Trago no peito muitas pátrias,
e cada uma chora um dialecto.
Mas a língua que as reúne
é a humidade amorosa do nevoeiro.
E quando volto à mesmidade
depois da circunstância me ter sido inteira,
sinto aquela névoa portuguesa
que impregna a realidade de saliva e de poeira.
Nesse nevoeiro, as casas perdem bicos,
as ruas dissolvem-se em lembrança.
E eu entendo que não sou só aquilo que decido,
mas também o que a distância me alcança.
Não sou só o carácter claro,
não sou só o jeito poético de ser.
Sou o “entre” a linha que não vês
e que me ensina a não me esquecer.
Eis o que resiste ao esquecimento:
não um nome, não uma data,
mas esta humidade de madrugada
onde muitas almas são uma só estrada.
Neste mar sem nome que a todos nomeia,
do Brasil a Angola, Moçambique a Portugal,
no espelho da bruma, cada um se rodeia
a ser plural, mas sendo o mesmo afinal.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
5 de Maio 2012, dia da Lusofonia