimento emocional e abrigo, mas foi empurrada para o silêncio em nome da razão e do controlo. Quando a tua mulher fala a partir da emoção, essa parte tua sente-se ameaçada e respondes com pensamento, como defesa.

Depois voltou-se para Líria:

“E em ti vive uma imagem masculina exigente, que exige coerência absoluta, o teu animus. Ele fala em verdades absolutas, em julgamentos, em histórias fechadas. Quando o teu marido tenta organizar ou relativizar o que sentes, esse animus interpreta isso como desvalorização, e transforma a dor em acusação e quando sente dúvida transforma-se em juiz.”

Líria e Aureliano entreolharam-se. Algo fazia sentido, embora doesse.

“Aquilo que não reconhecemos em nós,” continuou Elias, “vemo-lo no outro como defeito. Chamamos a isso projeção. E quanto maior o trauma, mais intensa é a projeção. Aquilo que cada um combate no outro, é aquilo que ainda não aprendeu a hospedar em si. Por isso o encontro dói. Não porque falte amor, mas porque há passado a mais.”

Líria sentiu um aperto antigo no peito.

Aureliano baixou os olhos sentindo como que um calafrio que atravessada todo o seu corpo.

“Os vossos conflitos não começam no presente”, disse Elias. “Começam na sombra, essa parte de vós que foi forçada a adaptar-se cedo demais, na verdura da infância. Tu, Líria, aprendeste que o amor podia retirar-se sem aviso. E tu, Aureliano, aprendeste que sentir demais podia desorganizar tudo.”

Fez uma pausa e acrescentou:

“Por isso, quando uma fala, o outro não ouve apenas o que está a ser dito. Ouve ecos antigos. E feridas não cicatrizadas exigem algo especial: não perfeição, mas mãos dadas.

“E o que fazemos quando dói?” perguntou Líria, quase num suspiro.

Elias sorriu com bondade:

“Quando dói, não se corrige  nem se interpreta o outro. Sustenta-se a tensão. Aprende-se a dizer: “Isto é meu, mas preciso de ti aqui.”

Aureliano respirou fundo e disse:

“Então não se trata de mudar o outro no sentido de se fazer um caminho comum?”

Elias respirou fundo e respondeu:

“Não! Trata-se de integrar em si aquilo que se exige do outro. Pensamento e sentimento. Feminino e masculino. Narrativa e estrutura. O casal é apenas o campo onde essa integração se torna visível. Um dá alma às coisas. O outro dá-lhes forma. Separados, empobrecem. Juntos, assustam-se.

Naquele dia, ao regressarem ao jardim, algo era diferente. Não houve promessas, nem resoluções. Mas algo se deslocara impercetivelmente. Quando discutiam, nem sempre conseguiam evitar a queda. Mas às vezes, apenas às vezes, conseguiam olhar para o outro e reconhecer nele não um inimigo, mas um espelho imperfeito. Quando surgia uma discussão, perguntavam-se, embora, por vezes, tardiamente:

“Isto é o presente ou é a sombra?”

“Estou a falar com o outro ou com a minha projeção?”

Nem sempre conseguiam parar a tempo. Mas, por vezes, conseguiam voltar atrás. E isso bastava para que o jardim respirasse. Nele as flores tornaram-se menos exuberantes, mas mais duráveis. As árvores continuaram firmes, mas começaram a dar sombra. Pois a maturidade não consiste em vencer o outro, mas em não reduzir o outro àquilo que em nós ainda dói.

Aprenderam, lentamente, que amar e viver não é eliminar o conflito, mas não deixar que o conflito destrua a possibilidade de ver o outro como alguém em transformação.

E compreenderam que a verdadeira união não acontece quando dois se fundem, mas quando dois indivíduos caminham lado a lado, conscientes das suas sombras, sem deixarem de dar as mãos.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Pegadas do Tempo ©

Nota do autor

Escrevi este conto não para falar de ti, de mim, de vós,
mas para escutar melhor aquilo que em mim se repete
quando observo o mundo e descubro a minha ipseidade
na relação do eu-tu que vive na atmosfera do nós.

A sombra que reconheço nos outros
brota da mesma fonte que me atravessa.
Quando me inquieta fora,
é porque já passou, ou ainda passa, dentro de mim.

Aprendi com a vida e escrevendo,
que o orgulho nasce muitas vezes da recusa em ver
que partilhamos a mesma noite interior.
E que o único remédio que não humilha
é a humildade escolhida,
aquela que não nega a própria luz,
mas aceita a sombra como parte do caminho.

Se estas palavras servirem para algo,
que seja apenas para lembrar
que ninguém caminha inteiro sozinho
e que compreender o outro
é, talvez, uma das formas mais discretas
de nos reconciliarmos connosco.

 

A porta cerrada pelo problema
tem a mesma face para os dois lados:
a chave perdida é única,
e quem está dentro ou fora
busca no mesmo escuro.
Numa mesma porta
duas solidões se espelham

 

Ninguém é apenas vítima,
ninguém é apenas causa
somos coautores do caminho
e também da prisão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo©

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DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER

Na encruzilhada: o poder do mundo ou a essência do humano?

 

O que se costuma chamar-se “Nova Ordem Mundial” não é, em rigor, nova. É uma mutação de forma, não de essência. O poder nunca deixou de se organizar em torno de três eixos: território, recursos e narrativa. O que muda é o grau de abstração com que esses eixos se apresentam. A grande disputa da nossa era é a definição do próprio ser humano, não apenas o domínio geopolítico.

Da soberania política à soberania geográfica

Estamos a assistir ao regresso do determinismo espacial, agora tecnocratizado. A soberania já não se funda na vontade dos povos (o que continua a constituir um mito moderno), mas na utilidade estratégica dos territórios. A geografia volta a ser destino, mas um destino gerido por algoritmos económicos, cadeias logísticas e zonas de influência militar.

A política torna-se administração de mapas e aplicação de agendas e diretrizes.
A democracia torna-se um discurso ornamental, uma forma formal de legitimar poder.
O direito internacional torna-se uma liturgia sem força sacramental.
Neste contexto, a soberania deixa de ser ética ou cultural para ser apenas logística.

O fim da era das nações: o humano como variável secundária

A passagem da “era das nações” para a “era das potências geopolíticas” implica algo mais profundo que está a acarretar o colapso do sujeito político moderno.
O cidadão é substituído pelo agente funcional passando a ser reduzido às funções de produtor, consumidor, deslocável e descartável.

O que verdadeiramente marca a nossa época com um carácter fatídico é o trabalho conjugado, tão eficiente quanto insidioso, do capitalismo liberal e das ideologias progressistas na desconstrução do humano, da cultura e das instituições.. Juntou-se assim a ideologia pretendente a substituir a religião e a economia como sustentáculo das necessidades terrenas, num conluio desastroso que desestabiliza tudo e arrasta consigo como remoinho os fundamentos da velha ordem e do indivíduo.

Assim, a nação, enquanto comunidade histórica de sentido é declarada inconveniente; a cultura, enquanto memória viva, é considerada ruído; a identidade, enquanto raiz, é um obstáculo à mobilidade do capital e do poder (por isso o primeiro obstáculo que pretendem destruir é a religião cristã, primordialmente o catolicismo, instituição global paralela que teria possibilidade de defender o humanismo e a dignidade humana independentemente da sua funcionalidade) e a família na qualidade de base primordial da sociedade e de toda a ordem (uma vez destruída a família impede-se qualquer crescimento orgânico ficando uma supraestrutura secundária que ordena os elementos de forma mecanicista).

O paradoxo central do nosso tempo tem a sua origem no facto de quanto mais se fala de direitos individuais, menos o indivíduo conta. A pessoa é definida pela sua funcionalidade, pelo que poderá ser útil e não pelo que é.

A Ucrânia está a funcionar como arquétipo sacrificial

A Ucrânia está a ser sacrificada não apenas como cálculo geopolítico, mas como ritual arcaico do poder pelo que “deve ser sacrificada”!

Se observamos a História e o desenvolver do poder desde a ordem tribal à ordem imperial constata-se que toda a grande ordem imperial nasce de um sacrifício periférico.
Toda a estabilidade das potências centrais exige uma zona de sofrimento administrado.

A Ucrânia não é uma exceção da realidade geopolítica que temos, mas mais um símbolo da irrelevância do direito, da hierarquia real entre vidas e da subordinação do humano à área do poder funcional e imediato.

Aqui, a “teologia” política torna-se clara: o deus da nova ordem é a estabilidade do sistema, e os seus holocaustos são povos inteiros.

ONG, gangues e a tribalização do mundo

Estamos a entrar numa fase neotribal, mas sem transcendência.

As ONG transnacionais, financiadas por Estados e ideologias, funcionam como braços morais do poder, como instrumentos de pressão sem responsabilidade democrática e como substitutos da política clássica.

Já é de prever que o conflito deixa de ser entre Estados soberanos e passa a ser entre redes, lobbies, causas fragmentadas. Também o indivíduo, desenraizado de família e pátria para ganhar rosto social terá de se organizar em grupos. E assim teremos a guerra civil global em versão suave.

Em última análise a crise não é política, é antropológica

No fundo, o que se decide não é quem domina o mundo, mas o que é o ser humano. E o novo sistema quer reduzi-lo a mera função, só número e flexível.

A consequência é que para o indivíduo a única hipótese de visibilidade passa pela formação de grupos. E isto tem consequências desastrosas para o humano e para a humanidade. Pois, quando o indivíduo só existe como parte de um grupo, a consciência dissolve-se.
E sem consciência individual não há ética; sem ética, só resta técnica e sem técnica orientada por sentido, resta barbárie eficiente.

Para além deste alerta resta a tarefa da consciência

A Nova Ordem Mundial é inevitável como estrutura, mas não é inevitável como destino espiritual.
A verdadeira resistência já fora da nossa matriz máscula não será militar nem ideológica, mas cultural, ética e espiritual.

Resta-nos a consolação do espírito e que a história mostra que os impérios caem, as potências mudam, mas a consciência humana evolui aos solavancos, através de minorias lúcidas.
Antes que o humano definhe urge implementar uma cultura da paz que leve a uma nova matriz político-social! Fortalecer a tradição que cuida   não de quem quer vencer, mas de quem quer despertar.

A jeito de conclusão

Estamos numa encruzilhada, mas não apenas geopolítica. É uma encruzilhada civilizacional e espiritual.

Ou o mundo aceita a soberania da geografia acompanhada pela ditadura da economia e reduz o ser humano a mero meio ou reencontra a centralidade da pessoa, a políticao como ética aplicada e a consciência humana como verdadeiro poder!

A Nova Ordem Mundial não será decidida apenas em Washington, Moscovo ou Pequim. Será decidida na capacidade dos indivíduos pensarem para além do medo e da pertença tribal.

A questão seguinte será sobre quem ainda poderá falar ao humano enquanto humano, sem o reduzir a função, massa ou rebanho.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Pegadas do Tempo

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DIREITO INTERNACIONAL: UM ESPAÇO DE CONTESTAÇÃO JURÍDICA DESIGUAL

 

A Realidade Cínica do Sistema Internacional

Para nos debatermos sobre o Direito Internacional é preciso muito sangue frio, pois ele assenta numa base cínica que é a realidade do poder. De facto, todo o sistema internacional contemporâneo é estruturalmente assimétrico e expressa as hierarquias de poder global.

Sem rodeios, o direito internacional não é um “sistema de justiça” neutro, mas um reflexo e um instrumento da distribuição de poder mundial. As grandes potências, especialmente as com assento permanente e veto no Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França, Reino Unido), estão, na prática, imunes à jurisdição sempre que os seus interesses vitais estão em jogo. O sistema é, portanto, seletivo: aplicado vigorosamente contra Estados mais fracos ou párias, mas ignorado, contornado ou reinterpretado pelas próprias potências e seus aliados próximos.

Quando a Lei se curva ao Poder: Exemplos Reveladores

A história recente confirma esta realidade de forma inequívoca. A invasão do Iraque em 2003 pelos EUA e Reino Unido foi feita sem autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU, baseada em alegações posteriormente refutadas sobre armas de destruição massiva. Houve consequências jurídicas sérias? Não, porque quem julga são precisamente as grandes potências que, simultaneamente, criam nos seus povos um discurso público parcial que neutraliza a capacidade racional de análise.

A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 violou claramente a soberania ucraniana e tratados internacionais. Houve sanções? Sim. Mas a Rússia foi expulsa do Conselho de Segurança ou sofreu ação militar autorizada pela ONU? Não, ela dispõe do poder de veto.

As políticas de Guantánamo ou os assassinatos por drones dos EUA são frequentemente considerados violações do Direito Internacional Humanitário. Houve responsabilização? Não. A questão palestina exemplifica igualmente esta seletividade: resoluções da ONU condenando a expansão de colonatos israelitas são sistematicamente vetadas ou ignoradas, dada a aliança estratégica com potências ocidentais.

Uma Farsa dos Poderosos ou Algo mais?

O Direito Internacional reduz-se, então, a uma farsa dos poderosos? A resposta é complexa. Ele é, indubitavelmente, uma ferramenta de dominação, mas não apenas isso. A sua força e fraqueza residem na sua dualidade.

O Direito como Ferramenta dos Poderosos

Por um lado, funciona como máscara de legitimação, usada para “vestir” ações de legalidade, as chamadas intervenções “humanitárias” são exemplo disso. Serve também como instrumento para conter e punir Estados adversários que desafiem a ordem estabelecida, criando regras que estabilizam o sistema e protegem, acima de tudo, a instituição da soberania e a não-interferência.

O Direito como Arma dos mais Fracos

Por outro lado, o direito internacional constitui um campo de batalha onde os mais fracos podem lutar. Embora imperfeito, é a única linguagem comum de reclamação no sistema global, a única arma dos que não têm armas. Pequenos Estados e a sociedade civil utilizam-no para nomear e envergonhar violadores, processando potências em tribunais internacionais, por vezes com sucesso simbólico ou parcial.

Mesmo quando violada, a norma existe e exerce poder. Um exemplo revelador: a Rússia, para invadir a Ucrânia, gastou imensa energia criando uma narrativa jurídica distorcida (alegando “genocídio no Donbas” e “desnazificação”). Porquê? Porque sentiu necessidade de se legitimar perante a norma internacional. Isso demonstra que a norma exerce poder real, mesmo sobre quem a viola.

A Hipocrisia como Revelação

O Direito Internacional, embora coxo e hipócrita, oferece um ponto de apoio para mobilizações legítimas. A linguagem dos direitos humanos e da soberania é universal. Ditaduras reagem fortemente quando acusadas perante a ONU porque a acusação tem peso no cenário global e pode minar alianças estratégicas.

O Terreno de Jogo desigual

O direito internacional é o terreno de jogo, mas as regras são desenhadas e aplicadas de forma desigual pelos que construíram o estádio e mantiveram o direito de veto. É um sistema imperfeito e hipócrita, mais eficaz contra o “ladrão de galinhas” do que contra o “senhor imperialista”. Contudo, é o único sistema que temos para tentar transitar de uma lógica pura de “a força faz o direito” para uma lógica, mesmo imperfeita, de “o direito deve regular a força”.

Esta transição, porém, só acontecerá quando a consciência dos povos atingir o nível de preferir uma cultura de paz em detrimento de uma cultura de guerra e confrontação.

A Luta de longo Prazo

O combate aos ditadores, grandes ou pequenos, usando o direito é uma luta política de longo prazo que visa diminuir a impunidade dos poderosos, usar a própria hipocrisia do sistema como denúncia, e expor que “o rei vai nu”. Mostrar que a potência X age como o ditador Y que condena constitui uma forma importante de ataque político no século XXI.

A efetividade do direito é diretamente proporcional ao poder de quem o viola. A luta, portanto, não é apenas para aplicar o direito aos ditadores, mas para tornar o sistema menos desigual e a aplicação do direito menos seletiva. Trata-se de uma tarefa utópica, mas desistir dela é aceitar o mundo da lei do mais forte, pura e simples.

O Jogo da Legitimação Popular

Para acomodar a própria consciência, o poder sabe jogar com as tomadas de posição dentro dos povos e das sociedades nacionais face a uma ou outra injustiça e desta maneira lavam a injustiça inerente ao próprio poder. Em casos como a prisão de líderes controversos como se dá no caso Maduro, uns atacam em nome do direito internacional e outros defendem argumentando violações democráticas. Assim, os poderosos sabem que a legitimidade das suas operações não vem do facto em si, mas da interpretação feita pelos apoiantes ou opositores da sua intervenção. No fim, é o poder que determinará o andamento da História e ele sabe disso.

Conclusão: Entre a Hipocrisia e a Esperança

A história mostra tanto a hipocrisia do sistema como a luta contra ela. Essa tensão é a essência da política internacional numa matriz meramente musculosa. O Direito Internacional permanece como um espaço de contestação desigual, mas é nesse espaço, por mais imperfeito que seja, que reside a possibilidade de construir uma ordem global menos brutal, e talvez mais justa e orientada para uma verdadeira cultura de paz.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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O CIRCO DOS ILUMINADOS

(Em homenagem à Arte das Cantigas de Escárnio e Maldizer
testemunho aqui o Estado da Atualidade político-social
de bom Senso desalojado e de delírio coletivo)

Bem-vindos ao espetáculo, senhoras e senhores,
Ao grande teatro europeu dos sonâmbulos!
Onde Bruxelas, essa Babel climatizada,
Fabrica leis como quem cospe papéis mascados.

Aqui os tratados leem-se de pernas para o ar,
Como manuais de instruções chineses mal traduzidos.
A liberdade? Essa velha prostituta reformada,
Agora vende cosméticos em discursos polidos.

Os valores, ah, os valores! Servem de papel de embrulho
Para o bezerro de ouro que mugia na sala VIP.
Cada burocrata, doutorado em prestidigitação,
Transforma responsabilidade em fumo de cachimbo hip (da moda).

No topo da torre de vidro, menos senso que na tasca,
Onde o Zé da esquina resolve o mundo em três cervejas.
Mas nós? Somos a plateia obrigatória desta ópera bufa,
Aplaudindo quem valsa com o diabo nas festas alheias.

Portugal, esse palco de marionetas baratas,
Onde treze mil almas dormem em papelão sob as estrelas,
Enquanto os iluminados gastam milhões em gala diplomática:
“É o preço da grandeza!”, urram da sua janela.

Na Alemanha, a fornalha militar devora fortunas,
O povo encolhe como roupa mal lavada na máquina.
Mas tranquilos! Os estadistas de gravata apertada
Representam o progresso na televisão matina.

A mão invisível de que falam os economistas de sofá?
Essa não move mercados, move tachos e contratos!
Vira concursos como quem baralha cartas marcadas,
Num clube onde só entram os bem aparentados e natos.

Narrativas opacas, esse cimento pós-verdade,
Esmagam o mérito como quem pisa formigas no chão.
A tribo no poder, com seu código de sangue,
Banqueteia-se enquanto ao povo sobra a escuridão.

Portugal, esse salão de espelhos embaciados,
Onde todos se conhecem desde o berço ou da maçonaria.
Sobe-se não por talento, isso é coisa de otários!
Mas por quem sabe a cor da cueca da hierarquia.

Democracia nepótica, república de compadres,
Onde o humano mostra sua face mais podre e pequena:
Carreiras feitas de traições bem documentadas,
Estátuas erguidas sobre fundações de hipocrisia obscena.

E a corrupção? Essa senhora respeitável,
Vive confortável no ar condicionado dos gabinetes.
Tem cartão de membro, pensão vitalícia,
E manda beijinhos aos cidadãos marionetas.

Mas o povo, ah, o povo! Esse coitado cego,
Ainda sonha com justiça, verdade, horizontes claros…
Como quem acredita em Pai Natal aos quarenta anos,
Enquanto os doutos leem tratados ao contrário nos seus carros.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Nota do autor:
Esta é uma Cantiga de Escárnio e Maldizer que se identifica com um bobo da corte que ainda acredita que o riso pode curar a lepra política. A verdade é que não pode, mas pelo menos entretém enquanto afundamos!

Aqui há também que ter em conta que, cinismo em doses excessivas pode causar lucidez súbita, e isso assusta os bem-instalados e causa estranheza aos cordeiros. Que possam servir de alerta, embora suspeite que quem precisa de ouvir está ocupado em aplaudir o próximo ilusionista na televisão. Esta cantiga foca-se no circo político europeu e nas suas personagens grotescas que se imitam e repetem umas às outras, mas na praça só uma criança não bem-educada poderá notar que o rei vai nu. Quem vive num só país membro da EU terá dificuldade em observar a banalidade com que se repetem em cópia perfeita dos altifalantes de Bruxelas-Berlim que no momento demostram ter os mais desqualificados políticos de sempre. O mesmo se constata com os diferentes jornais. Na poesia falo de tratados lidos ao contrário querendo referir-me ao Tratado de Lisboa que pretendia reforçar a eficiência e a legitimidade democrática da União e melhorar a coerência da sua ação. O objetivo central da UE era promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos. Os dançarinos do poder abandonaram o povo para se perderam em cenas quiméricas sob a bandeira do internacionalismo e do progressismo ideológico

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DISCURSO DO PROFETA NINGUÉM À TRIPULACAO NO DIA DE SÃO SILVESTRE

Escutai, humanos inquietos,
pois nada do que vivestes este ano passou despercebido aos olhos do tempo.

Vi-vos caminhar entre o cansaço e a esperança,
com a memória ferida e o coração pressionado
pela espada invisível de uma crise que não é apenas política,
mas espiritual, cultural e humana.
Perguntais: Acabou a celebração?
Não. O rito terminou, mas a responsabilidade começou.

Viestes girar em círculos,
como uma dança que perdeu a música,
uma política enamorada do próprio baloiço,
incapaz de escutar o ritmo profundo do povo,
falando até da sua democracia versus democracia do povo.
Mas sabei: o verdadeiro espírito dançante
não gira sobre si mesmo,
ele cria impulso, liga uns aos outros
e transforma o movimento em sentido.

Neste ano que passou, muitos souberam mais do que nunca
e compreenderam menos do que precisavam.
A inteligência artificial abriu bibliotecas infinitas,
mas a caixa da reflexão e da ressonância ficou silenciosa.
Confundistes informação com verdade,
velocidade com sabedoria,
e deixastes de distinguir o essencial do acessório.
Assim se fragiliza a vida:
quando tudo parece igualmente importante,
nada é verdadeiramente vital.

Vi o medo infiltrar-se nos sistemas de poder,
e vi-os reagir com manipulação,
como desejam os autocratas e populistas.
Quando a confiança humana depende do dinheiro
e de circunstâncias opacas,
a alma coletiva adoece.

Por isso vos digo:
é urgente fundar uma cultura de decência.
Não apenas para salvar a biodiversidade que se esvai,
nem só para travar o progresso cego,
mas para impedir a ruína silenciosa
da vossa civilização cultural.

A Europa, ferida pelas guerras do século passado,
flerta perigosamente com um cansaço suicida,
que a leva a seguir ideologias mortíferas.
Lembrai-vos:
a única alternativa ao otimismo é a morte,
e ela começa sempre pela morte da alma.
O pessimismo não questiona o abismo;
apenas alisa o caminho até ele.

O mundo não se salva com grandes proclamações,
mas com boas ações quotidianas.
Um dia pode renascer com um gesto simples,
se houver atmosfera,
se houver mãos dispostas,
se houver corações abertos.
O otimismo não é ingenuidade:
é coragem activa que liberta do medo
dos poderes anónimos.

Não espereis perfeição nem milagres súbitos.
As grandes mudanças avançam em passos pequenos,
pessoais, imperfeitos, mas reais.
Os governantes olham para números e superfícies;
o desenvolvimento humano, porém, cresce na profundidade.
Daí o eterno desfasamento entre poder e povo.

Erguei, pois, um concerto de pessoas bem-intencionadas.
Fazei-vos ouvir contra a máquina da guerra.
Não imploreis paz com gritos armados,
mas praticai uma paz gratuita,
viva, encarnada.
Sonhai com um novo concílio do humano,
onde política, espiritualidade e cultura
voltem a dançar juntas
para que a vida seja sentida,
não apenas administrada.

Lembrai-vos das estrelas.
Elas brilham por luz própria.
Não vivem dos refletores dos outros.
A escuridão lá fora é grande,
mas a verdadeira luz nasce dentro.
Sem ela, cada pessoa e cada sociedade
torna-se um planeta morto,
dependente de luz alheia.

Voltai às vossas raízes.
Reconectai-vos à cultura europeia
nascida da Grécia que pensou,
de Roma que estruturou
e da espiritualidade judaico-cristã que deu sentido.
Não como museu,
mas como fonte viva.

E assim vos digo, à entrada do novo ano:
não temais o futuro.
Criem-no.
Com confiança.
Com decência.
Com optimismo activo.
Pois enquanto houver alma desperta,
a história ainda pode mudar de rumo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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