A PROFUNDIDADE DO ADVENTO

Espera que arde e Esperança que encarna

A Arte de esperar acordado

O Advento não é simplesmente um tempo de preparação para o Natal. É, antes de tudo, uma escola da existência, um ritmo espiritual que nos confronta com a condição humana mais fundamental: a de seres em espera. Como escreveu Simone Weil, “a espera é a mais alta forma de atenção” e o Advento é justamente o exercício dessa atenção radical. O mundo, na sua brutalidade e beleza, escapa ao nosso controlo. De facto, não podemos salvar o mundo, nem proteger as pessoas do mal e do erro.

Esta impotência, porém, nunca pode justificar uma resignação bovina, uma vida reduzida à erva rasteira ao nível do chão. Tal atitude seria uma traição à nossa própria natureza. A vida, com toda a sua majestade e mistério, é muito maior e mais expansiva do que os estreitos limites da nossa compreensão. Santo Agostinho recorda-nos: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

É precisamente esta consciência da nossa finitude e falibilidade que nos torna dependentes da graça e da misericórdia. Contudo, paradoxalmente, essa dependência não anula a vontade; pelo contrário, ilumina-a. Não apaga a vontade de sermos esperançosos buscadores. Pelo contrário, é a partir deste reconhecimento humilde que a busca verdadeiramente pode começar. O Advento é o apelo solene a essa busca esperançosa a esta inquietação luminosa que nos empurra para o alto.

Deus dispõe… através das nossas Mãos

Já Séneca dizia: “Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis.”

O homem propõe e Deus dispõe. Este antigo adágio não nos condena à passividade, mas revela a colaboração sagrada da história. Deus dispõe, mas fá-lo através das mãos humanas que aceitam realizar a Sua mensagem. Nós somos, de facto, as mãos de Deus. Como escreveu Teresa de Ávila: “Cristo não tem agora outro corpo senão o teu.” O Advento ou se realiza em nós ou não se realiza.

Este é o cerne da responsabilidade espiritual: mesmo quando o mundo parece destinado à decadência, à ruína ou à repetição horrível de ciclos de violência, a nós é deixada a iniciativa de, no nosso pequeno espaço, germinar o novo. O Verbo fez-se carne, mas continua a precisar de corpos que O encarnem no tempo. O nosso “devir” é este contínuo processo de gestação, que só termina com o último suspiro.

E nesse respirar há uma saudade da paz que é o sopro divino dentro de nós. Contudo, essa paz não é fuga; não pode esconder-se em recantos interiores, recusando-se a encarar a fealdade que a ameaça de fora e de dentro. “A paz não é a ausência de conflito, mas a presença de justiça,” recordava Martin Luther King Jr.

A fealdade é vasta e a vida aponta muitas vezes para os infernos da impotência, da insegurança e da barbárie que tantos são forçados a habitar. Aponta para o purgatório da indiferença sarcástica que nos permite viver ao lado desses sofrimentos, anestesiados pela enxurrada de notícias que nos informam sem nos transformar.

O Incenso e o Fogo interior

Como manter a esperança diante deste abismo?

A esperança é como o incenso da nossa vida. Procuramos nele resiliência, coragem e paz. Mas esquecemo-nos: para respirarmos o seu aroma, algo tem de arder. A verdadeira esperança adventícia não é um sentimento confortável; é um fogo que purifica. Exige que algo em nós seja consumido: a indiferença, o comodismo, as ilusões de autossuficiência.

Vivemos no entremeio, no território tenso entre a contemplação e a ação, entre a paz interior e a luta contra a fealdade exterior. Só nesse entremeio nasce o discernimento. Para isto aponta Bonhoeffer quando dizia: “A ação nasce do pensamento responsável; mas só quem espera pode realmente agir.”

A Luz que já veio e ainda espera por nós

É nesta tensão que o paradoxo central do Advento resplandece: esperar pelo que já chegou e se encontra soterrado nas cinzas de cada um de nós. A Luz já veio ao mundo; o Reino já irrompeu em Cristo. Mas, como uma semente ou uma brasa sob cinzas, aguarda a nossa cooperação para se reacender e crescer.

A esperança, portanto, não é a expectativa vaga de um futuro melhor. É a expectativa de que algo aconteça em nós. É a força ativa de quem, sabendo que a vitória final é certa, luta no presente para que ela se manifeste. É a força da onda que avança contra a que a envolve e faz retroceder.

Neste caminho surgem aqueles que mantêm uma atenção especial: os profetas do nosso tempo. São os que percebem a inquietação antes dos outros, os que expressam a perturbação silenciosa que nos sacode do torpor. Neles, algo da orientação divina pode revelar-se. Eles são os arautos do Advento, lembrando-nos que a espera não é vazia, mas grávida de Deus.

O Advento convida-nos a uma espera ativa. É um tempo para deixar arder, como o incenso, os nossos medos e egoísmos. Um tempo para escavar as cinzas do nosso cansaço e cinismo e reencontrar a brasa da promessa divina. Um tempo para, com as mãos de Deus que somos, trabalhar para aliviar os infernos e purgatórios à nossa volta, por pequena que seja a nossa ação.

E é, sobretudo, um tempo para reafirmar, com uma fé que é confiança radical no que virá, que enquanto houver um coração humano em espera, a Luz não se apagou. A onda do Espírito continuará a avançar, até que a espera se dissolva no encontro e a esperança dê lugar à visão preanunciada no presépio.

A Título de Conclusão

Conta-se que, numa aldeia perdida entre montanhas, havia uma sentinela que todas as noites subia ao alto da colina para vigiar. Muitos riam dela, pois o horizonte estava sempre escuro e nada acontecia.
Uma noite de inverno, um jovem da aldeia perguntou-lhe: “Porque sobes tu, se nunca vês nada?”
A sentinela respondeu: “Eu não subo para ver. Subo para que, quando a luz vier, não a encontre sozinho a dormir.

O jovem ficou silencioso, e a sentinela acrescentou: “E quando o frio me vence, faço o que posso: sopro a minha pequena brasa. Se ela se apagar, como aquecerei quem vier pedir-me calor?”

Na primavera seguinte, uma tempestade devastou a aldeia. Muitos procuraram abrigo na colina. Lá encontraram a sentinela, e ao seu lado, humilde, mas viva, a pequena brasa que aquecia as mãos de todos.

E foi então que compreenderam: a sentinela não esperava porque via a luz, esperava para que a luz tivesse quem a visse.
E a brasa, pequena como era, não salvou o mundo; mas salvou aqueles que lhe ficaram próximos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

9 comentários em “A PROFUNDIDADE DO ADVENTO”

  1. Sublime texto ! E a pequena brasa não salvou o mundo, mas salvou os que precisavam dela — somos corpo de Deus a vida nos conecta com esta beleza ser luz, a brasa que aquece . em utilidade ao outro , ser transparente , verdade─ assim se resume no cumprimento, do dever cumprindo os mandamentos da lei de Deus . A sentinela boa amiga desperta o amor , ao próximo , não salvou o mundo., mas salvou os que precisavam dela . Assim Deus deu a vida por cada um de nós— e disse fazei-o vós também . Um Bem Haja

  2. Conceição Azevedo, obrigado pela profunda reação tão belamente articulada. Ela é uma síntese que não apenas compreende, mas que também expande e ilumina o núcleo da reflexão.
    De fato, a Conceição atingiu o âmago daquilo que o artigo tentava sussurrar. A forma como destilou a essência na imagem da “pequena brasa” é realmente precisa: não a pretensão de um incêndio que salva o mundo, mas o calor modesto e direcionado que salva quem está ao alcance. É nessa escala humana, no serviço ao outro feito com transparência e verdade, que o sublime se torna gesto, dever e realização.

  3. Resignação rasteira!? é uma coisa tremenda mesmo um conceito a ser estudado mas não cabe em lado nenhum.ok poderá haver estudos que nos levem a pensar a resignar.por exemplo pelo bem comum.mas rasteira é top. Só mesmo o ventura.!

  4. Vítor Lopes, obrigado pelo teu comentário. Ele manifesta um envolvimento atento com o texto e toca num ponto fulcral da argumentação: a natureza da resignação.
    Parece que o termo “rasteira” funcionou como um gatilho, precisamente pelo seu peso valorativo. Identificas , com razão, que a resignação pode ser um conceito complexo (“uma coisa tremenda”) e que pode haver formas de resignação que não são “rasteiras”, mas sim escolhas ponderadas e até nobres “pelo bem comum”.
    A minha intenção ao usar “resignação rasteira” era precisamente demarcar uma fronteira. Não me refiro à aceitação serena do que não se pode mudar (a Gelassenheit dos místicos, por exemplo), nem a um sacrifício consciente pelo coletivo. Refiro-me a uma capitulação precoce do espírito, a uma desistência que nem sequer se permite sentir a “inquietação” de que fala Agostinho. É a resignação que adormece a “sede que nos define”.
    Tens toda a razão ao dizer que “não cabe em lado nenhum”. É mesmo essa a ideia. A “resignação rasteira” é o oposto do estado de Advento. O Advento é uma espera ativa, carregada de desejo, intenção e atenção (a “mais alta forma de atenção” atestada na citação de Weil). É um não-conformismo íntimo. A resignação de que falo é a extinção desse desejo, é acomodar-se na finitude como se fosse a palavra final.
    O comentário final, “só mesmo o ventura.”, sugere que leste no termo uma certa carga política ou um juízo moral específico que interesses institucionalizados procuram criar nos cidadãos. A minha referência, no entanto, é mais existencial e teológica, embora reconheça que o conceito tenha inúmeras ramificações sociais e políticas. O ponto central do texto permanece: perante a constatação da nossa impotência perante a beleza e a brutalidade do mundo, há dois caminhos: o do adormecimento da resignação (a “rasteira”) ou o do despertar para uma inquietação que é, paradoxalmente, luminosa e orientadora.
    Obrigado por este teu contributo que me levou a argumentar e deste modo a poder esclarecer o conteúdo do meu texto. Diálogos como este mostram como as palavras, especialmente as mais carregadas, precisam de ser escavadas como fizeste e assim se poder chegar a uma visão mais profunda.

  5. Mila Cerca, obrigado pelas suas palavras. Elas levaram-me a pensar no processo do “entender” e gostaria de partilhar consigo uma imagem que me ocorreu.
    Penso que o verdadeiro entendimento se assemelha a acender um fósforo. Tudo começa com um ato de vontade e atenção que é o raspar da cabeça do fósforo na caixa. Esse é o momento do primeiro contacto, da faísca do pensamento. Pode parecer um gesto pequeno, mas é absolutamente essencial. Sem ele, não há luz, não há calor.
    E o que a Mila descreve, ou seja, o ficar “pelo menos, a pensar”, é exatamente esse gesto fundamental. É a cabeça a ser raspada contra o mistério ou a ideia. Essa inquietação, essa faísca inicial do pensamento, não é um passo incompleto; é o princípio de tudo. É a condição para que, depois, a chama possa descer e aquecer o coração, iluminando por fim toda a pessoa. (Penso alargar esta reflexão num artigo!)
    Por isso, o seu “não entender tudo” não é um ponto final, mas o ponto de ignição. É onde tudo começa a arder.

  6. Obrigada… Estava mesmo a precisar de ler este trecho…
    A metáfora da sentinela ilustra bem o que devemos fazer…

  7. Maria Carolina Almeida, muito obrigado pelas tuas palavras. Fico verdadeiramente contente por saber que este texto sobre o Advento te chegou no momento certo e que a metáfora da sentinela ressoou em ti.
    Vindo de uma profissional que, como psicóloga, acompanha tanto a complexidade da alma humana, o teu comentário tem um peso especial. A imagem da sentinela, vigilante e atenta, num estado de preparação ativa, fala não só de uma postura espiritual, mas também de uma atitude psicológica profunda: a capacidade de esperar no escuro, de escutar os sinais interiores, de estar presente sem se deixar adormecer pela distração ou pelo ruído do mundo. (Este, como bem sabes, começou a formatar os caracteres humanos já, pelo menos, a partir do momento em que foram dados à luz e que se tornam, por vezes, nos primeiros nós ou traumas a terem de ser desatados!)
    É essa vigilância serena que permite acolher o novo, o inesperado, o que vem para nos transformar. E acredito que o teu trabalho, de certa forma, também ajuda as pessoas a tornarem-se sentinelas de si mesmas.
    Foi um prazer partilhar estas reflexões contigo e ao mesmo tempo recordar os tempos de escola em frente à tua casa.

  8. Não me canso de ler este belo texto ! Tanto aqui há a refletir ! A luz que veio e ainda espera por nós , pois Ele disse : Só Eu Sou Bom , faz pensar porque será Ele assim tão bom ? E porque eu assim não sou ? Ele sempre responde—sou amor ,amo cada um de vós e vos chamo filhos de um Pai Bom ..chamo cada um pelo seu nome ! Não caí um cabelo de vossas cabeças que eu não saiba — em que ponto eu fico a pensar fico inquietante com todo este amor louco !…Bem diz : Santo Agostinho ,” inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti “.

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