O MAR DE LUZES DA BRANCA

Entre a Quinta Outeiro da Luz, Aveiro, a Barra e Espinho, a luz estende o nosso olhar e convida-nos a permanecer em cada mirada, a vir e sempre de novo voltar, para manter no coração aquela luz que nos faz brilhar.

Quando em São Julião, na Branca, o sol rubro se vai deitar,
um derradeiro brilho rasga o horizonte aberto sobre o mar.
Mal cessa a bênção do dia e a sombra desce em modo devagar,
da encosta, em suave romaria, um rio de luzes corre para o mar.

Primeiro uma, depois outra se acende e a noite faz da terra outro céu;
cada luz que ao longe resplende guarda uma vida por detrás do véu.
Ali dormem sombras, amor e dor, romances sob o mesmo teto;
cada casa tem seu fulgor, seu fado, seu sonho mais secreto.

Somos todos filhos da Luz, misteriosos no voo estelar;
atrás dela vamos, pequeninos, como quem procura onde ficar.
Pois toda a luz que lá fora arde tem sua nascente no nosso peito;
como o vulcão que se fez terra e tarde e no pirilampo renasce perfeito.

Da Quinta Outeiro da Luz, ao fim do dia, o olhar se estende até ao mar;
o Sol despede-se sobre a ria como quem parte e promete voltar.
A Terra repousa, horizontal, serena, entregue à paz do entardecer;
e cada luz que no horizonte acena parece alguém que voltamos a ver.

E nós, do alto, em silêncio, a olhar, não sabemos quem chora ou quem sorri;
mas cada luz, a caminho do mar, traz-nos alguém que já passou por aqui.
Decerto um rosto, talvez um amigo, uma voz que o tempo não levou;
alguém que já não caminha comigo, mas dentro de mim a luz guardou.

Então já não vemos só a paisagem, mas vidas acesas na amplidão:
pequenas luzes na breve viagem que o tempo recolhe no coração.
O Farol da Barra acena ao Mar, a ria de Aveiro alonga o seu brilho capuz;
e Outeiro da Luz fica, em silêncio, a olhar a noite acender-se luz após luz.

Então compreendemos, sem saber porquê, que há luzes que o tempo não desfaz:
ficam em nós, mesmo quando não se vê quem as acendeu e ficou para trás.
E quando a última claridade se desfaz e a noite abraça a ria e o mar profundo,
a luz apaga-se no céu, em paz, para se acender em nós e no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :  https://antonio-justo.eu/?p=11346
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

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TRÍPTICO – DO ESTRUME À FLOR

A ARGAMASSA

Mistura-se o cimento da tristeza
com a cal viva da alegria que adivinha,
e desta pasta espessa, quase lama,
ergue-se a casa que não tem dono.

Andamos no lodo, mas é desse barro
que a mãe faz o regaço onde nos deitamos,
e o padrasto, a lei, a governação,
põe o telhado e cobra-nos o sol.

Que o estrume que cada um carrega,
esse peso mole de dias roídos,
de sonhos apodrecidos na gaveta,
seja o adubo da flor que há-de vir.
Não para enfeitar, mas para ser comida
por quem passa sem mesa nem abrigo.

 

A OFICINA E A ESTRADA

Lá fora, cordeiros pastam o medo.
Lobos de gravata cerram o cerco.
Monstros psicopatas, de olhar de vidro,
traficam a alma na esquina da lei.

Hordas de profissões, todas a ganhar a vida,
servem agendas que não escreveram,
engrenagens de um modelo que devora
os próprios dentes da concorrência.

Mas de madrugada, quando o sono é mais fundo,
os varredores de rua iniciam o dia.
E nas oficinas de reparação da sociedade,
psicólogos, assistentes, médicos, enfermeiros,
suturam feridas que ninguém vê,
remendam a casa que nunca foi sua.
Uns constroem, outros consertam,
mas a casa é de todos e de ninguém,
passagem, pouso, cais provisório.

Não tema a miragem que o sol desenha,

que a sede ensina aonde fica a fonte.

O deserto é vasto, mas a mão que acena

é a mesma que constrói a ponte.

 

O RIO E AS JANELAS

Ao lado da casa, que milagre!
corre um rio vivo e honesto.
Não negocia, não pede licença.
É a solidariedade que não cabe em gráficos,
a bondade que flui sem fatura
e alimenta as fundações da casa.

Das janelas, avistam-se os cenários:
gente má, fruto da miséria humana,
que manda sobre a miséria humana,
onde tudo parece abandonado ao seu destino
como um barco sem remo na noite.

Mas a flor nasce do estrume.
O fruto acena no ramo.
E quem passa colhe sem saber
que aquele sabor a terra e a lágrima
é a argamassa de todas as casas,
é o rio que corre, é a janela aberta.

E se a casa não pertence a ninguém,
que nela habitem os que a constroem,
que a reparem os que a veem ruir,
que a regue o rio dos que dão sem pedir,
e que do estrume de cada um
brote, ao menos, uma flor comestível
para o próximo que passa.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Dos tempos de estudante em Lisboa,
no cais da argamassa viva

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A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

A Pobreza não é Moeda política dos de Ontem nem dos de Hoje

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de “nós contra eles”, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre “bons” e “maus”, servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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A DESFOLHADA NA BARROCA E A PRÁTICA DO TERÇO

Cantam vivas, vivamente,
As mulheres na Barroca,
Entre o milho reluzente,
Onde a lua o campo toca.

Vêm rapazes de outras bandas,
Serandeiros no serão,
Trazem fúrias, trazem danças,
Cobiçando algum coração.

E na força do gigo cheio,
Que se carrega ao canastro,
Grita a moça sem receio,
Sob o brilho de algum astro.

Casar cedo… dor (1) ou espanto,
Cantam quadras sem ter medo,
Pois a vida tem mais manto,
Se se acorda este brinquedo.

Cai a noite, cai o dia,
Senta a mesa a santidade (2);
Onde a conta da agonia
Vira prece de verdade.

Beijo dado, bênção posta,
Toda a mágoa ali fenece…
Deus segura a corda oposta,
E a Várzea adormece.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : 
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Alusão às cantigas talvez pedagógicas, marotas nas desfolhadas à volta das espigas do milho: “Minha mãe casai-me cedo, que me dói a passarinha! – Ó filha coç’à c’o dedo, que eu também cocei a minha!” Ao descascar o milho, aquele que encontrava uma espiga de milho-rei tinha a sorte de ir à roda abraçar e beijar todos.
(2) Referência ao costume da reza do terço, como momento de entrega e paz à noite para encerrar o dia. Barroca é uma quinta da freguesia de Várzea.

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