Eles atearam a discórdia na praça,
fizeram do verbo uma lança e uma couraça.
“De que lado estás?”, grita o vento anónimo,
e o homem esquece que o bem é unânime.
Há moinhos que moem a noite e o dia,
mas não fazem farinha de melodia;
moem o medo, moem a cor emprestada,
e devolvem ao povo uma alma fechada.
Não tragas água, companheiro cego,
para a roda que gira no mesmo sítio.
O ódio que atiras no rosto do amigo
é o mesmo que guardas no teu abrigo.
Racismo não é branco, nem preto, nem verme:
é o espelho partido onde o tolo se afirma.
Olha para dentro, não aches que é tarde,
e tira o carimbo que a nuvem te guarda.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(Num dia de insónias depois de um plenário do
Conselho de Estrangeiros, 1998)