LÁ NO OLIMPO ACIMA DAS NÚVENS

No Olimpo das elites não há partidos,
só o poder, espelho de si mesmo,
interesses como colunas, firmes,
varrendo diferenças ao abismo.

Identidade e missão: pôr ordem
nas massas sem rosto, desalmadas,
nutridas pelo medo que goteja
dos altifalantes da casa dos deuses.

Acima das nuvens, sol perpétuo.
Abaixo, o povo come tempo:
chuva, desolação, névoa espessa,
enquanto os ventos tóxicos sopram
a moral ocasional, veneno doce
que defende do caos, dizem.

Dois pés para andar: um conservador,
outro progressista e o sistema
explica as suas falhas na complexidade.
A política, sem alma, é só macho
a abusar do corpo da cidade.

Que fazer? Não identificar o bem
com sigla ou cor. O bem é objetivo
do Estado e do povo. Mas como medi-lo?
Não é consenso, nem opinião privada:
é consciência. Arte do possível,
onde não há verdades finais,
só consensos feitos de compromisso.

Política não é catequese.
É um bem menor, que aceitamos
para, com espírito crítico, renovar.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

TOMÁS DE AQUINO E O CONHECIMENTO

O teólogo e filósofo Tomás de Aquino, que viveu há 800 anos, ensinou:
«O máximo que o ser humano pode alcançar no conhecimento de Deus é saber que não conhece Deus».

Esta afirmação não é uma rendição da razão, mas a sua mais elevada realização. Tomás de Aquino, mestre do pensamento sistemático, dedicou a vida a ordenar o conhecimento divino e humano e, no cume da sua obra, reconheceu o Mistério inapreensível. A verdade última não é possuída, mas aproximada; não é esgotada pelo conceito, mas acolhida com humildade intelectual ou religiosa na experiência mística no mais íntimo da pessoa.

Este reconhecimento da limitação do conhecimento humano é, paradoxalmente, o que nos liberta para uma compreensão mais profunda: o que pensamos é pouco em relação ao que se vive. A experiência humana, com os seus sofrimentos, buscas e epifanias, muitas vezes ultrapassa os limites da linguagem e da doutrina. E é nessa dimensão experiencial que a necessidade da existência de Deus se revela, não como mera conclusão lógica, mas como encontro, experiência, sentido e fundamento para a existência.

As religiões, quando fiéis à sua essência, não devem servir de muros de separação, mas de escolas de respeito: respeito por Deus, pelas religiões e pelas crenças. Esse respeito nasce precisamente da humildade tomista, se ninguém esgota o conhecimento do Divino, ninguém pode monopolizar a sua voz. Cada tradição espiritual torna-se assim uma linguagem possível para dialogar com o Inefável, e cada crente, um peregrino em busca de sentido.

Hoje, num tempo de ruído, dogmatismos e abismos narrativos, a herança de Tomás de Aquino ressoa com urgência. De facto, o diálogo genuíno começa quando admitimos os limites do nosso próprio entendimento. A fé não se opõe à razão, mas convida-a a transcender-se. O respeito pelas crenças alheias não é relativismo, mas reconhecimento da dignidade da busca espiritual do outro.

Assim, construir pontes, entre fé e ciência, entre mundivisões e tradições, entre certezas e dúvidas, exige aquela atitude tomista de busca humilde, onde a pergunta vivida vale mais do que a resposta prepotente.

A atitude de reverência perante o Mistério e de respeito perante o outro é uma característica fundamental do ser humano e da humanidade. Sem ela, fechamo-nos em ilhas de arrogância. Com ela, mesmo na diferença, reconhecemo-nos como caminhantes à procura da mesma Luz.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

Social:
Pin Share

TRILOGIA DA UNIDADE VIVA

(eu – tu – nós)

EU, NO SER PARA…

Eu pensava ser inteiro.
Caminhava fechado no meu nome,
habitante fiel do meu limite.

O meu eu era voz única,
correta, sempre na frente,
bem treinada na arte de se defender.
Sabia dizer sou,
mas não sabia ainda para.

 

Havia em mim desejo,
mas girava em órbita própria,
como estrela que se basta
e por isso não ilumina.

Foi então que descobri
que o eu, sozinho,
é apenas possibilidade.
Não plenitude.

O eu é pergunta
antes de ser resposta.
E o meu eu, sem saber,
esperava.

 

 

TU, VOZ PRESENTE

Quando surgiste,
não vi um espelho
nem um oposto.

Vi um chamamento.

O teu olhar não me explicou,
deslocou-me.
Fez-me sair de mim
sem me perder.

No tu,
o meu eu deixou de ser centro
e aprendeu a ser relação.
Descobri que existir
é permitir-se atravessar.

Entre mim e ti
nasceu uma tensão criadora:
nem fusão,
nem distância.
Um espaço vivo.

O tu não me completou.
Revelou-me inacabado,
e por isso capaz de mais.

Foi aí que percebi:
o eu e o tu,
quando verdadeiros,
não se encerram um no outro
abrem-se no lugar da saudade
pra gerar um terceiro.

 

NÓS NO SOPRO QUE É ESPÍRITO

Do encontro
nasceu algo que não era
nem eu nem tu.

Um terceiro ritmo.
Um sopro que parece vir do divino.

Não o criámos,
aconteceu-nos.

O nós não é soma,
é emergência.
Não pertence a nenhum,
mas habita em ambos.

É espírito de relação:
invisível, mas real.
Não se vê, mas sustém.

Neste nós,
o eu não desaparece
e o tu não se dissolve.
Ambos se transfiguram.

Aqui,
a masculinidade e a feminilidade
deixam de disputar espaço
e tornam-se linguagem comum.
Força que acolhe,
ternura que decide.

O nós é alma viva,
terceira realidade
nascida do amor que se oferece
sem se perder.

Talvez o “Espírito”:
não como conceito,
mas a vida que deixa de caber
nos pares opostos
e transborda
para lá de qualquer dualidade.

A dialética serviu o caminho,
mas agora cai como andaime.
O que permanece
é unidade respirante.

E nesse nós,
mais fundo que o existir,
sinto que o ser
se aprende a dizer-se
na plenitude da fórmula trinitária

António da CD Justo

Pegadas do Tempo

 

Nota do autor

Este e outros poemas que agora ponho a público fazem parte do ciclo de textos poéticos que elaborei em 2014 quando andava a preparar o livro “TRINDADE – Nova forma de ser e de estar”. A escrita de artigos do dia a dia tem-me impedido de publicar alguns livros que se encontram desde 2010 à espera de serem acabados ou de serem publicados.

Social:
Pin Share

ANTES DO NOME ESTÁ O NÓS

Não somos dois.
Somos o lugar
onde dois aprendem a cessar
para se encontrarem no nós.

Em nós,
a masculinidade não domina
nem a feminilidade se recolhe,
apenas se escutam e palpitam.
Trocam o fogo e a água
sem se anularem.

Trazemos cada um
vozes antigas no peito,
o gesto que avança
e o que acolhe,
a lâmina que decide
e a mão que permanece.
No nós,
essas vozes desaprendem o medo
e tornam-se respiração comum.

Não nos unimos
para fugir de nós mesmos,
mas para nos transcender.
O eu chega até onde pode,
depois abre-se e chama-se nós.

Aqui,
o desejo não é posse,
mas sim, afinação.
Dois ritmos a procurar
uma mesma música
sem partitura.

Somos o instante
em que a diferença
não separa
nem confunde,
mas gera ressonância
e cria profundidade.

Quando dizemos nós,
o tempo abranda,
como se aprendesse
uma nova gramática.
O futuro não é promessa,
é presença em estado nascente.

Não há vencedor nem vencido,
ativo nem passivo,
céu nem terra,
há aliança.

E nessa aliança
o masculino encontra repouso,
o feminino encontra força,
e ambos se reconhecem
como linguagem de um só sentido.

Somos nós
quando o eu já não teme perder-se
e descobre que só assim se encontra.
(Como espelho da relação da Trindade)

António CD Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

COMPENSAÇÃO FINANCEIRA ENTRE OS ESTADOS ALEMÃES EM 2025

Exemplo de sensatez nacional e de solidariedade

 

Na Alemanha, os estados mais ricos apoiam, financeiramente os estados com padrões económicos mais baixos anualmente.

Assim, em 2025, quatro estados federais apoiaram os outros 12 estados federais (os chamados Estados doadores e os  Estados beneficiários).

A Baviera contribui com uma transferência de compensação de 11,7 mil milhões de euros, Hesse com 4 mil milhões de euros,  Baden-Wurtemberg com 4 mil milhões e Hamburgo com 0,3 mil milhões.

António Justo

Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share